25 de agosto de 2026
No Quilombo do Rosa, Atlas encerra etapa de campo com mapeamento de cadeias produtivas e fortalecimento territorial
Último destino da etapa de campo, comunidade de Macapá participou de atividades de georreferenciamento, GTAQ, levantamento das cadeias de valor e comunicação, reunindo informações sobre produção, infraestrutura, memória e desafios locais.
No dia 24 de agosto, a equipe do Atlas da Sociobioeconomia Quilombola da Amazônia concluiu no Quilombo do Rosa, em Macapá (AP), a etapa de campo da iniciativa após uma trajetória de escuta, levantamento de informações e construção coletiva junto aos territórios participantes. Último destino dessa caminhada, a localidade recebeu consultores e agentes para uma programação dedicada a compreender as atividades produtivas, características espaciais, potencialidades econômicas, infraestrutura, saberes e desafios vivenciados pelas famílias.
A agenda reuniu georreferenciamento, oficina de GTAQ, mapeamento das cadeias de valor e atividades de comunicação, com participação direta dos moradores. Cada frente contribuiu para construir uma leitura mais ampla sobre a realidade local, articulando dados técnicos ao conhecimento acumulado por quem vive e produz no quilombo.
O encerramento no Amapá representa também a conclusão de um percurso que levou a equipe a diferentes contextos da Amazônia, sempre com uma metodologia baseada na participação comunitária. Ao longo das visitas, o trabalho buscou identificar não apenas aquilo que é produzido, mas compreender como essas atividades se relacionam com a biodiversidade, a geração de renda, a segurança alimentar, os modos de vida e as perspectivas de permanência das famílias em seus lugares de origem.
No Rosa, essa abordagem revelou uma economia diversificada, sustentada pelo açaí, agricultura, criação de animais e outras estratégias construídas ao longo das gerações. Ao mesmo tempo, a escuta evidenciou obstáculos relacionados à seca, acesso a maquinário, educação, saúde e infraestrutura.
Georreferenciamento e diagnóstico construídos com os moradores
Uma das frentes desenvolvidas durante a passagem pelo Quilombo do Rosa foi o georreferenciamento, ferramenta que contribui para reconhecer espacialmente características e informações relevantes para a compreensão da área.
A atividade ocorreu de forma articulada aos demais levantamentos, permitindo aproximar o conhecimento técnico da percepção dos próprios moradores sobre o espaço onde vivem.
A metodologia adotada pelo Atlas parte do princípio de que as informações territoriais precisam dialogar com a experiência de quem conhece diariamente os caminhos, áreas produtivas, transformações ambientais, estruturas existentes e dificuldades enfrentadas.
Essa aproximação foi reconhecida por Ivanilton Menezes, conhecido como Nito, liderança quilombola nascida e criada no Rosa. Ao avaliar a passagem da iniciativa, ele mencionou especificamente a contribuição do trabalho técnico.
“Eu achei muito bom. Para mim foi maravilhoso. Eu gostei muito da visita do geógrafo, porque a gente precisava ver um ponto e já foi lá e esclareceu para nós”, conta.
Para Nito, a presença da equipe também contribui para ampliar a visibilidade da localidade e de suas demandas.
“É muito bom quando essa ação vem para dentro do quilombo, porque ela leva nós para fora, divulga nosso quilombo, nosso território. Tem muita gente que nem sabe que a gente existe”, acrescenta.
A fala reforça uma das dimensões da iniciativa: sistematizar informações sobre as áreas contempladas e, paralelamente, contribuir para que suas realidades sejam conhecidas a partir das vozes de seus próprios moradores.
GTAQ amplia a leitura sobre potencialidades e desafios
Outra atividade realizada foi a oficina de Gestão Territorial e Ambiental Quilombola, que abriu espaço para uma análise coletiva sobre características, capacidades e dificuldades presentes no Rosa.
A dinâmica permite organizar informações a partir da experiência comunitária e identificar fatores que influenciam o desenvolvimento das atividades econômicas e a qualidade de vida das famílias.
Ao lado do georreferenciamento e do levantamento das cadeias de valor, esse processo ajuda a compor um diagnóstico que não se limita à dimensão produtiva. Questões relacionadas à infraestrutura, acesso a serviços públicos, transformações ambientais e condições necessárias para ampliar a produção também entram nessa leitura.
No Rosa, parte desses desafios apareceu diretamente nos relatos compartilhados durante a passagem da equipe.
Nito, que afirma pertencer à quinta geração de sua família na localidade, relaciona a permanência à possibilidade de produzir e garantir o sustento.
“O nosso sonho é a felicidade de ter um espaço, uma terra que é nossa, onde a gente pode produzir. Eu vivo daqui. Aqui eu tiro o sustento para mim e para a minha família”, relata.
