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15 de agosto de 2025

Rapadura de Furnas do Dionísio: tradição e sabor que mantém viva a ancestralidade

Do plantio da cana ao festival que movimenta a comunidade, o doce símbolo quilombola é patrimônio cultural e motor da economia local

No coração de Jaraguari, em Mato Grosso do Sul, o Quilombo Furnas do Dionísio mantém viva uma tradição centenária: a produção artesanal da rapadura. Mais que um doce, ela representa a memória de um povo, o legado de seus antepassados e a resistência de famílias que transformaram um símbolo de opressão no passado em fonte de orgulho e renda no presente.

Fundado por volta de 1890 por Dionísio Antônio Vieira e sua esposa Joana Luiza de Jesus, vindos de Salinas (MG) com nove filhos, o quilombo preservou a cultura da cana-de-açúcar e seus derivados – melado, açúcar mascavo e rapadura. Ao longo do tempo, essas práticas foram passadas de pai para filho, sobrevivendo às mudanças e dificuldades. Hoje, a rapadura é o carro-chefe e está no centro de uma grande celebração: o Festival da Rapadura.

A história do festival e o resgate de um saber ancestral

Crédito: Acervo pessoal

 

Relatos detalham que a festa teve início em 2013, ainda sob o nome Folclore Fest, fruto de uma parceria com a Escola Zumbi dos Palmares. Naquele tempo, a produção estava enfraquecida. Isso porque o preço de venda, em torno de R$5,00, não refletia no esforço de levar o produto até Campo Grande para comercializar. Apenas alguns mestres como Titonho, Zé do Nego, Juvenil e Gumercindo mantinham a produção ativa.

Foi então que a comunidade organizou uma reunião para apresentar a ideia de criar uma feira que reunisse barracas de venda de rapadura e outros produtos locais. O sucesso foi imediato, animando os produtores a retomarem a fabricação. Pouco depois, o evento passou a se chamar Festival da Rapadura, em reconhecimento à importância histórica e cultural desse doce para o povo quilombola.

De lá para cá, o festival cresceu, incorporou apresentações culturais, gastronomia típica, shows e, principalmente, tornou-se um espaço de fortalecimento da economia local e da identidade comunitária.

 

O processo artesanal: do canavial ao tablete dourado

Crédito: Acervo pessoal

 

Produzir rapadura é um trabalho minucioso e coletivo. Começa no preparo e plantio da cana, seguido pelos cuidados até o ponto ideal para o corte. Durante o processo cada produtor dá seu toque único que torna seu doce único, após ele é colocado nas formas, resfriado e embalado para a venda.

 

Maria Aparecida Silva Martins, presidente da Associação, descreve carinhosamente a tradição do qual a comunidade tanto se orgulha: “Todo produtor tem suas especialidades em produzir a sua rapadura com carinho, com gosto pelo que faz.”

 

A presidente também destaca que o festival não terá a escolha da melhor rapadura e justificou elogiando que todas merecem destaque: “quem produz coloca seu toque especial e o cliente é que fica em dúvida sobre qual levar”.

 

O valor econômico e cultural segundo quem produz

Crédito: Acervo pessoal

 

 

Nilson Abadio Martins, morador e produtor de rapadura, fala da importância desse trabalho: “Moro, nascido e criado aqui no Quilombo. A rapadura hoje é uma fonte de renda muito importante para as famílias da comunidade. É um produto artesanal, sem conservantes, feito com amor e carinho. Já chegou até o Japão, levada por visitantes encantados com o sabor. Antigamente era embalada na palha de bananeira; hoje usamos insulfilm, mas o cuidado é o mesmo.”

 

Além disso, para ele, o festival foi um divisor de águas. Ele relembra que no passado precisou deixar a comunidade para trabalhar, mas hoje a renda vem do próprio território, sem precisar migrar. Jhonny Martins, diretor-presidente da Negra Anastácia, liderança da CONAQ e também quilombola da comunidade reforça que  todo o processo é um ato de preservação da memória:

 

“Meu avô foi um dos pioneiros na construção da rapadura aqui. Hoje, nossa produção mantém viva a ancestralidade. Temos modelos diferentes, inclusive com mamão, casca de laranja e abóbora, mas a essência é familiar e artesanal. É um alimento maravilhoso que conecta a gente com nossos antepassados.”

 

Comércio e fortalecimento da agricultura familiar

Crédito: Acervo pessoal

 

A comercialização acontece no empório da associação, em feiras livres, supermercados e também diretamente com os produtores tanto no varejo quanto no atacado. Isso garante renda para as famílias e movimenta a economia de Jaraguari e região.

 

O 11º Festival da Rapadura 

Crédito: Acervo pessoal

 

Neste ano, o evento acontece nos dias 16 e 17 de agosto, com entrada gratuita e uma programação diversificada. Além da rapadura, haverá pratos típicos como melado, açúcar mascavo, farinha artesanal, macarrão com linguiça caipira, farofa quilombola, pastel com guariroba, bolo de goma e churrasco.

 

Programação:

Sábado (16/08):

  • 8h – Feira dos Produtores
  • 9h – Abertura oficial, apresentações culturais, inauguração do mural dos presidentes e homenagens
  • 13h – Almoço
  • 19h30 – Show com Felipe Santos
  • 20h – Grupo Pé de Cedro
  • 00h – Gersão e Banda
  • Encerramento: 4h30

 

Domingo (17/08):

  • 8h – Feira dos Produtores
  • 9h – Apresentações culturais
  • 11h – Wilson e Alessandro
  • 13h – Almoço + Samba com Sarará Kriolo
  • 15h – Show-baile com Eco do Pantanal
  • Encerramento: 19h

 

A estrutura inclui área coberta para refeições, praça de alimentação, espaço de dança, banheiros, barracas de produtos artesanais, área kids, além de opções de hospedagem e camping.

Um doce que carrega resistência

 

A rapadura de Furnas do Dionísio é mais que um alimento: é um elo entre passado e presente, um testemunho da luta e da resiliência do povo negro. No passado, a cana-de-açúcar simbolizou a escravidão; hoje, nas mãos quilombolas, se transformou em símbolo de valentia, união e desenvolvimento.

 

Em cada tablete dourado vendido, em cada festa realizada, a comunidade reafirma seu lugar na história com sabor, tradição e dignidade. Fique atento que em breve vamos abordar outras comidas típicas de outros quilombos espalhados pelo Brasil.