25 de novembro de 2025
Marcha das Mulheres Negras 2025: Quilombolas realizam articulação às vésperas do evento
Concentração preparou ações conjuntas para impulsionar pautas centrais do movimento.
A poucas horas da mobilização mais aguardada de 2025, o Coletivo de Mulheres da CONAQ reuniu suas integrantes para alinhar estratégias e fechar os preparativos antes da Marcha das Mulheres Negras. O encontro marcou um momento de união, planejamento e reafirmação das agendas prioritárias das quilombolas.
Trocas, articulações e presença latino-americana
Durante a manhã, as participantes promoveram uma troca intensa de experiências, com apresentação das lideranças e das convidadas internacionais, além da revisão dos pontos finais para assegurar forte presença das comunidades quilombolas no ato nacional.
Dados inéditos
À tarde, às 14h, foi lançado o primeiro Boletim “Saúde Quilombola no Brasil: evidências para a equidade”, resultado da parceria entre a Fiocruz Bahia e o Coletivo de Saúde da CONAQ. O coordenador do coletivo, Graça Epifânio, Mateus Brito, destacou a urgência de colocar a saúde quilombola no centro das políticas públicas – pauta reforçada pela coordenadora nacional, Sandra Maria Andrade.
Durante a apresentação, lideranças lembraram integrantes da CONAQ que, antes de ancestralizarem, enfrentaram a morosidade e as falhas do sistema de saúde, muitas vezes com causas de morte registradas de forma imprecisa.
“A gente não quer nenhum privilégio, a gente quer ser atendido de forma humana. Esses dados mostram o quanto nosso povo ainda não tem direito a uma saúde de qualidade e como o racismo está presente no sistema de saúde. Nós somos população e eles têm que nos respeitar porque existimos. Precisamos continuar nessa luta pela implementação de uma saúde digna para o nosso povo, mesmo que eu não alcance — mas que nossos filhos e netos possam alcançar essa saúde maior”, reforçou Sandra Maria Andrade.
Racismo, desigualdade e impactos na saúde quilombola
A publicação reúne dados nacionais que evidenciam como as desigualdades históricas afetam diretamente a vida e a saúde das populações quilombolas. As informações fazem parte da Coorte de 100 Milhões de Brasileiras e Brasileiros, iniciativa do Cidacs/Fiocruz Bahia que compila registros, do período de 2011 a 2020, de mais de 140 milhões de pessoas inscritas no Cadastro Único, muitas delas beneficiárias de políticas sociais do Governo Federal.
Segundo a pesquisadora de pós-doutorado do Cidacs/Fiocruz Viviane Silva de Jesus, comparando com a população em geral, os dados revelam que a população quilombola está em maior vulnerabilidade e morrem mais por causas evitáveis. “As populações quilombolas estão em uma situação marginalizada no que tange às condições de vida e apresentando maiores taxas de mortalidades por causas que não deveriam nem estar adoecendo, quanto mais morrendo. Os resultados reforçam a necessidade de ações mais amplas na saúde e de forma intersetorial para garantir direitos a essas comunidades”, destacou.
Indicadores alarmantes e desafios persistentes
Nesta edição inaugural, o boletim analisa as condições de vida e os padrões de mortalidade de cerca de 64 mil quilombolas maiores de 20 anos acompanhados entre 2011 e 2020, além de dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade. O conteúdo completo está disponível por meio de QR Code no material de lançamento.
Durante o levantamento informações surpreendentes vieram à tona, uma delas foi a alta mortalidade dos quilombolas por diarreia. Sem esquecer a violência territorial e o suicidio que aumentou de forma exponencial entre os jovens, e altas taxas de feminicídio.
“A população quilombola está morrendo por causas evitáveis, morrendo por causas como diarreia, desnutrição, homicídio, doença falciforme, acidentes de transporte, e suicído, principalmente entre os jovens, e várias outras doenças que já não era mais para morrer em 2025, ou seja, o sistema único de saúde, o SUS, ele conseguiu avançar em várias questões de saúde, mas para a população quilombola ainda existe uma um vazio assistencial enorme. As mulheres quilombolas sofrem com altas taxas de feminicídio, morte por câncer e por problemas cardíacos, as altas taxas também de suicídio e de sofrimento mental”, pontuou Mateus Brito, coordenador do coletivo de saúde da CONAQ.
