23 de agosto de 2026
No coração do Curiaú, Atlas da Sociobioeconomia inicia mapeamento dos territórios quilombolas no Amapá
Última etapa de campo do projeto na Amazônia Legal começa com georreferenciamento, escuta comunitária e identificação das cadeias produtivas do território quilombola.
Entre paisagens marcadas pela presença das águas, das matas e dos modos de vida tradicionais, o Quilombo do Curiaú, em Macapá (AP), foi o ponto de partida para uma nova etapa do Atlas da Sociobioeconomia Quilombola da Amazônia. Na sexta-feira, 21 de agosto, a equipe chegou ao território para iniciar o mapeamento no Amapá, último estado visitado pelo projeto na Amazônia Legal.
A agenda reuniu moradores, lideranças e integrantes da equipe responsável pelo levantamento de informações sobre o território, suas formas de produção, conhecimentos tradicionais, potencialidades econômicas e desafios enfrentados pela comunidade.
A iniciativa é financiada pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e tem como uma de suas principais diretrizes construir os levantamentos a partir da participação dos próprios quilombolas, reconhecendo seus saberes e experiências como elementos fundamentais para compreender a sociobioeconomia presente em cada localidade.
A comunidade no centro da construção do Atlas
A chegada ao Curiaú foi acompanhada pela agente territorial Patrícia Pereira, quilombola do Alto do Pirativa, que atua na articulação das atividades junto à comunidade. A apresentação aos moradores abriu a programação e deu início a um processo de escuta que se estende por diferentes dimensões da vida comunitária.
Na sequência, a coordenadora do projeto, Laura Silva, apresentou os objetivos e a metodologia da iniciativa, reforçando que o levantamento não se limita à coleta de dados. Trata-se de um processo de construção coletiva, no qual a comunidade identifica suas próprias riquezas, aponta necessidades e apresenta as estratégias que já desenvolve para garantir sua reprodução social e econômica.
Para Patrícia, a receptividade demonstrada pelas lideranças e pelos moradores revela a expectativa em torno da chegada de uma iniciativa capaz de dar maior visibilidade às experiências existentes no território.
“Quando se trata de um projeto, de uma política pública que chega dentro do território, as lideranças e a própria comunidade têm uma aceitação muito grande”, destaca.
Território também se reconhece pelo mapa
O georreferenciamento foi uma das primeiras etapas realizadas pela equipe. Conduzido por Heitor Paulo, o trabalho contribuiu para identificar características espaciais e referências territoriais importantes para a compreensão da área.
Mais do que estabelecer limites no mapa, o procedimento integra um esforço de reconhecimento do território a partir da realidade vivenciada pelos seus habitantes. A dimensão territorial é essencial para compreender onde estão as áreas de produção, os espaços de uso coletivo e os locais que sustentam diferentes práticas culturais e econômicas.
Essa leitura espacial se soma às demais informações reunidas durante a visita, formando um retrato mais amplo da dinâmica quilombola.
Oficina GTAQ abre espaço para falar dos desafios
Outro momento da programação foi a oficina GTAQ, conduzida pelo consultor Hilton Lucas. A atividade possibilitou uma conversa coletiva sobre as condições encontradas no Curiaú, permitindo que os moradores apresentassem demandas, potencialidades e obstáculos que interferem diretamente na qualidade de vida e no desenvolvimento local.
Questões relacionadas à saúde, educação e infraestrutura estiveram entre os temas identificados durante as discussões.
A escuta comunitária também evidenciou que o fortalecimento da sociobioeconomia depende de condições estruturais que permitam aos produtores ampliar suas atividades, agregar valor aos produtos e acessar novos mercados.
Produção quilombola enfrenta dificuldades para chegar além do território
No levantamento das cadeias produtivas, coordenado por Helena Santos, apareceram diferentes atividades que movimentam a economia do Curiaú. A produção de banana, cupuaçu, batata, açaí e farinha se soma ao artesanato, às biojoias, às tranças e aos empreendimentos gastronômicos existentes na comunidade.
Apesar dessa diversidade, um dos principais gargalos identificados é o escoamento da produção.