Essa relação entre terra, trabalho e autonomia é um dos elementos que ajudam a compreender por que mapear a sociobioeconomia quilombola exige olhar simultaneamente para produção, direitos e condições de permanência.
Do açaí à agricultura: Atlas identifica diversidade produtiva
O levantamento das cadeias produtivas permitiu detalhar atividades que movimentam a economia e contribuem para a alimentação das famílias.
Entre elas, o açaí ocupa posição importante. Durante aproximadamente seis meses do ano, segundo Nito, a safra se torna uma das principais fontes de sustento. O manejo do açaizal contribuiu para ampliar o aproveitamento da produção e fortalecer sua participação na renda familiar.
“Na época do açaí, eu passo seis meses vivendo dele. Manejei parte do açaizal e já dá para a gente viver do açaí. A safra aqui é de seis meses e dá para tirar o sustento”, explica.
Quando esse ciclo termina, outras culturas ganham espaço. Melancia, macaxeira, abacaxi e banana estão entre os itens mencionados durante o levantamento. Há ainda criação de porcos, patos, galinhas e gado em menor escala, além da comercialização de leite.
A diversidade demonstra como as famílias combinam diferentes atividades ao longo do ano, adaptando a produção às condições climáticas e às possibilidades de comercialização.
Nito exemplifica essa dinâmica ao falar sobre a melancia, cultura de ciclo mais curto que possibilita retorno financeiro mais rápido.
“Quando acaba o açaí, a gente passa para a melancia. Eu gosto de plantar porque, com dois meses, já estou vendendo e o dinheiro começa a circular.”
O diagnóstico dessas práticas permite compreender que a sociobioeconomia existente no Rosa não está concentrada em uma única cadeia. Ela se estrutura por meio da combinação entre extrativismo, agricultura, criação de animais, consumo familiar e venda do excedente.
Seca e acesso a maquinário afetam a produção
O trabalho de campo também permitiu identificar fatores que limitam o desenvolvimento das atividades produtivas.
Entre os principais obstáculos apontados está a seca, que interfere nas plantações, na disponibilidade de alimento para os animais e até mesmo na comercialização de leite. A ausência de irrigação reduz as possibilidades de cultivo durante os períodos mais secos.
Outro desafio apresentado foi o acesso ao maquinário necessário para preparar a terra no período adequado.
“A nossa necessidade hoje é uma patrulha mecanizada, um trator com grade para trabalhar a terra”, explica Nito.
De acordo com a liderança, o equipamento disponibilizado por órgãos públicos costuma chegar quando parte do período mais favorável ao plantio já passou.
“A época de plantar a roça é no fim de dezembro para janeiro. Quando a gente pega o trator tarde, planta tarde e acaba perdendo. Se conseguirmos plantar na época certa, pegamos bastante chuva”, detalha.
Essas informações são estratégicas para o levantamento das cadeias de valor porque permitem compreender não somente o que as famílias produzem, mas também quais condições podem ampliar ou restringir sua capacidade produtiva.
Ao sistematizar essas questões, o Atlas ajuda a construir um panorama que relaciona potencial econômico, estrutura disponível, condições ambientais e necessidades identificadas pelos próprios quilombolas.
Comunicação registra histórias e amplia a visibilidade
A comunicação integra as atividades desenvolvidas durante as etapas de campo. No Quilombo do Rosa, entrevistas e registros audiovisuais complementaram os levantamentos técnicos, permitindo documentar trajetórias familiares, práticas culturais, desafios e expectativas.
A proposta é fazer com que os dados sobre sociobioeconomia caminhem junto às narrativas de quem constrói diariamente essas realidades.
No depoimento de Nito, por exemplo, a história familiar ajuda a compreender a formação da localidade. Aos 52 anos, ele se apresenta como integrante da quinta geração de uma linhagem que permanece vinculada ao Rosa.
Segundo sua narrativa, a origem familiar remonta ao patriarca Josino Valério e a Dona Rosa Marcelina da Conceição, sua tataravó, cuja memória está relacionada ao próprio nome da comunidade.
Ao longo das gerações, descendentes permaneceram na área enquanto outros buscaram trabalho e oportunidades em diferentes lugares.
“Nós demos continuidade aqui no quilombo. Muita gente foi embora, uns por falta de trabalho, outros procurando melhoria. E nós ficamos resistindo aqui até hoje”, recorda.
As entrevistas realizadas pela equipe acrescentam, assim, uma dimensão histórica e humana às informações coletadas pelas demais frentes, conectando os dados às trajetórias das pessoas responsáveis por manter vivas as práticas, conhecimentos e relações que estruturam a vida comunitária.
Infraestrutura também faz parte da leitura sobre permanência
A escuta dos moradores evidenciou que fortalecer a sociobioeconomia passa também pelas condições de acesso a políticas públicas e serviços essenciais.
