Notícias

27 de outubro de 2025

Quilombolas atravessam o Atlântico para ecoar vozes de resistência

Reportagem Especial | Europa, outubro de 2025

Entre os dias 1º e 18 de outubro de 2025, uma comitiva de lideranças da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ) percorreu a Europa em uma agenda política e cultural inédita, construída em parceria com a organização italiana COSPE e cofinanciada pela União Europeia, no âmbito do Projeto Resistência Quilombola. Cida Sousa, Coordenadora nacional da Conaq e do Coletivo de Mulheres, José Maximino, Coordenador nacional da Conaq e Coordenador de Núcleo de Proteção do Projeto Resistência Quilombola e Nathalia Purificação, Coordenadora de comunicação da Conaq passaram por Itália, Espanha, Suíça e Bélgica e realizaram uma agenda marcada por encontros, debates e diálogos estratégicos voltados à proteção de defensoras e defensores de direitos humanos quilombolas e ao enfrentamento ao racismo estrutural.

Raízes, territórios e resistência

Sob o título “Projeto Resistência Quilombola: proteção e autocuidado de defensoras e defensores de direitos humanos no enfrentamento ao racismo e na luta pela garantia dos territórios quilombolas”, a agenda europeia teve como eixo central a defesa da vida e do território, pautas que estruturam a luta quilombola há séculos.

As lideranças da CONAQ, vindas de diferentes regiões do Brasil, levaram à Europa as vozes de centenas de comunidades negras rurais que enfrentam, diariamente, ameaças, invasões e a lentidão do Estado na titulação de seus territórios. A parceria com a COSPE, uma organização italiana com longa trajetória em projetos de direitos humanos e cooperação internacional, fortalece o intercâmbio entre movimentos sociais do Sul Global e redes de solidariedade no continente europeu.

Crédito: ARQUIVO CONAQ

Diálogos e encontros que cruzam fronteiras

A jornada teve início em Florença (Itália), com uma recepção na sede da COSPE, aonde as lideranças quilombolas conheceram a estrutura do escritório matriz da organização. Na mesma semana, a coordenadora nacional da CONAQ e coordenadora Executiva da COEQTO, Maria Aparecida de Ribeiros de Sousa, foi entrevistada por Edoardo Vigna, do Corriere della Sera no Festival Internazionale di Ferrara, evento dedicado ao jornalismo e aos direitos humanos e contou com um público de 79 mil pessoas. A entrevista foi expositiva e cerca de 150 pessoas preencheram a sala do evento para ouvir as questões intrínsecas que atravessam a vivência de Mª Aparecida. A coordenadora  revelou na sua fala a urgência de proteger não apenas o território físico, mas também o patrimônio imaterial de um povo que continua a resistir.

  No contexto, a mesa que levou o título, Resistência e Ancestralidade Negra, foi um momento importante para o início de toda a agenda internacional, M° Aparecida, escureceu em suas palavras, o verdadeiro sentido de ser uma liderança quilombola e emocionou o público ao trazer os desafios que atravessam a sua jornada de jovem mãe, artesã e múltiplas funções adquiridas com a luta social.  

Crédito: ARQUIVO CONAQ

Madrid, Espanha

Da Itália, o grupo seguiu para Madri (Espanha), onde participaram de atividades entre os dias 06 e 08 de Outubro. Os representantes participaram de atividades na Universidade Carlos III, de uma roda de conversa com o Centro Cultural Maloka na Casa do Brasil com o tema “Mulheres Negras e Quilombolas em Marcha” e também fizeram uma visita ao Espacio Consciência Afro

A programação da Universidade Carlos III foi coordenada pelo professor Diego Battistessa, as lideranças convidadas participaram de uma Aula Magna sobre Quilombos do Brasil e Violações de Direitos Contra Defensores de Direitos Humanos Quilombolas,  para a turma Máster en Acción Solidaria Internacional y de Inclusión Social de la Universidad Carlos III de Madrid. Os estudantes receberam de forma calorosa o grupo representante da CONAQ na agenda e marcou um debate importante para todos. 

