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30 de julho de 2025

Oficina Regional Norte e Nordeste Cafuné da CONAQ encerra ciclo em Salvador com debate sobre proteção e bem viver de mulheres quilombolas

Encontro fortaleceu laços de autocuidado, mapeou riscos e consolidou propostas para o Plano Emergencial de Defesa das Lideranças Femininas

A última terça-feira, 29 de julho, marcou o desfecho de uma etapa fundamental do projeto Cafuné, com a realização do último dia da Oficina Regional Norte e Nordeste da CONAQ, em Salvador, Bahia. O evento dedicado ao fortalecimento do autocuidado e à construção de estratégias de proteção para mulheres quilombolas, foi mais do que um espaço de formação: foi um território de escuta, afeto e construção coletiva apoiado pela AECID, Fundo CASA, Fundo Baobá, Fundo ELAS, Ibirapitanga, Bem-Te-Vi e Thousand Currents.

A manhã começou em sintonia com a espiritualidade e a ancestralidade. As mulheres se reuniram em círculo na área verde do espaço do evento, em uma mística embalada ao som do pandeiro, conduzida com maestria pela diretora e cineasta baiana, Gabriela Monteiro, Esse momento, carregado de simbologia, reafirmou a força da conexão entre o corpo, a terra e a luta, preparando as participantes para um dia de reflexão e proposições concretas.

Crédito: Vadok

 

De volta ao auditório, as lideranças foram convidadas a participar da “Dinâmica das Lãs”, uma atividade de sensibilização que expôs de forma visual e impactante as ameaças e pressões constantes que recaem sobre as defensoras dos territórios quilombolas. Cada participante que se reconhecia em uma situação de risco passava a o novelo entre as mãos, tecendo, ao final, uma complexa rede de fios entrelaçados. A imagem era clara: as ameaças são múltiplas, interconectadas, e exigem respostas urgentes e integradas por parte do Estado e da sociedade.

Crédito: Vadok

 

Uma das lideranças, por exemplo, falou sobre a ameaça do agronegócio no estado do Pará: “A atividade em que sobrepõe nossos territórios, ele tem sim o apoio do Estado, do interesse deles, porque eles plantam para poderem ficarem ricos, enquanto a gente planta para a nossa auto subsistência. Então, eles não podem falar assim que o quilombola não produz, isso não é verdade, porque se a gente não produzir, a cidade não vai comer. Se a gente não produzir, o nosso povo não vai viver”, enfatizou. 

Quando  trazido à tona a transição energética justa e os impactos da mineração, um tema em alta, ficou escancarado que as comunidades quilombolas não só não estão inseridas neste contexto como estão e podem ser ainda mais prejudicadas de forma irreversível. 

“Dentro dessa janela (transição energética) tem alguns minérios que são indispensáveis, elementos de terras raras, o lítio, o nióbio e uma série de outros. Isso é uma relação econômica, uma relação política é uma questão que o Brasil está se colocando como protagonista  nessa discussão a nosso custo. Porque se tem dinheiro, se esses investidores vêm, eles trazem muita grana, mas ela nunca é para regularização fundiária”, alertou Maryellen Crisóstomo, coordenadora da Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas do Tocantins (COEQTO).

No segundo momento do dia, as mulheres foram divididas em quatro grupos para responder a um questionário voltado ao mapeamento de suas principais necessidades, desafios cotidianos e sugestões para a construção de um Plano Emergencial de Proteção. O levantamento permitiu identificar demandas específicas relacionadas à segurança física, rede de apoio e questões pertinentes aos próprios quilombos que as mesmas pertencem.

Grupos divididos para resposta de questionário. Crédito: Vadok

 

Na parte da tarde, as lideranças se reuniram em plenária para compartilhar e aprofundar os pontos levantados nos grupos. A leitura das sínteses, conduzida por Selma Dealdina Mbaye, coordenadora do Coletivo de Mulheres da CONAQ, evidenciou as lacunas históricas na proteção das defensoras quilombolas, mas também destacou a sabedoria coletiva e as soluções que emergem da própria base. 

Crédito: Vadok

 

Um dos símbolos mais emocionantes da oficina foi o mural de fotos montado ao longo dos três dias de evento. Nele, cada participante pôde deixar mensagens de afeto, reconhecimento e apoio para as demais, fortalecendo a rede de solidariedade e tornando visíveis os laços que sustentam essa luta. Pequenos bilhetes, palavras de carinho e gratidão transformaram o espaço em um verdadeiro altar de celebração à resistência feminina quilombola.

 

Marcha das Mulheres Negras 2025

Crédito: Vadok

Crédito: Vadok

Ainda durante o evento houve o momento de entrega das bandeiras da Marcha das Mulheres Negras às representantes dos estados das regiões Norte e Nordeste. Lembrando que o ato vai ocorrer em 25 de novembro em Brasília. Elas não são apenas tecido, são símbolo de resistência, identidade e memória coletiva. Elas carregam as vozes de nossas ancestrais e anunciam a presença viva das mulheres quilombolas na luta pelos territórios, pela vida e pelo bem viver.

Crédito: Vadok

Cada liderança saiu com a missão de espalhar essa força em seus quilombos, tecendo redes de proteção, afeto e mobilização para o que está por vir. A Marcha é uma semente que cresce em cada território!

O encerramento foi marcado por um momento de leveza e celebração: a noite cultural. Música, dança, comidas e, acima de tudo, troca de afetos selaram um ciclo de aprendizado e cuidado mútuo, em um ambiente de respeito às ancestralidades e à diversidade das expressões culturais das mulheres presentes.

Agora, a Oficina segue para o Espírito Santo, onde o projeto dará continuidade à escuta e sistematização das necessidades das mulheres quilombolas das regiões Sudeste e Sul. A jornada continua, mas a semente plantada neste encontro de Salvador já germina em cada território, fortalecendo a teia de proteção, solidariedade e luta das guardiãs dos quilombos.