25 de novembro de 2025
Mulheres quilombolas impulsionam a mobilização nacional na ll Marcha das Mulheres Negras 2025
Delegações da CONAQ reforçaram que não há justiça sem reconhecimento territorial, direitos garantidos e políticas estruturantes que assegurem o bem viver às futuras gerações.
A II Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver reuniu, em Brasília, milhares de mulheres de todas as regiões do país para reivindicar direitos, denunciar desigualdades e celebrar a força coletiva da ancestralidade negra.
Compondo a multidão potente estavam as quilombolas, organizadas pela Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), que ecoaram uma pauta urgente e estruturante: a reparação histórica e a garantia de uma vida plena.
É preciso frisar que ao longo dos séculos as mulheres quilombolas têm sustentado seus territórios, suas formas próprias de organização e suas práticas ancestrais de cuidado, preservação e solidariedade.
Nesta edição, elas que lutam diariamente em seus territórios ocuparam as ruas da Capital Federal para enfatizar que a reparação não é apenas um conceito simbólico, mas um compromisso do Estado brasileiro com políticas que assegurem terra, proteção, acesso à saúde, educação, segurança e condições dignas de vida para todas as comunidades tradicionais.
Responsabilização histórica como alicerce de justiça e democracia

Pedro Garcês/Comunicação CONAQ
Em cada chegada das delegações era nítida a força do território que as mesmas traziam, dos chapéus as bandeiras dos quilombos, do reconhecimento ancestral das companheiras à união por uma só luta, as mulheres quilombolas vestiram a camiseta que expressava a presença de cada quilombo, de cada mulher ali presente.
Dez anos após a primeira Marcha das Mulheres Negras, cada quilombola que esteve presente neste dia 25 em Brasília, ressignificou os passos que dão todos os dias na luta pela titulação dos territórios, pela garantia do direito à vida e bem viver.
Uma Marcha que teve encontros de gerações, mostrou a importância da incidência política e racial quanto às pautas femininas, também evidenciou a invisibilidade das mulheres quilombolas quanto à representatividade nos trios. Guiadas pela certeza de que ‘nada sobre sem nós’, o pouco espaço designado às quilombolas foi ocupado com maestria pelas coordenadoras do Coletivo de Mulheres da CONAQ, onde reforçaram a trajetória da organização sobretudo visando o fortalecimento das mulheres.
Da resistência nos quilombos à luta pela equidade racial cada mulher marchou coletivamente, levando a ancestralidade em cada passo e a certeza de que somos começo, meio e começo. Em cada rosto, o orgulho de estar ali e a certeza de que nossa luta precisa ser fortalecida todos os dias integrou cada fala, todo o espaço.
Durante todo o percurso da marcha, faixas, cantos, manifestos e falas públicas das lideranças quilombolas apontaram para uma compreensão ampla de reparação. Não se trata apenas de reconhecer violações do passado, mas de enfrentar as desigualdades estruturais que persistem, desde a morosidade na titulação dos territórios até a ausência de políticas de desenvolvimento que respeitem os modos de vida quilombolas.
Na ocasião, mais de mil e quinhentas mulheres quilombolas carregaram bandeiras homenageando o movimento que em 2026 completa 30 anos, o Coletivo de Mulheres da CONAQ, às saudosas lideranças Sebastiana Geralda Ribeiro da Silva (Mãe Tiana), Maria das Graças Epifânio, Rosa Dealdina, Dona Anacleta, Dona Djé, Fátima Barros, Tia Uia e Mara com a potente frase: “a ancestralidade nunca morre”, “Somos começo, meio e começo” do saudoso Antônio Nego Bispo, “Justiça por Mãe Bernadete”, “Títulação já”, “Via Campesina” e “Coalizão Internacional de Povos Afrodescendentes da América Latina e Caribe- CITAFRO”.
Bem viver quilombola como horizonte político

