20 de agosto de 2026
Começo, meio e começo: Romaria no Território Kalunga reafirma a continuidade dos saberes ancestrais de geração em geração
Há mais de 100 anos, Romaria da comunidade Vão de Almas, em Cavalcante, Goiás, reúne crianças, jovens, adultos, matriarcas e anciãos em uma confluência entre oralidade e saberes guardados no corpo e na memória que perpetua a ancestralidade Kalunga.
De 12 a 17 de agosto, a comunidade Vão de Almas, localizada a cerca de 70 quilômetros da área urbana de Cavalcante, no nordeste de Goiás, realiza uma das tradicionais manifestações culturais do Território Quilombola Kalunga: a Romaria de Nossa Senhora D’Abadia. Durante esses dias, essa confluência multigeracional celebra Rezas, Impérios, Sussa, Levantação do Mastro, Folia e outras práticas que fazem parte da tradição. Há quanto tempo tudo isso acontece, no entanto, não se tem uma data registrada.

Império de Nossa Senhora D’Abadia em 2025 | foto por Alciléia Torres
“Ih, minha fia, essa Romaria é muito antiga. Minha vó falava que a bisavó dela já conheceu essa Romaria. Minha bisavó falava que, quando ela tava crescendo, já conheceu essa Romaria. E passou pra minha vó, e minha vó me contava que já era assim, essa festa”, relata dona Dainda dos Santos, conhecida como a Rainha do Kalunga, nascida em 1947.

Dona Dainda ao lado do rei César em 2025 | foto por Alciléia Torres
A memória de dona Dainda rememora gerações anteriores à sua própria existência. Segundo as histórias que escutava da avó, na região onde acontece a Romaria viviam negros que fugiam da escravização e povos indígenas. “Nessa capela moravam os negros fugitivos e os ‘índios’ que nós chama de cumpade. Um morava de um lado, outro morava do outro, mas era tudo vizinho”, relembra. Esse relato remonta a história da vida afro-confluente que existe desde a chegada dos povos escravizados em solo pindorâmico. Uma história que não começa no papel.
A ausência de um registro conhecido que determine o início da Romaria não significa ausência da história. Para o historiador e quilombola Kalunga, Tales Damascena, é importante olhar também para os processos históricos de apagamento que atingiram as populações negras no Brasil e para as diferentes práticas vivenciadas por essas comunidades para preservar e transmitir suas memórias.

Império do Divino Espírito Santo em 2026 | foto por Alciléia Torres
“Quando ninguém consegue apontar uma data exata para o início da Romaria, isso não quer dizer que a história se perdeu. Quer dizer também que ela foi guardada de outras maneiras: no corpo, na palavra, na promessa, no caminho, na cozinha e na obrigação com a comunidade. A Romaria continua porque cada geração aprende participando e, depois, assume a responsabilidade de fazer continuar”, explica o historiador. Esse registro guardado no corpo-território, na oralidade e nas vivências de quem festeja a Romaria atravessa diferentes gerações. Dona Neuza Kalunga, 55 anos, foi rainha do Império de Nossa Sra. D’Abadia em 2013 e carrega na própria história familiar essa continuidade. Ela conta que sua avó, dona Tereza, nascida em 1905, também foi rainha na Romaria. “Nossa senhora, essa Romaria aí tem tempo demais. eu me lembro da minha avó que nasceu na era de 1905 e ela foi rainha nesse festejo”, conta dona Neuza.
Dona Neuza e seu primo Sebastião na fazeção da candeia de cera que é utilizada na Romaria | foto por Alciléia Torres
Uma Romaria para além de religião Durante os seis dias de Romaria, diferentes práticas acontecem no festejo. Tem a Enfeitação e a entrega dos enfeites, as Oito Horas (Procissão das Candeias), a Levantação do Mastro, a Fogueira, a Sussa e os Impérios. Cada momento carrega seus próprios modos de fazer. No Império do Divino Espírito Santo, as cores vermelhas marcam as vestimentas e o rei deve ser um homem solteiro. Já no Império de Nossa Senhora D’Abadia, a rainha veste branco e o rei usa terno. Para assumir essa missão, ambos precisam ser casados na Igreja, mas não o casal em si, são pessoas de famílias diferentes. As crianças também participam desse momento como anjinhos, acompanhando reis e rainhas durante a celebração.

