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23 de junho de 2026

Seminário Nacional debate estratégias para enfrentar a desinformação e proteger direitos no SUAS

Encontro realizado em Brasília reuniu gestores, especialistas, representantes do controle social e pesquisadores para discutir os impactos das fake news sobre programas socioassistenciais e fortalecer ações de orientação à população.

Brasília (DF) – O avanço da desinformação e seus efeitos sobre milhões de famílias atendidas pelas políticas de assistência social estiveram no centro dos debates do Seminário Nacional de Enfrentamento à Desinformação no Sistema Único de Assistência Social (SUAS), realizado em 23 de junho, na Esplanada dos Ministérios, em Brasília. O evento reuniu representantes do governo federal, especialistas, pesquisadores e integrantes do controle social para refletir sobre os desafios impostos pelas notícias falsas e construir caminhos capazes de fortalecer o acesso da população à informação de qualidade.

A programação foi organizada em dois momentos centrais: o painel “O ecossistema da desinformação nos programas sociais” e o debate “Estratégias de enfrentamento à desinformação no Sistema Único de Assistência Social”. Ao longo das atividades, participantes destacaram que boatos e conteúdos enganosos têm provocado prejuízos concretos para beneficiários de programas como o Bolsa Família, o Cadastro Único e o Benefício de Prestação Continuada (BPC).

Segundo dados apresentados durante o seminário, a circulação de informações falsas gera medo da perda de benefícios, aumenta a exposição a golpes e dificulta o acesso da população aos seus direitos. Os efeitos também atingem diretamente os equipamentos públicos, provocando sobrecarga nos Centros de Referência de Assistência Social (CRAS), aumento da demanda por atendimentos e dificuldades operacionais.

Direito à informação também é garantia de cidadania

Foto: Comunicação CONAQ

 

Durante a abertura do encontro, a presidente do Conselho Nacional de Assistência Social (CNAS), Adenora Gomes González, ressaltou que o acesso à informação correta é um elemento essencial para a efetivação dos direitos sociais.

“A desinformação vem causando inúmeros prejuízos neste país. Tem muita gente que perde benefício por conta de desinformação. Tem outros que recebem uma informação equivocada e acabam deixando de buscar seus direitos”, afirmou.

A conselheira destacou ainda a importância do fortalecimento dos conselhos municipais e da articulação entre diferentes equipamentos da rede socioassistencial para ampliar o alcance das orientações oficiais.

“É necessário que todos esses equipamentos tenham as informações corretas para repassar para as pessoas. Precisamos garantir que elas tenham acesso à informação e aos direitos que lhes pertencem.”

Por fim, ela também chamou atenção para a influência crescente das redes de mensagens instantâneas na vida cotidiana dos brasileiros. “Para muita gente, o WhatsApp se tornou o principal veículo de comunicação. E nem sempre ele leva a informação correta. Muitas pessoas mal-intencionadas utilizam esses espaços justamente para disseminar conteúdos que acabam prejudicando a população.”

Quando a mentira afeta políticas públicas

O secretário nacional responsável pelo Bolsa Família, João Paulo de Faria, lembrou que os ataques às políticas sociais não são recentes e ressaltou a necessidade de tornar as informações oficiais mais acessíveis à população.

“Os beneficiários precisam de regras claras. Precisam compreender o que é o programa, para que ele serve e como pode contribuir para a superação da pobreza.”

Segundo ele, uma das estratégias adotadas pelo governo foi fortalecer a comunicação baseada em evidências científicas.

“O combate à desinformação é também uma defesa da ciência. O Bolsa Família é um programa amplamente estudado e referendado pela academia. Não se trata apenas de transferência de renda, mas de uma política que conecta as famílias a outros direitos fundamentais.”

João Paulo destacou ainda que os resultados observados na redução da pobreza e da insegurança alimentar ajudam a demonstrar a efetividade das políticas públicas quando acompanhadas de informação qualificada.

Educação digital e participação social

Outro tema recorrente nas discussões foi a necessidade de ampliar ações permanentes de educação midiática e alfabetização digital.

