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11 de agosto de 2026

No Quilombo Ribeirão da Mutuca, o Atlas encontra saberes, produção e resistência quilombola

Em Nossa Senhora do Livramento (MT), a equipe do Atlas da Sociobioeconomia Quilombola promoveu oficinas, mapeou cadeias produtivas e ouviu uma comunidade que transforma território, cultura e trabalho em caminhos para o bem viver.

O conhecimento sobre um território não está apenas nos mapas. Ele também está nas mãos de quem planta, nos saberes de quem transforma os frutos da terra, nas histórias compartilhadas entre gerações e nas estratégias construídas coletivamente para permanecer e viver com dignidade. Foi a partir dessa perspectiva que a equipe do Atlas da Sociobioeconomia Quilombola chegou ao Quilombo Ribeirão da Mutuca, no município de Nossa Senhora do Livramento, em Mato Grosso.

No dia 6 de agosto, a comunidade recebeu a equipe do projeto para um dia marcado pela escuta, pela troca de saberes e pela construção coletiva. A iniciativa, financiada pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), integra um processo de mapeamento dos territórios quilombolas e de suas riquezas, com atenção especial às atividades produtivas, aos conhecimentos tradicionais e às potencialidades da sociobioeconomia.

A chegada do Atlas ao território também teve um significado particular. Isso porque Laura Silva, coordenadora executiva da  CONAQ e a coordenadora do projeto é moradora do Quilombo Mutuca. A presença de alguém que vive a realidade do território aproximou ainda mais a proposta do cotidiano da comunidade.

“Para mim foi muito importante receber essa oficina, porque isso demonstra o quanto a comunidade precisa também estar engajada dentro desse processo”, afirmou a matogrossense. Para ela, a chegada do projeto representa uma oportunidade de fortalecer iniciativas que já existem no quilombo e contribuir para que elas possam avançar.

Um território que produz e constrói seus próprios caminhos

 

O primeiro passo para compreender a sociobioeconomia de um território é reconhecer que ela não começa com a chegada de um projeto. Ela já existe na vida cotidiana das comunidades, nas práticas de agricultura familiar, no aproveitamento dos recursos disponíveis e nos conhecimentos transmitidos ao longo das gerações.

No Quilombo Mutuca, essa realidade aparece de maneira evidente na força da agricultura familiar e, especialmente, na produção de banana. Segundo Yolanda Ferreira, quilombola e agente territorial, a associação reúne aproximadamente 142 famílias, todas envolvidas com a agricultura familiar. “Todas elas vivem da produção da agricultura familiar”, explicou.

As plantações estão inseridas no próprio território e constituem uma importante fonte de sustento para as famílias. Algumas pessoas precisam trabalhar fora da comunidade, mas continuam vivendo no quilombo e mantendo sua relação com a produção local.

Entre os produtos cultivados, a banana ocupa um lugar de destaque. Mais do que uma cultura agrícola, ela se tornou um elemento articulador da economia, da identidade e da própria celebração comunitária.

“O nosso grande forte, mesmo aqui dentro da nossa comunidade, é a banana, que é a nossa produção maior. Da banana a gente faz tudo, tudo é aproveitado”, contou Yolanda.

Essa capacidade de aproveitar integralmente os recursos disponíveis traduz, na prática, um dos princípios fundamentais da sociobioeconomia: produzir valorizando a biodiversidade, os conhecimentos locais e os modos de vida das comunidades.

Da oficina à escuta: o território também se mapeia pelas pessoas

A programação do Atlas no Quilombo Ribeirão da Mutuca foi construída a partir de diferentes frentes de trabalho. Uma delas foi a oficina de GTAQ, conduzida por Hilton Lucas, que contou também com a dinâmica da Árvore dos Sonhos.

A atividade convidou os participantes a pensar coletivamente sobre o futuro do território. Por meio de post-its, moradores registraram desejos, expectativas e perspectivas para os próximos dez anos.

Mais do que uma dinâmica de oficina, ela abriu espaço para que a própria comunidade projetasse seu futuro. Em um território quilombola, pensar nos próximos dez anos significa também refletir sobre permanência, autonomia, produção, infraestrutura, geração de renda e garantia de direitos.

A atividade mostrou que o mapeamento territorial não se limita a identificar espaços geográficos ou cadeias produtivas. Ele também precisa incorporar os sonhos e as prioridades de quem vive no território.

É nesse encontro entre conhecimento técnico e conhecimento comunitário que o Atlas constrói sua proposta: registrar o que existe, compreender suas potencialidades e contribuir para dar visibilidade a uma realidade que muitas vezes permanece invisível fora das comunidades.

Cadeias produtivas revelam a força da sociobioeconomia quilombola

 

Outro momento importante foi o levantamento das cadeias produtivas realizado em conjunto com os moradores. A atividade buscou identificar os produtos, conhecimentos e processos que movimentam a economia local.