Crédito: ARQUIVO CONAQ

 

No mesmo dia, a delegação brasileira participou de uma roda de conversa  com O Centro Cultural Maloka, com o tema “Mulheres Negras e Quilombolas em Marcha”, junto ao Comitê Impulsor da Marcha das Mulheres Negras em Madrid e em representação do Comitê de Mulheres Quilombolas em Marcha. O debate contou com a presença da Embaixadora do Brasil na Espanha e na oportunidade foram apresentados dados de violações de direitos contra mulheres quilombolas. Dentro da programação da Roda de Conversa, Mª Aparecida, apresentou o livro “Mulheres Quilombolas: Territórios de Existências Negras Femininas” organizado por Selma Dealdina Mbaye e com coordenação de Djamila Ribeiro, que reúne as vozes de 18 mulheres de diferentes comunidades quilombolas de todas as regiões do país, abordando temas fundamentais para a sociedade. A presença de mulheres quilombolas foi um ponto forte da agenda, reafirmando o protagonismo feminino na construção de estratégias de proteção e autocuidado.

Crédito: ARQUIVO CONAQ

 

No último dia de incidência em Madri, a delegação realizou uma visita ao Espacio Afro Cosnciência e tiveram a oportunidade de confluir vivências e a realidade do povo negro da Espanha e do Brasil. 

A população negra na Espanha continua a enfrentar uma profunda invisibilidade social, refletida na ausência de representatividade nos espaços de poder, na mídia e nas políticas públicas. Essa invisibilidade está enraizada em estruturas racistas que afetam, sobretudo, imigrantes africanos e afrodescendentes, os quais frequentemente vivenciam discriminação no mercado de trabalho, na habitação e no acesso a direitos básicos. Contudo, diversos movimentos e organizações têm atuado para combater esse cenário. Entre eles, destaca-se o Espacio Afro Conciencia, sediado em Madri, que promove atividades culturais, debates e ações educativas voltadas para o fortalecimento da identidade negra e a conscientização antirracista. Junto a outras entidades, como a Red Española de Afrodescendientes, o grupo tem contribuído significativamente para visibilizar as demandas da população negra e pressionar por políticas de igualdade racial e pelo cumprimento efetivo dos direitos humanos na sociedade espanhola.

Crédito: ARQUIVO CONAQ

 

Em Genebra, as vozes quilombolas chegam à ONU

A etapa seguinte, em Genebra (Suíça), teve um peso político central. As lideranças da CONAQ, acompanhadas também pela organização parceira da COSPE, Centro para os Direitos Políticos e Civis (CCPR), se reuniram com diferentes mecanismos das Nações Unidas, o Relator Especial sobre Mudanças Climáticas e Direitos Humanos, o Grupo de Trabalho de Especialistas sobre Pessoas Afrodescendentes, o Grupo de Trabalho sobre Empresas e Direitos Humanos, o Grupo de Trabalho sobre Discriminações contra Meninas e Mulheres, e o Relator sobre Defensoras e Defensores de Direitos Humanos.

Esses encontros abriram espaço para discutir as violações sofridas pelas comunidades quilombolas no Brasil, com foco em violência no campo, impactos ambientais e racismo institucional. As lideranças apresentaram casos concretos e reivindicaram maior atenção internacional às condições de vulnerabilidade enfrentadas por quem defende o direito à terra e à vida nos quilombos.

Crédito: ARQUIVO CONAQ

Na oportunidade, também trouxeram as demandas da população quilombola do Brasil e a ausência de credenciais para participação dos quilombolas na COP30, evento promovido pela ONU para debater as mudanças climáticas. Reafirmaram 

“Para os quilombolas, é extremamente importante entenderem e participarem ativamente das discussões que são centrais na COP, também nos entendemos como solução para a adaptação climática, não há justiça climática, sem território titulado!”, afirma Nathalia Purificação. 

Uma outra agenda de bastante relevância e destaque para a rodada de incidência da Conaq na Europa, aconteceu ainda em Genebra em uma reunião com a equipe especial da OIT, onde as lideranças puderam denunciar as invasões dos grandes empreendimentos e mineradoras dentro dos quilombos, afirmando novamente que a Convenção 169 da OIT não encontra efetivação em territórios quilombolas. Na discussão houve extremo interesse sobre as práticas populares de construção de Protocolos Comunitários de Consulta, estratégia de enfrentamento realizada de forma órganica pelo movimento para defesa de direitos. Foi a oportunidade de trazer uma realidade que há tempos assombra os territórios no Brasil e consolidar oportunidades através de canais de pressão e incidência politica para defesa dos direitos quilombolas no marco de um mecanismo internacional com alcances vinculantes.

