Festival da Rapadura celebra cultura, ancestralidade e resistência no quilombo Furnas do Dionísio, em MS
Festa que já é tradição reuniu comunidade, lideranças e visitantes em dois dias de celebração da produção quilombola, valorização dos saberes ancestrais e articulação por políticas públicas; CONAQ participou das atividades e debates.
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A comunidade quilombola Furnas do Dionísio, em Jaraguari, Mato Grosso do Sul, celebrou, nos dias 15 e 16 de agosto, a 12ª edição do Festival da Rapadura, em uma programação marcada por música, cultura, sabores, encontros e celebrações. Mais do que uma festa, o evento celebrou o cultivo e a colheita da cana-de-açúcar de outros produtos da comunidade, reafirmando a força da ancestralidade, a valorização do território, a educação e a resistência quilombola. A Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ) esteve presente na programação, contribuindo para os debates e para a articulação em defesa dos direitos quilombolas.
Com uma programação que reuniu atividades culturais, comercialização de produtos, rodas de conversa e debates sobre políticas públicas, o festival também se consolidou como um espaço de diálogo sobre as fortalezas e os desafios enfrentados pelas comunidades quilombolas da região.
Nas barracas espalhadas pelo festival, a produção das comunidades ganhou destaque. Artesanatos, roupas com referências à cultura negra, farinha de mandioca, peixes e carnes e diferentes tipos de rapadura foram comercializados. Entre os sabores estavam rapaduras de baru, mamão, leite e coco. O trabalho das trancistas também marcou a programação, com atendimento ao público.
Cultura e resistência
O Festival da Rapadura tem como uma de suas principais características a união entre celebração e luta. A festa valoriza o trabalho realizado no território e os conhecimentos transmitidos entre gerações, ao mesmo tempo em que abre espaço para discutir as demandas das comunidades quilombolas da região.
Lideranças locais, entre elas Jhonny Martins e Greice Jesus Coordenadores Nacionais da CONAQ, Maria Aparecida Silva Martins, e Vera Lucia Rodrigues integrantes da direção da associação quilombola de Furnas do Dionísio , além de pessoas convidadas participaram dos diálogos. As discussões reforçaram que a defesa da terra e do território permanece no centro da vida quilombola e da luta pela garantia de direitos. Coordenadores nacionais da CONAQ entre outras lideranças nacionais também estiveram presentes.
“O mundo está precisando da nossa resposta”
Durante a Festa da Rapadura, o coordenador nacional da CONAQ, Jhonny Martins, destacou que a celebração vai muito além da festa: é um espaço de valorização da ancestralidade, dos saberes tradicionais e dos modos de vida quilombolas.
Ao lembrar a dança do ofertório, a produção de alimentos saudáveis e a biodiversidade preservada no território, Jhonny ressaltou que os conhecimentos construídos e transmitidos pelas comunidades quilombolas carregam respostas importantes para os desafios atuais.
“O mundo está precisando da gente. O mundo está precisando da nossa resposta.”
Para Jhonny, essa resposta nasce nos territórios: está na proteção das águas e do meio ambiente, na produção de comida de verdade, na preservação dos saberes, no cultivo da cultura e na continuidade da ancestralidade.
Sua fala reafirma uma mensagem fundamental: diante das crises ambientais, climáticas e alimentares que atravessam o planeta, os quilombos não são apenas territórios de resistência e memória. São territórios de conhecimento, cuidado e produção de caminhos para o futuro.
O festival também se tornou espaço de articulação política e reivindicação por melhorias para as comunidades, aproximando lideranças, moradores, representantes de instituições e gestores públicos.
Educação quilombola na agenda do festival
A Educação Escolar Quilombola também foi uma das pautas da programação. Ao longo do festival, foram realizadas rodas de conversa com Givânia Maria da Silva, cofundadora da CONAQ, conselheira do CNE – Conselho Nacional de Educação e referência nacional na luta por educação quilombola de qualidade.
A educação foi discutida como instrumento fundamental para o combate ao racismo e para a valorização dos saberes, costumes, histórias e modos de vida de cada comunidade quilombola.
Durante a agenda, Givânia Maria da Silva, Bel Cabral e Cleane Silva, integrante do Coletivo de Educação da CONAQ, também visitaram escolas da região, conversaram com professores e gestores e conheceram as condições e as propostas relacionadas à implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Escolar Quilombola. Em Furnas dos Dionísios a visita foi a Escola Estadual Zumbi dos Palmares, e a Escola Municipal Dionízio Antônio Vieira.
“É uma alegria retornar ao Quilombo Furnas do Dionísio, conhecer de perto as estruturas das escolas e ver os avanços na educação. Parabenizo toda a comunidade, especialmente as lideranças com quem caminho desde o início da trajetória da CONAQ e as mulheres que fazem da educação um caminho de transformação e inspiração para as novas gerações”, destacou Givânia Silva.
A agenda também contou com a participação do governador de Mato Grosso do Sul, Eduardo Riedel, e de sua equipe responsável pelas áreas de educação e cultura. Durante os diálogos, o governo estadual assumiu o compromisso de trabalhar na construção e implementação das Diretrizes Curriculares para a Educação Escolar Quilombola.
Entre as necessidades apresentadas durante as discussões estiveram a formação de professoras e professores quilombolas, a melhoria da infraestrutura das escolas, o transporte escolar dos estudantes e a organização local para a elaboração das Diretrizes Municipais para a Educação Escolar Quilombola. Também foi reforçada a importância do comprometimento conjunto dos governos estadual e municipais para garantir a efetivação da política educacional.
Na segunda feira 17, O Coletivo de educação visitou a Escola Estadual Antônio Delfino Pereira localizada na Comunidade Quilombola Tia Eva, um importante quilombo urbano em Campo Grande.
Um território que celebra sua história
A programação do Festival da Rapadura mostrou que a cultura quilombola se expressa tanto na festa quanto na organização política, na produção, na educação e na defesa do território. Durante os dois dias, a comunidade recebeu pessoas de diferentes lugares e promoveu uma intensa agenda de cultura, diálogos e reivindicações por políticas públicas.
Uma multidão participou da festa, dançou, sorriu e celebrou junto à comunidade, mostrando que a resistência também se manifesta na capacidade de reunir pessoas, fortalecer vínculos e manter vivas as tradições e o bem viver. Em Furnas do Dionísio, o Festival da Rapadura reafirmou uma ideia deixada pelos ancestrais: valorizar a terra, reconhecer o trabalho e fortalecer a comunhão como formas de manter viva a comunidade quilombola.