Segundo Patrícia Pereira, a ausência de estruturas adequadas de comercialização faz com que muitos produtores acabem vendendo diretamente em suas próprias casas ou dentro da comunidade. No caso da farinha, por exemplo, a produção teria diminuído e passado a ser direcionada principalmente ao consumo das próprias famílias.
“A maior dificuldade é o escoamento da produção”, explica a agente territorial.
O desafio revela uma contradição: existe produção, conhecimento e capacidade de geração de renda, mas ainda faltam mecanismos que permitam ampliar a circulação desses bens e fortalecer a autonomia econômica das famílias.
Uma feira para movimentar a economia quilombola
Durante o diagnóstico, surgiu também uma demanda concreta: a criação de um espaço permanente para comercialização dos produtos do território.
A proposta de uma feira quilombola do Curiaú poderia beneficiar não apenas os produtores locais, mas também moradores de outras comunidades e visitantes que circulam pela região. Um ponto fixo de comercialização ajudaria a concentrar a oferta, facilitar o acesso aos produtos e criar uma referência para quem chega ao território.
Para Patrícia, a iniciativa poderia representar uma mudança importante para os produtores, que deixariam de depender exclusivamente da venda realizada na porta de suas casas.
A estrutura também poderia aproximar a produção quilombola de consumidores de Macapá e de comunidades localizadas ao longo da região, ampliando as possibilidades de circulação da renda.
Infraestrutura é peça-chave para fortalecer as cadeias produtivas
A construção ou adequação de uma casa de farinha também aparece entre as necessidades apontadas pelos moradores. A estrutura poderia melhorar as condições de produção e contribuir para a regularização e comercialização dos alimentos.
Outro desafio envolve a obtenção de certificações e selos necessários para determinados produtos. A falta de infraestrutura adequada e as exigências para certificação acabam se relacionando e dificultando o avanço das atividades.
O diagnóstico realizado pelo Atlas permite, assim, identificar não apenas quais produtos são encontrados no território, mas também os obstáculos que precisam ser enfrentados para que essas cadeias possam crescer de maneira sustentável e em benefício da própria comunidade.
Saberes tradicionais que também geram renda
A experiência do território mostrou que ele não se resume à produção agrícola. Ela dispõe de diferentes conhecimentos e práticas desenvolvidas pelas famílias. Artesanato, biojoias, tranças, gastronomia e turismo integram um conjunto de atividades que expressam a criatividade e a capacidade de geração de renda da comunidade.
Patrícia destaca especialmente o trabalho realizado pelas mulheres e ressalta como determinadas atividades podem representar uma fonte significativa de recursos para as famílias. “A cadeia produtiva dentro do Curiaú é um leque de oportunidades”, afirma.
Ao registrar essas experiências, o Atlas contribui para ampliar a compreensão sobre a sociobioeconomia quilombola como uma estratégia que articula território, cultura, biodiversidade, conhecimento tradicional e geração de renda.
Curiaú: memória, cultura e resistência quilombola
Para além dos números e dos levantamentos econômicos, o mapeamento também revela a dimensão simbólica do Curiaú. Reconhecido como uma importante referência quilombola no Amapá, o território reúne paisagens, manifestações culturais, atividades produtivas e práticas comunitárias que atravessam gerações.
Patrícia chama atenção para o potencial turístico e cultural da região, mas também para a necessidade de que políticas públicas sejam efetivamente implementadas no território. “O Curiaú é lindo. Infelizmente, o que está faltando é essa política pública chegar na ponta desse povo, que tanto precisa e tanto almeja por essa política pública”, afirma.
A fala traduz uma das principais mensagens deixadas pelo primeiro dia de atividades: preservar a sociobiodiversidade amazônica passa necessariamente por garantir condições dignas para quem vive e protege esses territórios. “Debaixo das copas das árvores, existem pessoas, existem seres humanos e existe aquele quilombola que está ali lutando pelo seu território”, acrescentou a agente.
A jornada pelo Amapá segue nos próximos dias, ampliando o registro das experiências e das potencialidades que sustentam os modos de vida quilombola e reafirmam o papel dessas comunidades na conservação da sociobiodiversidade amazônica.
Texto por Thaís Rodrigues/CONAQ , publicado às 16:11:54
Categoria: Sociobioeconomia