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6 de fevereiro de 2026

Visita da Embaixada da Espanha ao Quilombo Mesquita fortalece alianças em defesa dos direitos quilombolas

Encontro reuniu lideranças e representantes do governo espanhol para troca de saberes e reafirmação da luta e titulação dos territórios.

Na manhã desta quinta-feira (5), o Quilombo Mesquita recebeu a visita de uma delegação da Espanha em um encontro marcado pela troca de saberes, memória e compromisso com a defesa dos direitos humanos. A atividade reforçou a importância do diálogo internacional na luta pela proteção dos territórios quilombolas e pelo reconhecimento de seus modos de vida.

A comitiva foi composta por Susana Sumelzo, vice-ministra da Espanha; a embaixadora Mar Fernández-Palacios Carmona, Javier Gassó, diretor-geral para Iberoamérica; e Hansi Escobar, ministro da embaixada. Durante a visita, os representantes conheceram a história da comunidade, sua trajetória de resistência e as iniciativas desenvolvidas no território.

Todos foram recepcionados por lideranças do território incluindo Sandra Pereira Braga, coordenadora executiva da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ) e Presidente do Quilombo Mesquita, pelo vice-presidente José Roberto, o tesoureiro João Dutra e Selma Dealdina Mbaye, articuladora política e coordenadora do coletivo de Mulheres da CONAQ.

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Foto: Pedro Garcês/Comunicação CONAQ

 

Um dos destaques do encontro foi a apresentação do Projeto Cafuné, iniciativa apoiada pelo Fundo CASA, Fundo Baobá, Fundo ELAS, AECID, Ibirapitanga, Bem-Te-Vi e Thousand Currents e voltada à proteção e ao fortalecimento das mulheres quilombolas defensoras de seus territórios. A articuladora explicou que a iniciativa é resultado de um processo de escuta direta das mulheres quilombolas em diferentes regiões do país. 

“Ao invés de o Estado dizer o que é melhor para nós, nós estamos dizendo ao Estado o que entendemos por proteção e segurança”, afirmou. Segundo ela, o material produzido dará origem a um documento e a um documentário que serão lançados no III Encontro Nacional de Mulheres Quilombolas, previsto para maio.

Durante o diálogo, a liderança também apresentou um panorama da presença quilombola no Brasil. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, existem quase 10 mil territórios quilombolas no país, distribuídos em mais de 1.600 municípios e presentes em todos os biomas.

Foto: Pedro Garcês/Comunicação CONAQ

“Pela primeira vez na história, o IBGE contou a população quilombola. Isso é uma conquista da nossa luta”, destacou. Ela lembrou ainda que mais de 4 mil comunidades são certificadas pela Fundação Cultural Palmares, mas que a titulação definitiva dos territórios segue sendo um desafio. “O nosso sonho é que esse território seja titulado, porque a titulação garante que a gente permaneça na terra com mais segurança. O Estado brasileiro tem demorado décadas para assegurar este direito”, ressaltou.

A articulação internacional também foi enfatizada. Selma explicou que comunidades quilombolas fazem parte de uma rede presente em 16 países, onde recebem diferentes nomes, como palenques, garífunas e marrons, mas compartilham a mesma luta pela terra e pela dignidade.

Em um momento emocionante, Sandra Braga relatou sobre a casa onde viveu na infância e que hoje abriga a sede da Associação Quilombo Mesquita. Com cerca de 300 anos, o espaço simboliza a continuidade da memória e da resistência do território. “Eu fico muito emocionada quando chego aqui, porque minha infância foi nessa casa. Cresci com meus avós. Isso me dá força, é como se eu me reenergizasse. Eu não posso parar, eu tenho que continuar”, afirmou.

Ao final do encontro, as lideranças destacaram a importância de fortalecer alianças internacionais em defesa da vida, do território e da dignidade dos quilombolas, ampliando o reconhecimento de suas reivindicações históricas.