8 de novembro de 2025
Oficina de Comunicação da CONAQ fortalece narrativas quilombolas rumo à COP30
Encontro no Pará reuniu comunicadores quilombolas para incidência política e cobertura colaborativa durante a Conferência do Clima
Entre os dias 5 e 8 de novembro, a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ) realizou, em Belém (PA), a Oficina de Cobertura Colaborativa na COP30: Fortalecendo Narrativas e Incidência Quilombola. O encontro que contou com apoio da Tenure Facility e Fundo Casa reuniu comunicadores quilombolas de todas as regiões do Brasil em uma imersão estratégica de formação, articulação e planejamento coletivo, com o objetivo de garantir que as vozes quilombolas estejam no centro da cobertura e das decisões durante a Conferência do Clima (COP30), que vai acontecer de 10 a 21 de novembro, também em Belém.
Sediado em Mosqueiro (PA), o evento fez parte da preparação nacional do movimento quilombola para a Conferência. Um dos principais focos foi enfrentar a sub-representação das narrativas quilombolas nas grandes agendas climáticas, fortalecendo a incidência política e comunicacional dos territórios tradicionais na luta por justiça racial, climática e territorial.
“Participar da oficina colaborativa quilombola na COP30 foi uma experiência muito importante pra mim. Pude valorizar nossas raízes, trocar saberes e fortalecer a luta por justiça climática e pela titulação de nossos territórios. Essa vivência elevou nosso protagonismo e levou a voz dos quilombos para o centro das discussões climáticas. Afinal, somos os que menos contribuímos para a crise climática, mas os que mais sofremos com ela”, destaca Winnie Andreza, do Quilombo Acre (MA).
Formação e articulação nacional
A oficina teve como propósito central trocar experiências e alinhar estratégias entre os comunicadores quilombolas sobre a dinâmica da COP30, as mudanças climáticas e os mecanismos de incidência política.
A iniciativa também reforça a construção de uma rede nacional unificada de comunicação quilombola, fortalecendo a capacidade de atuação coletiva dos comunicadores em defesa dos direitos e territórios.
“O encontro de comunicadores é um espaço de fala e de aprendizado coletivo. É onde nós, jovens quilombolas, podemos compartilhar nossas trajetórias, fortalecer nossa militância e ampliar nossa atuação como profissionais da comunicação. Estamos aqui para fazer história, como jovens, comunicadores, militantes e, sobretudo, como quilombolas”, afirma Mylena Pereira, do Quilombo Tacaua (MA).
Imersão, trocas e mobilização coletiva
Durante quatro dias, os participantes vivenciaram uma intensa programação de acolhimento, formação técnica e construção coletiva. O primeiro dia foi dedicado à recepção e às apresentações, com momentos de partilha sobre os territórios, tradições e costumes de cada comunicador.
No segundo dia, as atividades ganharam ritmo com o estudo e debate de três publicações estratégicas que o movimento quilombola levará para a COP30:
- Mulheres Quilombolas por Justiça Climática;
- NDC Quilombola;
- Resumo Institucional da CONAQ.
Esses materiais foram analisados de forma colaborativa, gerando trocas de saberes e reflexões sobre as lutas que conectam gênero, território e clima. “Cada aprendizado tem sido valioso e cheio de sentido. O conhecimento que estamos recebendo é real, vem da prática e da troca com o pessoal. Essa experiência tem sido simplesmente incrível, transformadora e inspiradora para o meu trabalho como comunicadora”, compartilha Ana Luiza, do Quilombo Carrapatos da Tabatinga (MG).
Na sexta-feira (7), a programação contou com uma oficina técnica de media training, em parceria com a organização Uma Gota no Oceano. A formação abordou estratégias de comunicação política, mostrando como uma pauta bem construída pode influenciar decisões e gerar mobilização social.
Ao final, cada participante recebeu um manual de redação quilombola, que servirá de referência para a produção de conteúdos durante e após a COP30.
“Essa vivência foi transformadora. Como comunicador quilombola, pude fortalecer minha voz e aprender novas formas de contar as histórias do meu povo. Levo comigo o compromisso de continuar comunicando com verdade, ancestralidade e propósito, mostrando que nossas narrativas também constroem o futuro”,
relata Pedro Garcês, do Quilombo Mesquita (GO).
Construção coletiva e alianças pela justiça climática
O último dia da oficina foi voltado ao planejamento estratégico, com definição das frentes de atuação, mapeamento de porta-vozes e criação do Coletivo de Comunicação Quilombola para a COP30, que será responsável por coordenar a cobertura colaborativa quilombola durante o evento.
A programação também contou com a participação de comunicadores indígenas da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB): Yago Kaingang, Tucumã Pataxó e Samela Sateré Mawé que apresentaram a campanha “A Resposta Somos Nós”, da qual a CONAQ também é signatária.
Outro momento marcante foi o diálogo com Darwin Torres, antropólogo e comunicador do Processo de Comunidades Negras (PCN) e da CITAFRO, coalizão que reúne 16 países da América Latina e do Caribe na luta por justiça climática e defesa dos territórios tradicionais.
Comunicação, ancestralidade e resistência
A Oficina de Comunicação da CONAQ marcou mais um capítulo histórico do protagonismo quilombola na agenda climática global, reafirmando o compromisso do movimento com a formação, a autonomia e a valorização das vozes quilombolas na comunicação e na política ambiental. “Ao reunir comunicadores de todo o país, fortalecemos não apenas nossa capacidade de incidir politicamente na COP30, mas também reafirmamos que nossas narrativas partem da ancestralidade, da coletividade e da defesa da vida nos territórios. É a comunicação quilombola mostrando ao mundo que o futuro se constrói com os quilombos de pé”, Nathalia Purificação, coordenadora de comunicação da CONAQ.
Com os tambores da ancestralidade ecoando desde os territórios até a Conferência do Clima, o recado é firme e coletivo:
Não há justiça climática sem quilombo titulado!
Confira abaixo mais depoimentos:
“Participar da cobertura quilombola da CONAQ na COP30 tem sido uma das maiores experiências da minha trajetória. Fazer parte dessas vozes que falam de clima, território e justiça ambiental me enche de orgulho e esperança. Os quilombos não só resistem, eles protegem a terra, o clima e a vida, e a titulação é fundamental pra garantir esse direito e manter viva nossa cultura”, Jordan Dias, Quilombo da Pontinha (MG).
“Participar da COP 30 é ter a possibilidade de representar muitas pessoas que estão nesse momento lutando contra as mudanças climáticas em seus territórios, que estão diretamente afetadas por decisões que acontecem aqui, mas que nem sempre tem poder de voz e decisão. Nós sabemos como cuidar do planeta, respeitam nossos saberes, nossas ciências e o planeta será um lugar agradável para todos”, Valber da Gama, Quilombo Grota do Brito (BA).
Texto por , publicado às 16:39:27
Categoria: COP30