13 de novembro de 2025
Pesquisa inédita, debates estratégicos e denúncias de injustiça climática marcam o 4º dia dos quilombolas na COP30
Articulações políticas e alertas sobre violações ambientais reforçam a centralidade dos quilombos nas discussões da Conferência.
Justiça racial e climática em debate na Casa Folha
A manhã do dia 13/11 começou com o seminário “Justiça racial e climática: desafios e caminhos para a população negra no Brasil”, que expôs como os impactos da emergência climática recaem de forma desproporcional sobre comunidades negras, periféricas e historicamente vulnerabilizadas.
José Luís Rengifo, membro da CITAFRO, lembrou que, embora Brasil e Colômbia tenham avançado ao colocar mulheres negras como ministras em agendas estruturantes, a maior parte dos países latino-americanos ainda não trata os direitos afrodescendentes com a urgência necessária.
A Ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, Macaé Evaristo, reforçou que a crise climática “não é tese, ela já está aqui”, afetando diretamente populações negras e indígenas — sobretudo nos centros urbanos marcados por ilhas de calor, falta de infraestrutura verde e desastres recentes, como os do Rio Grande do Sul e do Paraná.
Pesquisa inédita conecta clima, ancestralidade e comunicação quilombola
Também pela manhã, foi lançado o relatório “Corpos-territórios quilombolas e o fio conectado da ancestralidade”, produzido pelo Instituto Sumaúma em parceria com a Mídia Quilombola. O evento, realizado no Cedenpa, reuniu comunicadores, pesquisadores e lideranças para discutir como as práticas comunicacionais quilombolas nascem do território e expressam uma relação intrínseca entre natureza, ancestralidade e resistência.
Ailton Borges (CONAQ), Juliane Sousa (Mídia Quilombola) e Taís Oliveira (Instituto Sumaúma) apresentaram as principais motivações e achados da pesquisa, seguida pela roda temática “Comunicação, Cultura e Clima”, com participação de Ruthelly Valadares, Valber da Gama e Vanessa Silva.
O encontro ganhou força com a apresentação vibrante do Tambor de Crioula Mãe Andreza, do quilombo Bom Jesus dos Pretos (MA), lembrando que celebrar a ancestralidade é também reivindicar futuro. A publicação, lançada durante a COP30, reafirma que “o quilombo é o chão onde se cultiva a vida que construirá o futuro”, indicando caminhos para políticas efetivas de reparação e justiça climática.
Cúpula dos Povos destaca território como vida e resistência
Na Cúpula dos Povos, Ilario Moraes, da CONAQ e da MALUNGO, na mesa do Eixo 1. Em sua fala, destacou que os territórios quilombolas são “territórios vivos, guardiões da memória, da cultura e da soberania alimentar”.
“Quando defendemos o território, defendemos o alimento que vem da floresta, do quilombo, do rio e da comunidade. É nessa relação com a natureza que mantemos nossa existência, nossa cultura e nossa liberdade”, afirmou na ocasião.
Tecnologia, ancestralidade e adaptação climática
Em outro debate da programação oficial, o coordenador executivo da CONAQ, Arilson Ventura, aprofundou a perspectiva quilombola sobre adaptação climática, justiça ambiental e o diálogo entre tecnologias emergentes e saberes ancestrais. Ventura alertou que nenhuma inovação, seja em inteligência artificial, seja em cidades resilientes — será eficaz se ignorar a gestão comunitária e o manejo sustentável praticados nos quilombos há séculos.
Ele também reforçou que os territórios quilombolas desempenham papel essencial na proteção dos biomas brasileiros, abrigando florestas, águas e biodiversidade fundamentais para qualquer estratégia de enfrentamento à emergência climática. Por isso, afirmou, a inclusão de povos e comunidades tradicionais nos processos de decisão não é só uma reivindicação, é um caminho indispensável para soluções efetivas e duradouras.
Encerramento marcado por chamado político
No último evento do dia, “Comunidades Tradicionais Quilombolas: Justiça Climática e Resiliência para o Bem Viver”, Ventura encerrou sua participação saudando as lideranças presentes e trazendo dados importantes sobre os quilombos da região Norte. Sua fala terminou com um recado claro aos negociadores e ao Estado brasileiro: “Titulação já!”
Texto por Thaís Rodrigues CONAQ/Uma Gota no Oceano, publicado às 22:49:34
Categoria: COP30