No Mutuca, a banana aparece novamente como uma das principais expressões dessa cadeia. Mas a diversidade observada durante a visita mostrou que a produção quilombola vai muito além de um único produto.

Durante a feira associada à Festa da Banana, a equipe encontrou produtos alimentícios e itens produzidos a partir dos recursos e saberes do território, incluindo sabonetes medicinais e outros produtos beneficiados pela comunidade.

Esse conjunto revela uma economia baseada não apenas na comercialização de produtos in natura, mas também na capacidade de transformar, agregar valor e criar novas possibilidades de geração de renda.

Para Laura, essa dimensão econômica é fundamental. A Festa da Banana nasceu, entre outros objetivos, da necessidade de valorizar a produção local e criar oportunidades para que os recursos permaneçam dentro da comunidade.

“A feira parte desse olhar de poder fomentar recursos dentro da comunidade e gerar renda através de tudo aquilo que é beneficiado, que é in natura”, explicou.

A produção, nesse sentido, assume também uma dimensão política. Produzir no território é afirmar que as comunidades quilombolas não são espaços improdutivos ou dependentes, mas territórios vivos, onde existem trabalho, conhecimento, criatividade e capacidade de organização.

Quando economia, cultura e identidade se encontram

A presença da equipe do Atlas no território coincidiu com um dos momentos mais importantes do calendário comunitário: a realização da 17ª Festa da Banana do Quilombo Mutuca.

A celebração reúne moradores e visitantes de diferentes lugares de Mato Grosso em torno de sabores, cultura, tradição e produção quilombola. A programação inclui apresentações culturais e uma feira com produtos da comunidade.

A longevidade da festa demonstra sua importância para o território. São 17 edições construídas a partir da mobilização comunitária, reafirmando uma tradição que se renova a cada ano.

Para Laura e Yolanda, a festa representa muito mais do que uma celebração. Ela é também uma estratégia de valorização da produção local e de geração de renda.

Ao colocar os produtos quilombolas em circulação, a feira cria uma ponte entre a produção comunitária e outros públicos. Ao mesmo tempo, fortalece a identidade do território e apresenta uma outra imagem sobre os quilombos.

Laura destaca justamente essa dimensão política da iniciativa. Segundo ela, a feira possui um caráter “político, social, cultural e econômico”.

A festa, portanto, é também uma forma de dizer que existe vida, trabalho e produção no território. É uma maneira de enfrentar narrativas historicamente construídas para deslegitimar a presença quilombola.

Contra os estereótipos, a afirmação do trabalho quilombola

A experiência do Quilombo Ribeirão da Mutuca evidencia que falar de sociobioeconomia também é falar de reconhecimento.

Laura lembra que as populações quilombolas foram historicamente submetidas a diferentes formas de estigmatização e rotulação. Em sua fala, ela menciona termos pejorativos utilizados para desqualificar as comunidades e afirma que o trabalho desenvolvido pelo quilombo contribui para desconstruir essas imagens. “Nosso povo trabalha muito”, afirmou.

A produção agrícola, os produtos beneficiados, a feira, a festa, os conhecimentos tradicionais e as formas coletivas de organização tornam-se, assim, instrumentos de afirmação.

Ao mapear essas atividades, o Atlas contribui para registrar uma realidade que já existe, mas que nem sempre aparece nos discursos públicos sobre Mato Grosso.

Como observa Laura, o estado é frequentemente associado à imagem do agronegócio. Essa narrativa, entretanto, não dá conta da diversidade de povos e comunidades tradicionais presentes no território mato-grossense.

Dar visibilidade ao Quilombo Ribeirão da Mutuca é também ampliar a compreensão sobre o próprio estado e reconhecer que Mato Grosso é constituído por diferentes modos de produzir, viver e se relacionar com a terra.

Mulheres no centro da construção comunitária

 

Outro aspecto destacado por Laura é a participação das mulheres nos processos desenvolvidos no território. Segundo ela, as mulheres são maioria entre as pessoas que participam das ações comunitárias. São mães, mães solo e mulheres mais velhas que, apesar das diferentes responsabilidades e trajetórias, permanecem atuantes.

Essa participação demonstra que o fortalecimento da sociobioeconomia também passa pelo fortalecimento da autonomia econômica e social das mulheres quilombolas. Para Laura, um dos principais resultados esperados do projeto é justamente criar condições para que as mulheres possam trabalhar e gerar renda a partir daquilo que já sabem fazer dentro da própria comunidade.

A perspectiva é fortalecer as estruturas existentes para que os conhecimentos e produtos possam se transformar em oportunidades concretas de autonomia econômica.

Nesse processo, valorizar o trabalho das mulheres significa reconhecer que grande parte da reprodução da vida comunitária está sustentada por seus conhecimentos, sua capacidade de organização e sua participação nas atividades produtivas.

Comunicação também é território

A programação do Atlas incluiu ainda uma oficina de comunicação, acompanhada de um ensaio fotográfico.