Ivaneide rainha em 2025 | foto por Alciléia Torres
Embora a Romaria tenha como referências Nossa Senhora D’Abadia e o Divino Espírito Santo, compreender o festejo apenas pela religião não dá conta das diferentes dimensões que atravessam sua existência. No Vão de Almas, espiritualidade, ancestralidade, cultura e modo de vida não aparecem necessariamente como ações dispersas. Elas confluem em práticas que atravessam a relação com o território, com os antepassados e com a própria organização comunitária.

Marcelino ao lado de seu pai Cirilo e dos anjinhos em 2026 | foto por Alciléia Torres
Essa relação também carrega marcas da história das populações negras no Brasil. Durante a diáspora africana, povos negros submetidos à escravização tiveram suas práticas perseguidas e criminalizadas, mas seus conhecimentos não desapareceram. Em diferentes partes do país, referências africanas foram preservadas e recriadas em diálogo com povos indígenas e também com elementos do catolicismo imposto pela colonização.

Oito horas (Procissão das Candeias) 2026 | foto por Alciléia Torres
É nesse contexto que estudos sobre manifestações negras utilizam expressões como afrocatolicismo ou catolicismo negro para compreender experiências em que símbolos católicos foram apropriados e ressignificados pelas populações negras. Para além de uma simples mistura entre religiões, esses processos revelam formas próprias de produzir pertencimento, espiritualidade e continuidade cultural. Para o historiador Tales Damascena, é importante compreender a Romaria para além do catolicismo e da própria ideia ocidental de religião. “Isso não significa negar a devoção à Nossa Senhora D’Abadia e ao Divino Espírito Santo, mas reconhecer que, no Território Kalunga, o festejo também reúne ancestralidade, parentesco, memória, trabalho coletivo e transmissão de saberes. A Romaria é uma forma de organizar a vida comunitária e de reafirmar nossa continuidade enquanto povo”, afirma Tales Damascena.

Tales ao lado de Iaiá Procópia em 2026 | foto por Isabelle Almeida
A continuidade acontece no fazer
O tempo da Romaria não começa apenas quando risca o fósforo na primeira candeia de cera, nem termina quando se desce o mastro. Ele vem da memória preservada ao longo dos anos, da comida afetiva preparada para servir na festa e da organização comunitária que começa bem antes dos seis dias de celebração.

As pessoas reunidas na organização para a Romaria | foto por Irailson Santos
A cada ano, pessoas do Território são escolhidas para assumir a responsabilidade de festeiras da Romaria seguinte. Ao longo do ano, os festeiros se preparam para organizar a celebração e receber o povão que chega para a Romaria. “Eu fiquei muito muito feliz quando fui escolhido pra ser o novo rei de Nossa Senhora D’Abadia. Tem muita gente aí que já tem mais de 30 anos na espera pra fazer essa festa e até agora nunca foi escolhido e eu uma pessoa com 33 anos fui escolhido pra ser o rei. Se tivesse a oportunidade eu fazia novamente, mas todo mundo sabe que a gente só faz essa festa uma vez”, afirma César Torres, o rei do Império em 2025.

César na hora do Império em 2025 | foto por Alciléia Torres
A alegria de ser escolhido, no entanto, veio acompanhada da responsabilidade de assumir uma festa que mobiliza toda a comunidade e recebe gente de múltiplos lugares. Para César, ser escolhido para ser o rei significou também começar a pensar em tudo que seria necessário para dar conta da missão recebida. “Eu fiquei preocupado, querendo ou não, a gente já tá com vontade de fazer ela mas quando a gente é chamado na hora vem a preocupação porque é uma festa que a gente tem que ter uma responsabilidade muito grande, é uma festa que a gente faz com a ajuda do povo, mas mesmo assim é preocupante”, conta.

