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3 de março de 2026

Quilombo Tapuio recebe titulação definitiva

Comunidade do município de Queimada Nova celebra conquista histórica após anos de espera

O dia 28 de fevereiro entrou para a história do Quilombo Tapuio, localizado no Piauí. A comunidade recebeu oficialmente o título definitivo de seu território, concretizando uma luta marcada por resistência, organização e ancestralidade.

A solenidade de entrega ocorreu às 16h, no salão comunitário, reunindo moradores, lideranças locais e representantes da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ). O momento foi celebrado como a realização de um sonho aguardado por gerações que mantiveram viva a memória e a permanência no território.

Memoria ancestral e símbolos de resistência

Foto: Letícia/INTERPI

 

Durante a cerimônia, um relato simbólico emocionou os presentes ao resgatar elementos que representam a trajetória do quilombo: um baú guardando o documento do tataravô, com mais de 216 anos; a telha da primeira casa erguida na comunidade; o pé de tamarindo, também centenário, como símbolo de resistência; e a água, representando o primeiro açude cavado à mão pelos antepassados.

As práticas tradicionais e a espiritualidade foram lembradas como pilares da sustentação comunitária mesmo em períodos de repressão e dificuldades. Instrumentos como violão e tambor simbolizaram a dimensão festiva e cultural do Tapuio, reafirmando que, apesar do isolamento geográfico e dos desafios históricos, a alegria e a coletividade sempre foram marcas do quilombo.

Um sonho compartilhado entre os quilombos do Piauí

Para Cláudio, da coordenação estadual da CONAQ no Piauí, a titulação do Tapuio representa um sonho compartilhado por todas as comunidades quilombolas do estado. Ele destacou a importância das trocas entre territórios e das pessoas que constroem o movimento:

“Quero dizer que estou aqui com muita satisfação e muito feliz por Rosalina, que hoje está recebendo o título da comunidade dela. Isso é um sonho de todas as comunidades do Piauí um dia ter esse título na mão”. 

A força política do Nordeste quilombola

O coordenador nacional da CONAQ (PE), Antônio Crioulo ressaltou que a entrega do título ocorre em um momento estratégico para o movimento quilombola no Nordeste. Segundo ele, a região concentra mais de 50% das comunidades quilombolas do Brasil e precisa ter participação efetiva nos processos de decisão sobre políticas públicas.


“Também estamos vivenciando a entrega do título definitivo do Quilombo Tapuio, comunidade representada por nossa liderança Rosalina, que, após mais de 30 anos de luta, finalmente alcança o objetivo de ter seu território titulado. Sigamos juntos sonhando com esse objetivo principal das comunidades quilombolas, que é garantir o território e a permanência.”

A voz de quem lutou: sentimento de pertencimento

Foto: Letícia/INTERPI

Coordenadora executiva da CONAQ e quilombola do Tapuio, Maria Rosalina expressou a dimensão afetiva e política da conquista. Para ela, a titulação é fruto de 22 anos de luta, marcada por sonhos, cobranças e resistência.


“Falar da titulação do Quilombo Tapuio é expressar um sentimento de alegria por conseguirmos concretizar sonhos de décadas. Nosso território era bem maior, mas fomos ficando imprensados pelos particulares, e o medo era chegar a um ponto de não ter mais para onde ir. No dia 28 de fevereiro, tivemos a graça de receber o título registrado em cartório. Agora o sentimento é de tranquilidade e segurança: antes a gente pertencia ao território, mas não tinha certeza que o território pertencia à gente. Hoje, pertencemos um ao outro.”

A liderança também destacou que o título é apenas uma etapa do processo: “O título em si não é tudo. Ele é uma das peças necessárias para continuar a luta em busca de políticas públicas que garantam dignidade e melhoria de vida para as famílias do território. Agora é que a luta começa, para que esse título valha a vida de quem mora aqui.”

Titulação em meio ao Encontro da CONAQ Nordeste

A entrega do título ocorreu durante o Encontro da CONAQ Nordeste, realizado entre os dias 27 de fevereiro e 1º de março. O evento reuniu coordenadores nacionais e lideranças da região para a construção de um planejamento estratégico, político e econômico voltado para os anos de 2026 e 2027.

Cleane Silva, coordenadora nacional da CONAQ (PI), celebrou o momento coletivo: “Muito feliz de estar aqui participando do segundo encontro de coordenadores e coordenadoras nacionais da CONAQ que representam a região Nordeste.”


Já Celso Araújo, coordenador da CONAQ Nacional (MA), reforçou o caráter formativo do encontro: “Estamos construindo o planejamento estratégico das ações de fortalecimento nos quilombos do Nordeste. Foram dois dias de muito aprendizado, partilha e conhecimento.”

O encontro teve como foco o fortalecimento da organização do movimento quilombola no Nordeste, a ampliação do acesso às políticas públicas e a consolidação dos direitos territoriais. Ao longo dos três dias, foram promovidas rodas de diálogo, atividades formativas e espaços de planejamento coletivo.

Nesse contexto, a titulação do Quilombo Tapuio simboliza não apenas uma conquista local, mas um avanço concreto na luta histórica pelo direito constitucional ao território. A comunidade agora celebra a segurança jurídica da terra que seus ancestrais construíram e defenderam ao longo de mais de dois séculos, reafirmando que a resistência é processo contínuo e fundamento de existência.