Cada participante recebeu uma fotografia Polaroid como lembrança daquele momento. A ação pode parecer simples, mas carrega um significado importante: colocar os próprios quilombolas diante das câmeras como sujeitos de suas histórias.

Em vez de serem apenas personagens retratados por olhares externos, os moradores passam a participar da construção de suas próprias representações.

A comunicação, nesse contexto, deixa de ser apenas uma ferramenta de divulgação e passa a integrar o processo de valorização da identidade e do território.

Registrar rostos, produtos, práticas e histórias significa construir memória. Significa também produzir novas narrativas sobre as comunidades quilombolas, baseadas no protagonismo e na realidade de quem vive nesses territórios.

Um projeto que chega, mas deixa caminhos abertos

Para Yolanda, participar de iniciativas como o Atlas representa uma continuidade de experiências anteriores. Ela já havia participado de outro projeto, o JETAG, e considera a chegada de novas iniciativas uma oportunidade de ampliar conhecimentos e fortalecer a comunidade.

A experiência também teve impactos pessoais.

Yolanda conta que, antes, tinha vergonha e receio de falar. A participação nos projetos, segundo ela, tem contribuído para que consiga se expressar melhor e ocupar espaços de fala. “Tem me fortalecido, não só como Yolanda, mas dentro da comunidade”, afirmou.

O depoimento revela uma dimensão que nem sempre aparece nos indicadores tradicionais de projetos: a transformação subjetiva provocada pelos processos de formação, participação e organização.

Quando uma pessoa passa a falar com mais segurança sobre seu território, sua produção e seus direitos, ela também amplia sua capacidade de incidir sobre as decisões que afetam sua comunidade.

O sonho maior: permanecer no território

Apesar das potencialidades econômicas e culturais identificadas, existe uma questão que atravessa as expectativas da comunidade: a regularização e a titulação do território.

Para Yolanda, esse continua sendo um dos principais desejos dos moradores. “O que a gente mais espera, o que a gente mais quer é o título da terra”, afirmou. A titulação aparece como uma condição fundamental para garantir segurança, permanência e continuidade dos modos de vida quilombolas. Segundo ela, a regularização pode contribuir para reduzir ameaças e garantir que as famílias permaneçam em seu território.

Nesse sentido, a sociobioeconomia não pode ser compreendida isoladamente. Não existe produção sustentável sem território protegido. Não existe autonomia econômica sem condições de permanência. E não existe futuro comunitário sem garantia dos direitos territoriais.

O trabalho desenvolvido pelo Atlas ganha relevância justamente porque permite evidenciar essa relação entre território, produção, biodiversidade, cultura e direitos.

Estruturar o presente para construir o futuro

Laura também aponta para desafios concretos relacionados à consolidação das atividades produtivas. Entre eles estão o fortalecimento das unidades de beneficiamento, a aquisição de equipamentos e a melhoria das condições de armazenamento dos produtos.

A expectativa é que essas estruturas permitam ampliar a produção e reduzir perdas, criando melhores condições para que os produtos possam ser comercializados.

Outro desejo é a construção de uma identidade visual comum para os produtos da comunidade, com a possibilidade de incorporar o selo quilombola aos rótulos.

Trata-se de uma etapa importante para agregar identidade e reconhecimento à produção local. O produto deixa de ser apenas uma mercadoria e passa a carregar consigo a história e a origem do território onde foi produzido. É uma estratégia que conecta produção, comunicação e identidade.

O Atlas como ferramenta de visibilidade

A experiência no Quilombo Ribeirão da Mutuca mostra que mapear a sociobioeconomia quilombola é também produzir visibilidade.

Os mapas e levantamentos técnicos são importantes, mas ganham sentido quando conectados às narrativas dos próprios moradores, aos seus sonhos e às suas formas de organização.

No Mutuca, a equipe encontrou uma comunidade que produz, transforma, celebra, organiza e reivindica. Encontrou mulheres atuantes, agricultores familiares, produtos diversos, uma festa que chegou à sua 17ª edição e uma população que continua projetando o futuro sem abrir mão de suas raízes.

O projeto também contribui para conectar essa realidade a outros espaços. Como destacou Laura, o Atlas não se limita à região amazônica: ele cria possibilidades de dar visibilidade às comunidades quilombolas e às suas experiências para além dos limites locais.

Essa dimensão é especialmente importante em um estado cuja imagem pública costuma estar fortemente associada à produção agropecuária em larga escala. Mostrar a presença quilombola é revelar outra face de Mato Grosso, uma face marcada por ancestralidade, agricultura familiar, biodiversidade, cultura e resistência.

A comunidade continua depois do projeto

Mais do que os resultados imediatos das oficinas, talvez uma das principais mensagens deixadas pela experiência seja a de que um projeto pode terminar, mas os territórios permanecem.

Laura resume essa perspectiva ao falar sobre o futuro da unidade de beneficiamento e das iniciativas comunitárias: “o projeto está acabando, mas a comunidade não vai acabar”.