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8 de agosto de 2025

V Escola de Mulheres Feministas da CLOC/Via Campesina no Brasil é realizada em Luziânia (GO)

Conjuntura, território e justiça na perspectiva feminista quilombola

Entre os dia 4 e 8 de agosto de 2025, a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), esteve reunida com cerca de 10 organizações da sociedade civil no Conselho Indigenista Missionário (Cimi), em Luziânia Goiás. 

A jornada intensa abriu espaço para análises profundas  da conjuntura nacional e internacional a partir das vivências e resistências de mulheres do campo, das florestas, das águas e dos quilombos.

 

Abertura e análise de conjuntura

Crédito: Pedro Garcês/Comunicação CONAQ

Após a mística que reverenciou a ancestralidade e firmou compromisso com a luta coletiva, iniciou-se a mesa de análise de Conjuntura. Cada organização presente compartilhou, em 15 minutos, suas leituras políticas sobre o momento atual.

 

O Movimento de Mulheres Camponesas (MMC), destacou a urgência da anistia, a influência de políticas globais como o trumpismo na economia brasileira, e o retrocesso que ainda enfrentamos mesmo com o país fora do mapa da fome. Reafirmou a importância de fortalecer a agroecologia e os sistemas agroflorestais como resistência concreta. Enquanto o Movimento dos Atingidos por Barragem(MAB), trouxe à tona o avanço do capitalismo e a necessidade de disputar o projeto de transição energética a partir de uma perspectiva popular:  “ Nós, mulheres, temos potencial para desconstruir esse modelo”, afirmou. 

 

Além de questionar sobre a soberania que queremos construir e alertar sobre os riscos de invisibilização  dos territórios nas agendas internacionais. Nessa mesma linha, a entidade dos Pescadores e Pescadoras Artesanais (MPP), pautou o tema sobre o ponto dos direitos das marisqueiras e a ausência de compromisso efetivo por parte do Ministério da Pesca, com as mulheres dos territórios costeiros. 

 

De forma direta, o Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), trouxe denúncias sobre o avanço desenfreado da mineração, com destaque para o Ceará como nova fronteira desse extrativismo predatório, bem como o papel da China nesse processo. Reafirmando ainda que as mulheres seguem sendo as principais defensoras dos territórios ameaçados. Mesmo com muitas lutas e enfrentamentos, é possível celebrar os pequenos avanços, como a aprovação do Plano Nacional de Juventude Rural que visa crédito de permanência, e desburocratização da herança de terras para jovens do campo. 

 

Em seguida, o espaço foi aberto à CONAQ, que apresentou o coletivo de Mulheres/Secretaria e o fórum de Mulheres quilombolas, além de antecipar a realização do Encontro de Nacional Mulheres  Quilombolas, que acontecerá em 2026 junto ao aquilombar, reforçou os desafios históricos da luta pela titulação, pela vida das defensoras e pela reparação e bem viver. 

Fechando a mesa de diálogos, foi a vez da organização à frente dos Pequenos Agricultores (MPA) pontuou o clima de desesperança imposto pela conjuntura: “Querem nos fazer acreditar que é o fim do mundo para que paremos de lutar, mas precisamos recuperar a confiança nas lutas coletivas, enfrentando assim a guerra de classes e os desafios do sistema com estratégias organizadas, feministas e populares”.

 

Geopolítica e capitalismo no campo

Crédito: Pedro Garcês/Comunicação CONAQ

 

Na manhã do segundo dia a discussão girou em torno da geopolítica e da fragmentação histórica dos povos, especialmente dos povos negros, junto a uma análise das relações de poder e a disputa internacional sobre os bens naturais, apontando os riscos da ausência de soberania nos territórios. A partir disso, destacaram a urgência de fortalecer canais de mediação política, construir lutas de massa com base na realidade dos povos, firmar a solidariedade dos povos, e firmar a solidariedade internacional como princípio de resistência. 

 

COP 30 e a farsa da transição energética

Crédito: Pedro Garcês/Comunicação CONAQ

 

A Conferência das Partes foi colocada no centro do debate como mais uma expressão do sistema capitalista disfarçado de solução climática e denunciando a atuação das grandes corporações e do mercado de trabalho. Entre as críticas compartilhadas, destaca-se o sistema de créditos de carbono, que apenas perpetua o extrativismo, transferindo a responsabilidade climática aos países empobrecidos enquanto os países ricos seguem explorando petróleo e destruindo o planeta. E os territórios tradicionais e quilombolas continuam sendo alvo de novas formas de violação, mesmo com a promessa das chamadas “energias limpas”, a disputa pelos minerais estratégicos na América Latina e na África aumenta a pressão sobre comunidades afro-rurais, indígenas e camponesas.

 

Feminismo popular e resistência quilombola

Crédito: Pedro Garcês/Comunicação CONAQ

 

A Via Campesina e as mulheres presentes afirmaram que a transição energética que queremos é anticapitalista, feminista, negra e popular. Reafirmaram a centralidade da prática política coletiva, da luta socialista e do feminismo popular como ferramentas para uma transformação real. Relembraram ainda que a luta das mulheres é antiga e segue viva. 

Encerramos essa jornada com a certeza de que o enfrentamento ao racismo, ao capitalismo e ao patriarcado passa, necessariamente, pela organização coletiva das mulheres negras, quilombolas, camponesas e periféricas. Fortalecer a Luta nos territórios, com base na ancestralidade e na solidariedade entre os povos, é o caminho para construir uma transição justa, feminista e popular. Seguimos em marcha, firmes na luta e com os pés fincados na terra.