Enroladinho feito pelas pessoas e assado no forno de barro | foto por Irailson Santos
Embora os festeiros sejam escolhidos para fazer a festa, eles não ficam sozinhos. Para que o festejo aconteça, são necessárias muitas mãos. À medida que agosto se aproxima, gente é o que não falta para ajudar em todo o trabalho que precisa ser feito. Um deles é o preparo dos alimentos. Tem paçoca de carne socada no pilão, bolo assado no forno de barro e várias outras receitas preparadas para servir quem participa. “Eu comecei participar da fazeção dessa festa com meus 12 anos de idade, aprendi com minha vó Procópia. Quando iam fazer as coisas, eu ficava em cima olhando e ajudando. Meu marido foi rei em 2006 e naquele tempo tudo era difícil, mas nós deu conta de fazer a festa”, conta Alzira Fernandes .

Alzira no Império de Nossa Senhora D’Abadia 2025 | foto por Alciléia Torres
De Mamando a Caducando
Entre uma fazeção e outra, os saberes também circulam, quem aprendeu com a geração avó ensina a geração neta, que aprendem colocando a mão na massa. Durante os seis dias de Romaria, crianças participam das rezas, acompanham a Sussa, a Folia e demarcam território nas próprias tradições do festejo. Nos Impérios, essa presença ganha forma nos anjinhos, crianças que acompanham reis e rainhas durante a celebração. Desde pequenas, elas passam a conviver com práticas que já eram vivenciadas por suas gerações antecessoras.

Islani Castro filha do rei César 2025 | foto por Alciléia Torres
É nesse encontro que a Romaria também pode ser compreendida a partir do “começo, meio e começo”, pensamento do quilombola Antônio Bispo dos Santos, Nêgo Bispo. A ideia rompe com a lógica linear do tempo, marcada por começo, meio e fim, para pensar uma existência em que os ciclos continuam e novos começos são re’produzidos. Fazer a festa acontecer também exige apoio do poder público.
Fazer a festa acontecer também exige apoio do poder público
Embora grande parte da organização da Romaria seja construída pelas próprias mãos da comunidade, a realização do festejo que recebe um grande número de pessoas durante seis dias também depende da presença do poder público e de outros órgãos parceiros. Serviços de infraestrutura, limpeza, apoio logístico e outras demandas necessárias para receber o povão se somam à organização feita pelos festeiros e moradores.

Estrutura de apoio utilizada durante a Romaria do Vão de Almas | foto por Alciléia Torres
Durante a Romaria, por exemplo, o Prevfogo atua molhando a praça para amenizar a poeira levantada pela circulação de pessoas e veículos. A Prefeitura Municipal de Cavalcante também está presente com serviços de infraestrutura e no apoio às atrações artísticas que fazem o Forrozão durante as noites do festejo.
Como chegar ao Vão de Almas
A comunidade Vão de Almas fica a cerca de 70 quilômetros da área urbana de Cavalcante. Um dos principais acessos é pela Serra do Pouso do Padre. Saindo de Cavalcante pela GO-118, entre Teresina de Goiás e Monte Alegre de Goiás, a entrada fica à esquerda, cerca de 20 quilômetros depois de Teresina. O percurso segue por estrada de terra, com trechos íngremes na serra, e exige veículo 4×4.

Estrada pela Serra Pouso do Padre | foto por Alciléia Torres
Para quem não está no veículo 4×4, há outra possibilidade de chegar ao Vão de Almas atravessando o Rio Paranã de balsa. Nesse caso, saindo de Cavalcante em direção a Monte Alegre de Goiás, pela GO-118, a entrada fica à esquerda logo depois da ponte sobre o Rio Paranã. A partir desse acesso, existem dois caminhos: pela Contenda, com aproximadamente 31 quilômetros, ou pelo Bom Jardim, com cerca de 45 quilômetros. Os dois permitem chegar à região da Romaria utilizando a travessia de balsa e são uma alternativa para quem está em veículos que não são 4×4. Antes de pegar a estrada, é importante verificar as condições da estrada e o funcionamento da balsa, principalmente porque as condições de acesso podem mudar ao longo do ano.
Referências para edição e aprofundamento
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Texto por Por Alciléia Torres e Tales Damascena , publicado às 18:38:14
Categoria: Cultura Quilombola