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30 de junho de 2025

Luta ancestral, justiça climática e protagonismo feminino marcam nova etapa da ll Jornada de Formação da Marcha

Territórios quilombolas, direito à terra e enfrentamento ao racismo ambiental foram algumas das pautas da reunião

No último sábado, 28 de junho, aconteceu o segundo encontro da Jornada Virtual de Formação para a Marcha de Mulheres Negras, uma iniciativa da CONAQ em preparação para a grande Marcha que será realizada ainda este ano. Com o tema Territórios Quilombolas e Direito à Terra – Lutas pela regularização fundiária e enfrentamento ao racismo ambiental, o encontro reuniu mulheres quilombolas de diversas partes do Brasil para compartilhar vivências, fortalecer a mobilização e aprofundar o debate político sobre a luta por território e justiça.

A abertura foi conduzida por Maryellen Crysóstomo, que destacou a importância da jornada formativa, composta por sete encontros, como espaço de fortalecimento e preparação política das mulheres negras e quilombolas. Em seguida, Selma Dealdina Mbaye, coordenadora executiva da CONAQ, saudou as companheiras presentes e reforçou o empenho da organização em garantir que a voz das mulheres quilombolas ecoe em todos os espaços de decisão: “Estamos lutando pelo bem viver, que passa principalmente pela terra. Sem território, não há vida plena possível”, afirmou Selma.

Maryah Fernandes também contribuiu com uma reflexão importante sobre a marcha, destacando que esse processo não se trata de uma construção isolada, mas da continuidade de uma caminhada ancestral, que carrega a força das que vieram antes e das que ainda virão.

 

Maryellen retomou a fala trazendo o desafio de desestruturar o racismo em todas as suas formas. “Cuidar do território é cuidar de todos os corpos que nele vivem – mulheres, homens, jovens, crianças. Assim como o racismo é estrutural, também precisamos de estrutura para enfrentá-lo”, afirmou.

Selma Dealdina, em uma fala forte e incisiva, destacou que a luta pelo território é também uma luta internacional, pois os povos tradicionais enfrentam violações semelhantes em várias partes do mundo: “Temos uma legislação linda no papel, mas na prática, o racismo segue sendo o maior obstáculo. É o crime perfeito. O Brasil poderia ter acabado com o racismo, com a fome, com a desigualdade – mas não há interesse, porque isso é moeda de troca.”

Ela também fez um resgate histórico sobre as estratégias do Estado brasileiro para negar direitos aos povos negros. “A abolição foi uma farsa. Vieram leis para nos afastar da escola, da terra, da dignidade. A Lei de Terras mudou de nome, mas o objetivo segue o mesmo: negar nossos direitos territoriais.”

 

A força ancestral dos quilombos, segundo Selma, é o que sustenta a resistência até hoje. “Por que nossos ancestrais escolheram lugares verdes, bonitos, com água? Porque ali havia vida. E é essa vida que seguimos protegendo.” Ela lembrou que os quilombolas estão presentes em todos os seis biomas brasileiros, em quase mil municípios e somam mais de dois milhões de pessoas, mas o Estado segue negligenciando seus direitos: “Existem mais de 1900 processos de titulação parados. Selma também alertou para a importância de denunciar o racismo ambiental, principalmente às vésperas da COP 30, que será sediada no Brasil: “A COP é da ONU, não é nossa. É nesses espaços que vendem nossos territórios, sem nos consultar. 

A Procuradoria Geral da República (PGR) também esteve presente, representada na reunião por Kênia Alves, que fez uma breve participação. Em seguida, o espaço foi aberto para contribuições das participantes, que compartilharam reflexões, denúncias e reafirmaram o compromisso com a luta coletiva.

O encontro foi mais um passo importante rumo à Marcha de Mulheres Negras, reafirmando que a luta por território é central para a construção do bem viver e da justiça climática. Como bem disse uma das participantes: “O direito à terra é uma conquista que se dá por meio da luta contra todas as formas de racismo.”