Pedro Garcês/Comunicação CONAQ
O ato também se tornou um espaço para afirmar “a vida digna de forma plena” como projeto político. As mulheres quilombolas destacaram que os territórios são mais do que espaços de moradia: são lugares de existência plena, onde se manifestam práticas de espiritualidade, economia solidária, agricultura ancestral, educação comunitária e redes de cuidado entre mulheres, crianças, idosos e juventudes.
O conceito de bem viver, amplamente defendido nesta edição, na perspectiva quilombola rompe com a lógica de desenvolvimento baseada na exploração e no lucro e propõe uma relação equilibrada entre pessoas, território e natureza.
Durante o percurso, as quilombolas lembraram que suas comunidades preservam biomas inteiros justamente por viverem em harmonia com a terra, e que garantir o bem viver é, também, garantir justiça climática e ambiental.
Força política no centro do debate

Pedro Garcês/Comunicação CONAQ
Além da presença nas ruas, mulheres quilombolas concederam entrevistas e conseguiram realizar trocas com as demais participantes. Esta confluência, reforçou seus saberes essenciais para a sustentabilidade e para o equilíbrio socioambiental, e que suas vozes precisam ocupar espaços de decisão.
Maryellen Crisóstomo, coordenadora da COEQTO foi uma das lideranças que subiu no trio elétrico para ecoar as reivindicações das integrantes do movimento. Além da liderança, mais mulheres fizeram questão de expressar o sentimento de participar desse ato repleto de sororidade.
“Eu descobri que minha ancestralidade é quilombola do Quilombo do Juá lá de Bom Jesus da Lapa, então estar aqui junto com essas mulheres é muito potente, histórico e importante”, Jessi Alves, Bióloga, professora de Biologia e ex-participante do BBB 22.
“Saímos de casa no sábado (22) a noite e chegamos aqui (Brasília) ontem (24). Minha primeira vez na Marcha e a expectativa está enorme, está aqui junta com outra mulheres que lutam pela mesma causa que a gente”, Relatou uma das integrantes da delegação de Pernambuco.
“É um momento bastante importante para a gente que é juventude porque tá nesse processo de receber esse legado que nossas mais velhas nos entregam nesse processo de luta. Então, quando a gente se coloca nesse espaço da diversidade mulheres e percebe nossas características especificas de acordo com nossas pautas nesses espaços a gente entende o qual importante e a presença dos quilombolas”, Micele Silva, liderança jovem da CONAQ.
“Como mulher maranhense para mim a Marcha é de fundamental importância para todas as quilombolas por reparação e bem-viver. Também por saúde, educação, por território livre enfim, em busca de nossas políticas públicas”, Élida Carina Torres, Quilombo Santa Maria (MA).
Uma mobilização que reafirma compromissos e projeta futuro

Pedro Garcês/Comunicação CONAQ
A participação quilombola na segunda edição da Marcha deixou claro que a luta por reparação e bem viver é uma agenda nacional. As mulheres quilombolas mostraram ao país que suas reivindicações não dizem respeito apenas a um grupo específico, mas ao futuro do Brasil enquanto nação pluricultural, antirracista e comprometida com a vida em todas as suas formas.
Ao final do dia, ficou evidente: quando as mulheres quilombolas marcham, marcham também suas comunidades, seus ancestrais e as gerações que ainda virão. Marcham por reparação, por direitos e por um bem viver que seja pleno, digno e possível para todas as mulheres pretas do Brasil.
O compromisso das instituições parceiras foi fundamental para viabilizar a participação das quilombolas na Marcha das Mulheres Negras 2025 por Reparação e Bem Viver. Act!onaid, Bizi Lur, Fundo Casa Socioambiental, Grassroots International, Ibirapitanga, Instituto Socioambiental, Fundo ELAS, Thousand Currents, Fundo Baobá, Bem-Te-Vi Diversidade, Cooperação Espanhola, Global Witness, Embaixada da França no Brasil, GIZ, Fundação RTVE, UFG, Alimento no Prato, MDA, Governo Federal e UnB se somaram de forma decisiva para garantir presença, mobilização, segurança e visibilidade às mulheres quilombolas nesse momento histórico.
Essa articulação conjunta reforça que a luta por justiça racial, direitos territoriais e um viver digno é necessariamente coletiva e se fortalece por meio de alianças sólidas e comprometidas. A marcha demonstrou que, quando essas forças se unem, é possível ampliar vozes, consolidar resistências
Texto por Geine Medrado, Jéssica Albuquerque e Thaís Rodrigues/Comunicação CONAQ, publicado às 22:52:54
Categoria: Mulheres Quilombolas