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31 de julho de 2025

Escola Nacional Nego Bispo, lançada pelo MEC, fortalecerá saberes tradicionais na educação brasileira

Programa é fruto da luta do movimento quilombola representa uma resposta concreta à necessidade de valorizar as identidades e conhecimentos dos povos tradicionais no ambiente escolar. Saiba como a iniciativa deve funcionar.

Um dos maiores intelectuais quilombolas do Brasil e do mundo, Antônio Bispo dos Santos, conhecido como Nêgo Bispo, dará nome a uma Escola Nacional de Saberes Tradicionais. 

Instituída pelo Ministério da Educação por meio da Portaria nº 537, de 24 de julho de 2025, a iniciativa  é fruto de luta do movimento quilombola e representa uma resposta concreta à necessidade de valorizar as identidades e conhecimentos dos povos tradicionais no ambiente escolar. Segundo a portaria publicada no Diário Oficial da União, entre os objetivos do programa estão: 

  • Estimular a atuação de mestres e mestras de saberes tradicionais no ensino, pesquisa e extensão, visando garantir o pluralismo de ideias, de concepções pedagógicas e epistemologias
  • Fortalecer a produção de conhecimentos tradicionais em interação com modelos teórico-conceituais contextualizados e não-eurocêntricos
  • Fomentar o protagonismo dos sujeitos, de trajetórias e concepções epistemológicas dos territórios, com o objetivo de alterar as condições de invisibilidade historicamente vivenciadas”.

Entre as principais pautas do Coletivo Nacional de Educação da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Quilombolas (CONAQ) está a valorização dos saberes tradicionais das comunidades quilombolas dentro das salas de aula e a necessidade dos Estados e Municípios estimularem a atuação e participação dos mestres e mestras de saberes tradicionais dos quilombos, respeitando e valorizando as trocas de conhecimentos dentro e fora das escolas, como forma de preservação dos saberes ancestrais. 

A Escola Nacional Nego Bispo nasce dentro de um movimento mais amplo de transformação da educação brasileira. Inserida na Política Nacional de Equidade, Educação para as Relações Étnico-Raciais e Educação Escolar Quilombola (PNEERQ), a iniciativa fortalecerá a aplicação das Leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008 – que tornam obrigatório o ensino da história e cultura africana e indígena nas escolas.

O Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA) será responsável pela coordenação nacional da Escola Nego Bispo de Saberes Tradicionais. O IFBA afirma que o Programa Nego Bispo nasce com objetivo de suprir uma necessidade formativa, tendo como público-alvo professores e futuros professores da educação básica e ensino superior. “Escola Nego Bispo formará docentes para que, no seu cotidiano em sala de aula, estejam preparados para implementar de forma efetiva o que estabelecem as leis – 10.639/2003 e 11.645/2008, incorporando os saberes e as identidades dos povos tradicionais aos currículos escolares de forma crítica, contextualizada e transformadora”.

O lançamento foi realizado no dia 24 de julho de 2025, em Minas Novas, no Vale do Jequitinhonha (MG), com a presença do ministro da Educação, Camilo Santana, da Secretária Zara Figueiredo da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão (SECADI) e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.  O evento integrou o 1º Encontro Regional de Educação Escolar Quilombola do Sudeste a partir de uma articulação entre a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), com liderança de Givânia Silva, da Comissão Nacional de Educação Escolar Quilombola (CONEEQ), da Secadi e do Instituto Federal do Norte de Minas Gerais – Campus Quilombo. 

Joana Maria, filha de Nego Bispo e embaixadora da  PNEERQ, participou da cerimônia de lançamento do programa junto com autoridades em Minas Gerais e estava ao lado do presidente Lula quando o documento foi assinado. Ela conta que se emocionou com a iniciativa. “Quando a Zara Figueiredo, secretária da Secadi/MEC, conversou conosco sobre a criação do programa com nome do Nego Bispo com o propósito de envolver os mestres e as mestras de saberes tradicionais na política educacional, para a gente foi motivo de muita emoção e alegria. Nego Bispo sempre dizia: ‘nós é quem temos que ensinar a história afro-brasileira e africana e indígena nas escolas’. Então, para que a implementação das leis 10.639 e a 11.645 aconteça, é necessário o envolvimento de quem é guardião dos saberes ancestrais, que são os nossos mestres e as nossas mestras”, disse.

Joana conta que o programa Escola Nacional Nego Bispo de Saberes Tradicionais é de extrema importância para ressignificar a educação brasileira.  

“É a oportunidade da gente ouvir e sentir a história sendo contada pelos nossos guardiões. É a resistência do nosso povo ocupando os espaços educacionais. E isso tem uma grande representatividade e força para a nossa luta de implementação de uma educação quilombola. Então, é muito gratificante ver isso acontecendo.  É necessário contracolonizar a educação e contracolonizar a educação é não aceitar essa educação imposta e que vem de uma referência que não é a nossa. Então é necessário uma educação com o pé no chão, uma educação que, de fato, contribua com a formação das nossas crianças, dos nossos jovens para a vida. Uma formação para a vida e não uma formação para o mundo do trabalho”, afirmou Joana Maria. 

Nego Bispo, presente! 

Liderança ancestral do Quilombo Saco Curtume, em São João do Piauí (PI), Antonio Bispo dos Santos foi um importante intelectual, pensador, filósofo, escritor e líder quilombola brasileiro, conhecido por seu trabalho em defesa dos direitos quilombolas e por seu conceito de “contrarcolonização”. Ele foi membro da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ) e da Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas do Piauí (CECOQ/PI) e ancestralizou em dezembro de 2023. 

Sua atuação teve grande impacto na educação. Ele defendia a importância de se valorizar os conhecimentos e práticas culturais das comunidades tradicionais, como os quilombolas, como forma de resistência à colonização e de construção de uma educação mais plural, antirracista e inclusiva. 

Nas suas reflexões, defendia a circularidade e a importância da conexão com as raízes e a valorização da experiência e sabedoria dos mais velhos, que são consideradas a base para a construção do futuro. A “geração avô” no contexto de Nêgo Bispo refere-se a uma forma de transmissão de conhecimento e sabedoria ancestral, onde a geração dos avós desempenha um papel fundamental na formação da identidade e cosmovisão das gerações seguintes.  

 “Nós somos o começo, o meio e o começo. Existiremos sempre, sorrindo nas tristezas para festejar a vinda das alegrias. Nossas trajetórias nos movem, nossa ancestralidade nos guia.” (Mestre Antônio Bispo dos Santos)