Entre as demandas apresentadas por Nito estão a ausência de uma Unidade Básica de Saúde e de uma escola dentro do quilombo. Segundo a liderança, crianças precisam se deslocar para estudar em outras localidades, enquanto atendimentos de saúde também dependem de estruturas externas.
A situação afeta especialmente crianças e pessoas idosas, conforme explica.
“Nós somos uma comunidade centenária e não temos uma UBS, não temos uma escola. Aqui nós temos idosos e não tem ninguém para acompanhar, tirar pressão, conferir a diabetes ou fazer um primeiro socorro.”
Para ele, a implantação desses equipamentos representa uma expectativa antiga.
“Eu tenho um sonho de ver aqui dentro do Rosa, antes de morrer, uma UBS e uma escola. Esse é o meu desejo.”
O relato demonstra como as condições de infraestrutura estão diretamente relacionadas à permanência das famílias. Produzir e gerar renda são dimensões fundamentais, mas precisam caminhar ao lado do acesso à educação, saúde, transporte e demais direitos.
Marabaixo mantém viva a herança cultural
O mapeamento da sociobioeconomia também considera as manifestações culturais que ajudam a construir a identidade local.
No território, o Marabaixo ocupa lugar especial. A tradição atravessa gerações e permanece como referência para os moradores. A festa do Menino Deus, realizada em dezembro, também integra o calendário cultural mencionado durante as entrevistas.
Nito resume sua relação com essa herança ao lembrar que o vínculo com o Marabaixo foi transmitido pelos mais velhos.
“A cultura não tem religião. Isso eu aprendi com meus avós. Gostar do Marabaixo já está no sangue.”
A manifestação reforça que as dinâmicas econômicas identificadas pelo Atlas não existem separadas das relações sociais, das celebrações, da memória e dos conhecimentos tradicionais.
Compreender as cadeias de valor significa, portanto, observar também o conjunto de práticas que dá sentido à vida coletiva.
Pertencimento que atravessa gerações
O vínculo com o Rosa aparece de maneira constante na trajetória narrada por Nito.
Mais do que local de moradia, a área representa origem, trabalho, memória familiar e continuidade. É onde estão enterrados seus antepassados, onde seus filhos cresceram e de onde ele retira parte importante do sustento.
“Eu nasci aqui, me criei no Rosa, o meu umbigo está enterrado no Rosa, o umbigo dos meus filhos está enterrado no Rosa. Aqui é minha terra natal”, sintetiza.
Essa relação ajuda a compreender uma dimensão essencial do trabalho realizado pelo Atlas: as cadeias produtivas não podem ser analisadas isoladamente das pessoas e das relações que sustentam sua existência.
A produção de açaí, a agricultura, a criação de animais e as demais atividades identificadas durante o levantamento estão ligadas à possibilidade de permanecer, gerar renda e transmitir conhecimentos às próximas gerações.
Quilombo do Rosa encerra uma etapa e abre novos caminhos para o Atlas
A passagem pelo Quilombo do Rosa marcou o encerramento da etapa de campo do Atlas da Sociobioeconomia Quilombola da Amazônia. O último destino sintetizou uma metodologia construída a partir da combinação entre ferramentas técnicas e participação comunitária.
Por meio do georreferenciamento, GTAQ, levantamento das cadeias produtivas, comunicação, entrevistas e registros audiovisuais, a equipe reuniu informações que permitem observar cada localidade para além de uma única dimensão.
No Rosa, o processo revelou uma economia diversificada, sustentada por diferentes atividades ao longo do ano, mas também identificou obstáculos que interferem diretamente na capacidade de produção e na qualidade de vida das famílias. O encerramento das visitas, entretanto, não representa o fim do trabalho.
As informações construídas junto aos moradores passam a integrar uma etapa mais ampla de sistematização dos dados coletados ao longo da iniciativa. O desafio, a partir desse percurso, é transformar os conhecimentos reunidos em instrumentos capazes de ampliar a visibilidade da sociobioeconomia quilombola e evidenciar as potencialidades e necessidades identificadas em cada realidade.
Ao concluir sua caminhada de campo no Quilombo do Rosa, o Atlas encerra um ciclo de encontros, oficinas, mapeamentos e escutas, mas mantém aberta uma trajetória de valorização das cadeias produtivas, dos conhecimentos tradicionais e das estratégias construídas pelas comunidades para gerar renda, cuidar de seus espaços de vida e projetar o futuro.
Mais do que identificar o que se produz, a experiência em campo permitiu compreender quem produz, como produz, quais obstáculos enfrenta e quais conhecimentos tornam essas atividades possíveis.
Texto por Thaís Rodrigues/CONAQ , publicado às 19:00:57
Categoria: Sociobioeconomia