18 de novembro de 2025
Vozes quilombolas na COP30 destacam comunicação, ancestralidade e defesa territorial
Ecologia ancestral, Amazônia quilombola, direitos humanos, titulação e soberania alimentar ecoaram na Conferência
A terça-feira (18), do movimento na COP30, foi marcada por mobilização em múltiplos espaços da Casa das ONGs à Zona Azul e à Zona Verde reforçando a centralidade dos territórios quilombolas na construção de soluções climáticas, na denúncia das desigualdades e na defesa dos direitos que sustentam o bem viver.
Comunicação quilombola no centro das narrativas da COP30
Na Casa das ONGs, o debate reforçou como a comunicação tem sido uma das principais ferramentas de resistência e incidência do movimento quilombola. Nathália Purificação (CONAQ) destacou que o diálogo sempre foi uma tecnologia social fundamental nos territórios, mas fez um alerta sobre o peso desigual dessa luta: “Nosso corpo nunca descansa, nós pretos, quilombolas, quando saímos do território enfrentamos muitas dificuldades.”
Mediado por Samily Valadares (PA), o diálogo reuniu também Mayara Abreu (Malungu), Ricardo Cabano (MST), Everton da Silva (CICLOLOG) e Ruthielly Valadares (Instituto Perpetuar), evidenciando a força coletiva das narrativas populares na COP30.
Práticas agrícolas quilombolas: contribuições estratégicas para políticas de clima e biodiversidade
Na Zona Azul, a roda de conversa “Sistemas Agrícolas Quilombolas: Ecologia Ancestral para a Justiça Climática” reuniu mulheres quilombolas que são guardiãs de biomas e sementes. Laura Silva, Nilce Pontes e Fran Paula compartilharam saberes transmitidos por gerações e afirmaram o papel estratégico das práticas agrícolas tradicionais na preservação ambiental.
As representantes da CONAQ ressaltaram que seus territórios são espaços de produção de conhecimento, onde se cultivam modos de vida sustentáveis que respondem diretamente aos desafios climáticos atuais.
Estudo reforça papel estratégico dos territórios
Também na Zona Azul, a CONAQ participou do Painel Amazônia Quilombola, promovido com o ISA e a Tenure Facility. Durante o encontro, foi apresentado o estudo que comprova a relevância dos territórios quilombolas da Amazônia Legal para a preservação da floresta.
Biko Rodrigues (CONAQ) destacou:
“Esse estudo aponta que os quilombos da Amazônia são existentes, e que esses dados são extremamente importantes, pois mostram que os quilombolas também preservam a floresta. É fundamental que os quilombos estejam incluídos no financiamento climático e que esses recursos cheguem de forma direta às nossas comunidades.”
O painel reforçou a urgência de titulação, segurança jurídica e investimentos que fortaleçam a gestão territorial quilombola como solução climática baseada em ancestralidade.
Discussão estratégica sobre impactos do racismo nas agendas ambiental e tecnológica
Na Zona Verde, o painel sobre Direitos Humanos, Racismo Ambiental e Algorítmico trouxe reflexões fundamentais sobre invisibilização e desigualdade. Nathália Purificação alertou: “Como falar de acesso a alguma coisa se ainda estamos invisíveis no mapa?”
Mediado por Juliane Cintra (ABONG), o debate evidenciou que tecnologias “do futuro” seguem reproduzindo desigualdades históricas. A mensagem central foi clara: sem reconhecer quem protege a terra há séculos, não é possível construir políticas públicas eficazes.
Seminário “Criadores de Refúgios, Guardiões do Futuro”
No Museu das Amazônias, em Belém, lideranças quilombolas marcaram presença em um evento em parceria com com a ONG Uma Gota no Oceano. Na ocasião, foram debatidos três temas centrais: titulação, NDC Quilombola e o poder do Caucus (CONAQ e CITAFRO) na incidência internacional pela justiça climática.
Sandra Braga, Xifroneze Santos, Biko Rodrigues, Jhonny Martins e demais participantes reforçaram que titulação, financiamento direto, governança territorial e protagonismo das mulheres são pilares indispensáveis para proteger biomas, modos de vida e o futuro climático.
O recado ecoou forte: não há justiça climática sem quilombo titulado.
Manifesto pelos Sistemas de Agricultura e Alimentação Tradicional
No Pavilhão Food Roots (Zona Azul), o painel sobre o Manifesto, mediado por Bel Cabral (CONAQ), reafirmou que a agricultura tradicional quilombola é ciência, tecnologia e política de vida.
Lançado pela Aliança Científica Antirracista, o manifesto demonstra que a agricultura praticada nos territórios não é apenas técnica produtiva — são sistemas vivos que regeneram solos, mantêm a diversidade de sementes, protegem biomas e sustentam comunidades.
Defender a agricultura tradicional, afirmaram, é defender soberania alimentar, justiça climática e continuidade dos modos de vida ancestrais.
Texto por Thaís Rodrigues CONAQ/Uma Gota no Oceano, publicado às 22:52:32
Categoria: COP30