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30 de julho de 2025

Juventude Quilombola no Fórum Global da Juventude 2025, em Bali

Jovens representaram países de três continentes em encontro promovido pela Rights and Resources Initiative (RRI)

De 22 a 25 de julho de 2025, jovens de territórios e comunidades tradicionais da Ásia, África e América Latina se encontraram em Bali, na Indonésia, para viver uma troca potente de experiências no Fórum Global da Juventude (GYF 2025). Promovido pela Rights and Resources Initiative (RRI), o evento reuniu vozes indígenas, afrodescendentes e locais para refletir, propor e agir pela justiça climática e pelos direitos territoriais.

Foi a primeira vez que tantos jovens originários e de povos tradicionais se reuniram para juntos e juntas, estabelecer estratégias de atuação conectadas com seus territórios. Mais de 50 jovens líderes participaram ativamente do encontro, compartilhando suas vivências e fortalecendo a importância da solidariedade internacional entre povos que defendem suas terras e modos de vida.

A CONAQ (Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas) esteve representada por uma jovem quilombola, que levou para o centro do debate internacional as vivências dos territórios negros do Brasil. Sua presença firma o papel da juventude quilombola como guardiã do território, da memória e da resistência frente às ameaças climáticas e estruturais.

Durante o fórum, os jovens deram continuidade a processos iniciados em 2023, como o Manifesto da Juventude da América Latina, o Workshop de Solidariedade da Juventude na Ásia e os primeiros passos para a criação de uma rede nacional de jovens indígenas na República Democrática do Congo. Também aprofundaram alianças com redes como a Asia Young Indigenous Peoples Network, a Kenya Indigenous Youth Network, a Alianza Mesoamericana de Pueblos y Bosques (AMPB) e a REPALEAC, da África Central.

Em momentos especiais de diálogo intergeracional, os participantes compartilharam espaço com lideranças experientes como:

 

  • Rene Ngongo (RDC) – defensor ambiental e Prêmio Nobel Alternativo por sua atuação na proteção das florestas do Congo;
  • Solange Bandiaky-Badji (Senegal/EUA) – atual presidente da RRI;
  • Jenifer Lasimbang (Malásia) – coordenadora do Fundo de Solidariedade dos Povos Indígenas da Ásia;
  • Rukka Sombolinggi (Indonésia) – secretária-geral da AMAN e referência internacional na luta indígena;
  • Dario Solano (República Dominicana) – articulador da Rede Dominicana de Estudos e Empoderamento Afrodescendente.

Representantes de países como Camarões, Quênia, Nepal, México, Bolívia, Filipinas, Brasil e outros compartilharam caminhos diversos, mas unidos pelo mesmo compromisso: defender suas raízes e projetar um futuro justo e coletivo.

 

No primeiro dia: Rituais, identidade e conexão com os ancestrais

A abertura do GYF foi marcada por um ritual espiritual balinês, o Pejati, conduzido por Pak Jro Putu Serenga. Um momento de respeito à terra, à espiritualidade local e aos ancestrais. A cerimônia conectou todos a um sentimento comum de pertencimento e responsabilidade.

Em seguida, a conselheira da Juventude do Secretário-Geral da ONU sobre o Clima, Archana Soreng, lançou uma pergunta: “Como é o coletivo da juventude global?”. E respondeu com firmeza: “Estamos aqui como um só. Como uma coalizão global de jovens.”

O dia foi de partilha intensa: as juventudes refletiram sobre os desafios de seus contextos, fortaleceram a escuta entre gerações e encerraram o encontro com apresentações culturais de suas comunidades.

 

No segundo dia: Ideias que viram luta da arte ao financiamento

O segundo dia foi marcado pela organização regional dos participantes, que mapearam experiências, necessidades e conquistas. Cinco temas surgiram como prioridade comum:

  • Território e direitos humanos: jovens seguem na linha de frente, enfrentando ameaças e criminalização;
  • Financiamento de iniciativas juvenis: é preciso construir redes, narrativas e sustentabilidade;
  • Justiça climática: jovens indígenas e afrodescendentes estão nas áreas mais afetadas e propõem soluções baseadas na natureza;
  • Educação e saberes ancestrais: valorização dos modos de ensinar e aprender nos próprios territórios;
  • Liderança e participação: as juventudes querem espaços reais de decisão e apoio às lideranças coletivas, especialmente das mulheres jovens.

Um painel com Solange Bandiaky-Badji e Jenifer Lasimbang tratou da urgência de mecanismos financeiros justos e acessíveis para a juventude.

 

 

 

 

No terceiro dia: Aprender com os pés na terra e o coração aberto

No dia 24 de julho, teve a visita às comunidades de Pedawa e Penuktukan, em Bali. Em contato com as palmeiras-de-açúcar, fontes sagradas, salinas e florestas.

As visitas evidenciaram como a espiritualidade, a organização social e o cuidado com a natureza estão interligados nas culturas locais. Para os jovens, foi um momento de escuta, humildade e conexão com outras formas de viver o território.

 

 

No quarto dia: Encerramento com voz, memória e futuro

O último dia foi carregado de emoção. No Dia Internacional das Mulheres Afrodescendentes, a equatoriana Alejandra Palacios Espinoza lembrou:

“As mulheres afrodescendentes não apenas resistem: também lideram, sonham e transformam.”

Durante o dia, os participantes construíram juntos um roteiro global de ações juvenis, com destaque para:

  • Lançamento de uma coalizão internacional de juventudes indígenas, quilombolas e locais;
  • Criação do Fundo CLARIFI para Juventude, com apoio do RRI;
  • Promoção de currículos próprios e espaços de aprendizagem comunitária;
  • Incidência coletiva antes da COP30 e fortalecimento do Manifesto da Juventude da América Latina.

 

Juventude quilombola em movimento e conexão global

A participação da CONAQ no GYF 2025 é mais uma demonstração de que não existe justiça climática sem justiça territorial. Estar em Bali foi validar que as vozes negras e quilombolas não apenas resistem, elas constroem, inspiram e articulam um futuro possível a partir de suas raízes.

O Fórum Global da Juventude foi mais do que um encontro: foi um sopro de força coletiva, onde juventudes do Sul global se reconhecem, se apoiam e seguem adiante com os pés na terra e os olhos no mundo.

 

Créditos das fotos: Matata for Rights and Resources Initiative and AMAN. Global Youth Forum,July, 2025. Bali, Indonesia/ TV_Indigena/Mylena Pereira