Para Raphael Ramos Monteiro de Souza, da Política Nacional de Direitos Digitais (PNDD), o enfrentamento à desinformação exige uma combinação de vigilância institucional e participação cidadã.

“Precisamos avançar na conscientização permanente. É um trabalho de todos e para todos. Também é fundamental fortalecer canais de denúncia e espaços de esclarecimento para que a população saiba onde buscar informações confiáveis.”

O especialista ressaltou que muitas situações sequer chegam aos órgãos competentes por falta de conhecimento dos mecanismos disponíveis para denúncia, o que contribui para a continuidade de golpes e fraudes.

Narrativas digitais e ataques aos programas sociais

Representando o Instituto Democracia em Xeque, Fabiano Garrido apresentou análises sobre a circulação de conteúdos enganosos relacionados ao Bolsa Família nas redes sociais.

Segundo ele, levantamentos recentes identificaram milhões de interações em publicações que questionavam a legitimidade do programa.

“Uma das narrativas mais recorrentes é a ideia de que o Bolsa Família criaria dependência e desestimularia o trabalho. Quando pessoas com grande alcance reproduzem esse tipo de discurso, acabam impulsionando movimentos de desinformação que atingem diretamente uma política fundamental para a inclusão social.”

O pesquisador ressaltou que a responsabilidade sobre a qualidade das informações não se limita aos gestores públicos, mas também alcança comunicadores, influenciadores e personalidades com grande audiência.

O desafio da pós-verdade

Um dos momentos mais reflexivos do seminário foi a fala de Valdiosmar Vieira Santos, diretor financeiro e ex-vice-presidente do Colegiado Nacional de Gestores Municipais de Assistência Social (Congemas).

Ao abordar as transformações do ambiente digital, ele destacou que o principal desafio atual não é apenas a existência de informações falsas, mas a crescente dificuldade de distinguir fatos de narrativas construídas para gerar identificação emocional.

“Quando começamos a relativizar a verdade, abrimos espaço para que a mentira se ampliasse. Hoje vivemos um contexto em que muitas pessoas conhecem os fatos, sabem que determinadas informações são falsas, mas continuam acreditando nelas porque reforçam suas visões de mundo.”

Valdiosmar também alertou para os impactos da inteligência artificial na produção de conteúdos manipulados.

“Antes, nossos sentidos ajudavam a identificar a mentira. Agora, a tecnologia consegue reproduzir imagens, vozes e situações que parecem reais. Isso torna ainda mais urgente o fortalecimento de fontes confiáveis e da comunicação baseada em evidências.”

Apesar dos desafios, ele destacou que a assistência social possui uma ferramenta poderosa para enfrentar esse cenário. “O que ainda mobiliza as pessoas são os testemunhos da vida real. E é justamente isso que o SUAS faz todos os dias: transforma vidas concretas.”

Como identificar conteúdos enganosos

Durante o seminário, também foram apresentados materiais educativos produzidos pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), orientando trabalhadores do SUAS e cidadãos sobre formas de reconhecer e combater informações falsas.

Entre os principais sinais de alerta estão mensagens sem fonte oficial, promessas de benefícios extras, solicitações de pagamento para atualização cadastral, links suspeitos e conteúdos alarmistas que pressionam o cidadão a agir imediatamente.

O material reforça que o governo federal não cobra taxas para atualização do Cadastro Único e não envia links para esse procedimento por aplicativos de mensagens. Também alerta para boatos recorrentes envolvendo cancelamento do Bolsa Família, supostos pagamentos de décimo terceiro benefício e falsas distribuições de cestas básicas.

Construindo confiança para fortalecer direitos

Ao final do encontro, participantes reforçaram que o combate à desinformação não se resume à correção de boatos. Trata-se de uma estratégia fundamental para garantir acesso a direitos, fortalecer a democracia e ampliar a confiança da população nas políticas públicas.

A mensagem compartilhada ao longo do seminário foi unânime: informação confiável é um instrumento de proteção social. Em um cenário marcado pela velocidade da circulação de conteúdos digitais, fortalecer redes de orientação, ampliar o diálogo com a sociedade e investir em educação midiática tornou-se uma tarefa indispensável para assegurar que nenhuma família deixe de acessar seus direitos por causa da mentira.