Mostra audiovisual e homenagens
A programação do dia 24 do Coletivo de Mulheres da CONAQ, rumo à Marcha Nacional das Mulheres Negras, encerrou com a exibição dos documentários Vidas Interrompidas e Cafuné.
A abertura do lançamento contou com a apresentação de Adda Vyctória, intitulada “Mãe Terra”, simbolizando a força e a resistência das mulheres negras. Em seguida, houve o momento de fala política da coordenação executiva da CONAQ — Xifronese Santos, Rejane Oliveira e Ivo Fonseca, Laura, Maria Isabel e José Silvano —, com as presenças de Jhonny Martins, representando a Negra Anastácia, e Kátia Penha (CITAFRO).
Os coordenadores da CONAQ ressaltaram a importância dos projetos Resistência Quilombola e Cafuné, prestando homenagens ao Coletivo de Mulheres da CONAQ nas figuras de Selma Dealdina Mbaye e Cida Sousa, além de agradecer aos parceiros do projeto, às mulheres presentes e às autoridades que prestigiaram o evento.
Maryellen Crisóstomo, do Coletivo de Mulheres da CONAQ, relembrou o histórico da preparação para a Marcha das Mulheres, iniciada há 11 meses, e que se consolida neste 25 de novembro com a mobilização de mulheres quilombolas de mais de 30 delegações dos estados, além de mulheres quilombolas de diversos países afrodescendentes.
Após a exibição dos filmes, em um emocionante momento de encerramento, mulheres quilombolas relataram suas experiências com os projetos — especialmente o acolhimento recebido durante as oficinas do Cafuné —, compartilhando histórias de dor, superação e coragem. Também denunciaram a ineficiência do Programa de Proteção a Defensores de Direitos Humanos no país e defenderam a continuidade do projeto, que tem sido um divisor de águas em suas vidas, oferecendo um espaço de abraço e acolhimento coletivo.
“É fundamental estarmos entre as nossas para falar das nossas dores. O Programa de Proteção não nos atende como deveria, mas no Cafuné encontramos acolhimento e força. Agradeço aos parceiros que compreenderam a importância de valorizar o povo quilombola. Não vamos parar — seguiremos lutando, sabendo que temos umas às outras, e isso transforma nossas vidas”, reforçou Bia Nunes, do quilombo Maria Conga (RJ).
Sarah Fogaça reforçou a relevância dos dados produzidos pelo projeto Resistência. “Política pública nasce da realidade e dos dados — e nós sempre fomos invisibilizados. Foi desafiador, mas necessário, mostrar como a omissão do Estado na titulação dos territórios coloca nossas vidas em risco. As mulheres quilombolas são assassinadas por serem lideranças e por serem mulheres. Cada morte é antecedida por ameaças e silenciamentos. A CONAQ convoca a enxergar essa realidade antes que mais famílias sejam atingidas. Precisamos de respostas”, pontuou.
Parceiros
A CONAQ agradece profundamente o compromisso das instituições que viabilizaram a participação das mulheres quilombolas na Marcha das Mulheres Negras 2025 por Reparação e Bem Viver. Act!onaid, Bizi Lur, Fundo Casa Socioambiental, Grassroots International, Ibirapitanga, Instituto Socioambiental, Fundo ELAS, Thousand Currents, Fundo Baobá, Bem-Te-Vi Diversidade, Cooperação Espanhola, Global Witness, Embaixada da França no Brasil, GIZ, Fundação RTVE, UFG, Alimento no Prato, MDA, Governo Federal e UnB atuaram como parceiras fundamentais para garantir presença, mobilização, segurança e visibilidade às mulheres quilombolas nesse momento histórico. A articulação conjunta reafirma que a luta por justiça racial, direitos territoriais e bem viver é coletiva e depende da construção de alianças sólidas e comprometidas. A marcha mostrou que, quando essas forças se unem, é possível ampliar vozes, fortalecer resistências e avançar na defesa de um Brasil verdadeiramente antirracista.
Texto por Geine Medrado, Jéssica Albuquerque e Thaís Rodrigues/Comunicação CONAQ, publicado às 08:12:19
Categoria: Mulheres Quilombolas