Crédito: ARQUIVO CONAQ

 

“Os nossos territórios são invadidos diariamente, viver sob a margem de um país onde interesses políticos sobressaem mais que a preservação dos saberes originários e tradicionais, é entender que o Brasil é um lugar non grato, que nossas vidas não importam para as autoridades e que o dinheiro é mais importante que florestas, rios e mares preservados.”

Bruxelas: a pauta quilombola no coração da Europa

Na Bélgica, a comitiva da CONAQ foi recebida pela Comissão Europeia, em reuniões com os departamentos de Equidade de Gênero, Direitos Humanos e Governança Democrática (INTPA G1), Responsáveis Geográficos para o Brasil (INTPA e EEAS) e o Serviço de Ação Externa Europeia (EEAS). O diálogo foi direto e estratégico: discutir o papel da cooperação internacional na promoção dos direitos quilombolas e no combate ao racismo.

Crédito: ARQUIVO CONAQ

 

“A missão foi extremamente importante do ponto de vista do ativismo quilombola. Nossas vozes precisam ser ouvidas, queremos mais que um plano de ação, queremos efetividade! Denunciamos assassinatos de lideranças e temos como entendimento que quando morre uma ldierança em um quilombo, enfraquece uma comunidade por inteiro. É importante que a titulação dos nossos territórios esteja no centro do debate, é a partir dela que as políticas públicas chegam aos quilombos e é dela que também parte o incentivo para a proteção e cuidado dessa terra. Não existe justiça climática, sem quilombo titulado.”, afirmou José Maximino, coordenador de núcleo de proteção do projeto Resistência Quilombola. 

Ainda em Bruxelas, as lideranças participaram do encontro EU–LAC Civil Society Working Group, no Parlamento Europeu, que reuniu organizações da sociedade civil da América Latina, Caribe e União Europeia. O tema — “América Latina, Caribe e União Europeia diante dos desafios globais” — trouxe à tona reflexões sobre justiça climática, democracia e direitos humanos, com a contribuição inédita de vozes quilombolas nesse espaço.

Crédito: ARQUIVO CONAQ

Reencontros e perspectivas em Florença e Roma

De volta à Itália, as lideranças se reuniram novamente com a COSPE, para avaliar o impacto das atividades e delinear os próximos passos da parceria internacional. O encontro foi marcado por emoção e esperança, com relatos sobre o aprendizado mútuo e os novos caminhos para fortalecer redes de proteção, capacitação e incidência política em defesa dos territórios quilombolas.

Crédito: ARQUIVO CONAQ

 

O encerramento da agenda, em Roma, trouxe compromissos de alto nível: uma reunião com o Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (IFAD) e um encontro com um Senador da Comissão de Direitos Humanos do Parlamento Italiano. Houve também uma entrevista ao jornal Left, ampliando a visibilidade internacional das pautas quilombolas.

Crédito: ARQUIVO CONAQ

 

A delegação retornou ao Brasil no dia 18 de outubro, levando na bagagem não apenas compromissos políticos, mas também um profundo sentimento de reconhecimento e intercâmbio cultural.

Uma travessia coletiva: o quilombo em movimento

Mais do que uma série de reuniões diplomáticas, a agenda europeia foi um gesto de afirmação e continuidade histórica. As lideranças quilombolas, herdeiras da resistência da ancestralidade, reafirmaram que o quilombo não é apenas território físico, mas também um espaço político global, de solidariedade e esperança.

Com o apoio da União Europeia e da COSPE, a CONAQ dá um passo firme rumo à internacionalização da luta quilombola, mostrando que a defesa dos direitos humanos e do meio ambiente é inseparável da luta antirracista.

Essa travessia pela Europa é, portanto, um marco de resistência e presença negra no mundo, um lembrete de que as vozes quilombolas ecoam muito além das fronteiras do Brasil e que o futuro se constrói, também, em diálogo com o undo.

Crédito: ARQUIVO CONAQ