19 jun

Encontro de casas de terreiros de comunidades quilombolas reúne fé, cultura, tradições e ancestralidade

Por: Letícia Queiroz

Tradições, saberes e fazeres ancestrais, cultura e fé marcaram o Encontro de casas de terreiros de comunidades quilombolas, ocorrido no Quilombo Custaneira, em Paquetá, no Piauí. Além de criar uma circularidade nos debates afro-brasileiros ligados aos quilombos que possuem a vivência de terreiros, o evento abre espaço para debater os direitos e políticas públicas dos povos e comunidades tradicionais.  

A 8ª edição do encontro foi organizada pela comunidade Custaneira junto com a Coordenação Estadual de Comunidades Quilombolas do Piauí (CECOQ) e reuniu 46 quilombos e mais de 600 pessoas. Entre os dias 7 e 9 de junho o evento contou com uma série de atividades, incluindo rodas de conversas, minicursos, debates, fortalecimento das religiões de matrizes africanas nos quilombos e apresentações culturais. 

Durante o encontro, foram abordadas questões afro religiosas, de ancestralidade e feitas discussões sobre a necessidade de fortalecer tradições culturais e identidades e como os modos de vida influenciam dentro e fora dos territórios. O coordenador da Coordenação Nacional de Articulação de Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ) e anfitrião Arnaldo Lima, conhecido como Mestre Naldo, disse que o encontro superou todas as expectativas. “Nos fez entender que desde o primeiro até aqui a gente não faz em vão. A cada ano fica maior. As pessoas que vêm participando entendem a necessidade de nos reunirmos como povo de terreiro, como povo preto, como povo quilombola, para falarmos de nós mesmo para nós, para falarmos de nossos valores para nós, porque o encontro de terreiro fala do valor de nossos ancestrais, dos ensinamentos que nos foi repassado e o que esses ensinamentos nos têm dado como potencialidade na defesa da vida, na luta do dia a dia até hoje”, afirmou o Mestre Naldo.

Nos três dias a juventude aprendeu sobre vários ensinamentos que atravessam gerações, como o uso de plantas medicinais da Caatinga, respeito às crenças e de questões culturais, como danças e a arte de fazer artesanatos. 

Maria Rosalina, coordenadora executiva da CONAQ, participou da construção do evento. Ela disse que o encontro foi a prova de que os quilombos ainda resistem ao sistema capitalista. “Realizamos um encontro com essa magnitude, recebendo pessoas de todo o país, sem financiamento externo. As comunidades se juntaram e contribuíram para que esse momento fundamental de fortalecimento político acontecesse”, afirmou. 

As noites foram destinadas às apresentações culturais e a comemoração da festa do mentor espiritual Lourenço Leguá Boji Bua Ferreira da Trindade, guia espiritual do líder quilombola e zelador de santo Arnaldo Lima, realizado na na Casa de Guerreiros Caboclo de Oxossi.

As rodas de Lezeira, Samba de Cumbuca, Roda de São Gonçalo, Reisado, Batuque do Brejão e Capoeira surpreenderam pela beleza e tradição. Dentro da programação também foi realizada oficina de Jucá,  luta de defesa ancestral mantida nos quilombos do Piauí.

Cleane Pereira, coordenadora de educação e cultura da CECOQ, afirmou que o encontro é um importante enfrentamento ao modelo de colonização eurocêntrica historicamente imposta aos negros, entre elas a religiosa. “Foram três dias de encontro com a ancestralidade, de compreensão do presente e articulação coletiva para garantir as vidas dos quilombos.Nesses três dias foi possível apresentar um pouquinho da diversidade de formas em que a ancestralidade é cultuada no dia a dia dos quilombos. Fizemos debates sobre a importância de uma educação que dialoga com esses saberes, o papel desses modos de vida na preservação dos biomas onde os quilombos estão inseridos. Esses e outros temas que devem ser cada vez mais apresentados à sociedade brasileira”. 

O último dia contou com homenagem a Nego Bispo, recebida por sua família. Esse foi o primeiro Encontro desde que o líder quilombola, poeta, intelectual e uma das principais vozes do pensamento das comunidades tradicionais do Brasil partiu para a ancestralidade.

O encontro terminou após rodas de avaliação e planejamento de incidência política em defesa dos direitos quilombolas.

O mestre Naldo agradeceu a presença das comunidades quilombolas do estado do Piauí e a todas as lideranças que se envolveram direta ou indiretamente para a realização do Encontro. “Já estamos aqui preparando para o nono encontro de Terreiro em 2025. Saravá, muito axé para nós”.

Além das comunidades quilombolas, também participaram estudantes universitários, professores e professoras e Governo do Estado representado pela Superintendência de Igualdade Racial e Povos Originários (SUIRPO), Unidade de Educação Indígena e Quilombola (UEIQ/SEDUC ) e Instituto de Terras do Piauí (Interpi).

Edições anteriores

A primeira edição ocorreu no ano de 2016, no município de Paquetá do Piauí. Ao longo das edições outros quilombos sediaram o evento, como o Quilombo Canabrava dos Amaros, entretanto a partir da V edição realizada no ano de 2019 o evento passa a ser realizado de forma fixa e anual no Quilombo Custaneira, ganhando proporções nacionais e internacionais, com a presença de um público externo mais amplo como comunidades e lideranças Quilombolas do estado do Piauí e Maranhão.     

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