1 de abril de 2026
Entre turbinas e territórios: o custo invisível da energia limpa no litoral do Ceará
Comunidade quilombola do Cumbe enfrenta impactos sociais, ambientais e culturais.
A força dos ventos no Nordeste brasileiro tem atraído investimentos e consolidado a região como protagonista na geração de energia eólica. No entanto, longe dos discursos que apresentam essa matriz como solução universal para a crise climática, comunidades tradicionais têm vivenciado os efeitos concretos dessa expansão. No quilombo do Cumbe, no litoral do Ceará, a chamada transição energética se traduz em disputas por território, mudanças no modo de vida e aprofundamento de desigualdades históricas.
O Cumbe é um território onde a relação com a natureza organiza a vida coletiva. A pesca artesanal, o extrativismo no manguezal e o uso das dunas fazem parte de um sistema de conhecimento construído ao longo de gerações. Nesse contexto, o território não é apenas espaço físico, mas base de existência cultura.
Transição energética e conflitos no território quilombola
A chegada dos empreendimentos eólicos alterou essa dinâmica. Estruturas antes inexistentes passaram a ocupar áreas de uso comum, transformando paisagens e limitando a circulação. O acesso ao mar, essencial para a pesca, tornou-se mais restrito, interferindo diretamente na subsistência das famílias. Essas mudanças não ocorreram de forma isolada, mas inseridas em um modelo de desenvolvimento que prioriza a exploração de recursos naturais em larga escala.
Esse cenário revela uma contradição central: embora a energia eólica seja considerada limpa do ponto de vista das emissões, seus processos de implementação podem gerar impactos significativos quando não consideram os direitos das populações locais. Em territórios como o Cumbe, isso se expressa na perda de autonomia sobre áreas tradicionalmente ocupadas e na reconfiguração das relações sociais.
A ausência ou fragilidade de mecanismos de consulta e participação aprofunda esse quadro. Comunidades que deveriam ser protagonistas nas decisões sobre seus territórios muitas vezes são inseridas apenas como espectadoras de processos já definidos. Com isso, projetos que prometem desenvolvimento acabam reproduzindo padrões de exclusão.
Mesmo diante desses desafios, o Cumbe segue como um território de resistência. A mobilização comunitária, a denúncia dos impactos e a defesa do direito ao território mostram que a transição energética não pode ser discutida apenas em termos técnicos ou econômicos. É necessário considerar quem são os sujeitos afetados e quais são as condições para que seus direitos sejam respeitados.
A experiência do quilombo do Cumbe aponta para um debate mais amplo sobre justiça na transição energética. Produzir energia limpa é uma necessidade global, mas isso não pode significar a continuidade de práticas que desconsideram modos de vida, saberes tradicionais e direitos territoriais.
Mais do que gerar energia, o desafio está em construir caminhos que integrem sustentabilidade ambiental e justiça social. Sem isso, o que se apresenta como solução pode, na prática, reforçar desigualdades que historicamente atingem os mesmos territórios.
Texto por Mylena Pereira/ CONAQ, publicado às 11:53:23
Categoria: Energia