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26 de outubro de 2026

Encontro em Brasília fortalece sociobioeconomia quilombola na Amazônia com formação, intercâmbio de saberes e apresentação de resultados

Realizada pela CONAQ, a programação reuniu agentes territoriais e consultores de cinco estados da Amazônia Legal para compartilhar avanços do projeto direcionado ao bioma.

Entre os dias 13 e 16 de outubro, Brasília (DF) sediou o encontro “Saberes que Confluem: Diálogo, Intercâmbio e Construção Coletiva pela Sociobioeconomia Quilombola na Amazônia”, iniciativa promovida pela Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), no âmbito do projeto Apoio à Bioeconomia Quilombola e ao Georreferenciamento de Territórios na Amazônia Legal, financiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Durante quatro dias, agentes territoriais do Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso e Rondônia se reuniram com consultores e integrantes da equipe técnica para compartilhar experiências, aprofundar conhecimentos e avaliar os resultados do projeto.

Além de apresentar os avanços das ações desenvolvidas nos territórios, a reunião proporcionou um espaço de construção coletiva para identificar desafios, aprimorar instrumentos de gestão e estabelecer encaminhamentos para as próximas etapas. As atividades também evidenciaram a diversidade cultural dos povos quilombolas amazônicos, por meio de manifestações artísticas, relatos comunitários e práticas ancestrais que integram suas identidades.

Diagnósticos e fortalecimento das cadeias produtivas marcam abertura

Foto: Pedro Garcês/CONAQ

 

A programação teve início na terça-feira (13), com uma mística conduzida pelas agentes territoriais do Maranhão, Dionizia Soares, do Quilombo Mata de Olímpio e São José, localizado no município de São Bento, e Filomena Neta, representante do Quilombo Picadas, em Cajapió. A apresentação trouxe elementos da cultura quilombola maranhense, com destaque para o tambor de crioula, manifestação que expressa a ancestralidade, a memória e as tradições das comunidades negras do estado.

Na sequência, Laura Silva, coordenadora do projeto, deu as boas-vindas aos participantes, acompanhada pelas integrantes da equipe técnica Alexandra Salomão e Alessandra Rangel, responsáveis pelo monitoramento do projeto, e Raquel Oni, responsável pela área financeira. O momento marcou a abertura oficial dos trabalhos e reforçou a importância do diálogo entre os diferentes territórios envolvidos na iniciativa.

A primeira atividade técnica foi conduzida pela consultora Maria Helena dos Santos, responsável pela devolutiva do Diagnóstico das Cadeias de Bioeconomia e pela apresentação de um panorama das ações executadas e dos principais resultados obtidos nas comunidades contempladas pelo projeto.

O levantamento permitiu discutir as características dos modos de vida locais, suas potencialidades e os desafios relacionados à produção, ao beneficiamento e à comercialização. Após a exposição, os representantes comunitários puderam complementar as informações, esclarecer dúvidas e apresentar observações a partir de suas realidades.

No período da tarde, o consultor Danilo Miranda apresentou o Plano de Fortalecimento das Cadeias de Bioeconomia, aprofundando o debate sobre estratégias capazes de impulsionar as iniciativas produtivas quilombolas.

A atividade também contou com contribuições dos agentes, que participaram da análise das propostas e compartilharam perspectivas sobre as necessidades identificadas em suas localidades. O primeiro dia foi concluído com uma síntese coletiva conduzida por Laura Silva, reunindo os principais pontos discutidos e as reflexões apresentadas. A Sociobioeconomia Quilombola busca fortalecer a autonomia econômica, produtiva e territorial das comunidades quilombolas, valorizando os conhecimentos tradicionais, as práticas ancestrais e o uso sustentável da sociobiodiversidade. Por meio de diagnósticos participativos, planos estratégicos e microprojetos comunitários, busca garantir o fortalecimento das cadeias produtivas, a geração de renda, a segurança alimentar e a organização coletiva, respeitando os modos de vida e as prioridades de cada território. 

Gestão territorial, georreferenciamento e tecnologia ampliam possibilidades de planejamento

Foto: Pedro Garcês/CONAQ

Na quarta-feira (14), as atividades começaram com uma celebração cultural protagonizada pelos agentes territoriais do estado do Amazonas, Elenilson Santos, representando o Quilombo Cachoeira do Jaú, município de Barcelos e Novo Airão, e Kedson Castro, da comunidade São Paulo do Açu, município de Barreirinha

Elenilson compartilhou um relato sobre sua trajetória e apresentou um vídeo musical em homenagem às comunidades quilombolas que integram o Parque Nacional do Jaú. Kedson, por sua vez, resgatou aspectos históricos do território e apresentou a manifestação cultural “Onça te Pega”, expressão que integra os saberes e as tradições locais.

Após a abertura, o consultor Hilton Lucas Durão conduziu a devolutiva do processo de elaboração participativa dos Planos de Gestão Territorial e Ambiental Quilombola (PGTAQ). A apresentação reuniu informações sobre as etapas desenvolvidas, os resultados obtidos em cada território e a importância desses instrumentos para o planejamento comunitário e participativo das comunidades.

Ao avaliar os avanços alcançados, o consultor ressaltou que os conhecimentos construídos ao longo da iniciativa podem ultrapassar os limites das localidades inicialmente contempladas. Para ele, a experiência representa uma oportunidade de formar multiplicadores capazes de contribuir para que outros territórios quilombolas desenvolvam seus próprios instrumentos de planejamento e gestão.

“Esse projeto pode mobilizar as pessoas para que consigam replicar ou pelo menos beber dessa fonte e tornem-se multiplicadores para as próximas comunidades que, infelizmente, não tenham o recurso que nós tivemos, mas para ter essa ideia como um todo, para que todas as comunidades consigam fazer o mapeamento de suas cadeias produtivas, ter o georreferenciamento e ter o planejamento participativo com o qual o GTAQ pode contribuir”, relatou Hilton.

Os PGTAQs constituem ferramentas voltadas à organização das prioridades territoriais, à valorização dos conhecimentos tradicionais e à definição de estratégias de gestão ambiental, considerando as necessidades e as perspectivas das populações envolvidas. A discussão também abriu espaço para observações dos participantes, permitindo aprofundar questões relacionadas às demandas locais e à aplicação dos instrumentos construídos ao longo do projeto.

À tarde, os geógrafos Heitor Paulo Pinheiro, de Manaus, e Francisco das Chagas, Quilombo Caboclo, localizado no município de Nova Santa Rita, no Piauí  apresentaram os resultados do trabalho de mapeamento e georreferenciamento, compartilhando informações levantadas durante as atividades realizadas nos estados participantes.

Um dos destaques foi a demonstração da plataforma de mapas integrada ao NextGIS, desenvolvida para reunir e organizar dados dos 11 territórios quilombolas contemplados pela iniciativa.

A ferramenta representa um avanço na sistematização de informações geográficas, possibilitando visualizar características das áreas mapeadas e subsidiar análises relacionadas à sociobioeconomia, ocupação territorial, aos equipamentos públicos, à vegetação e a outras dimensões relevantes para o planejamento comunitário.

Mais do que incorporar recursos digitais, a proposta busca fortalecer o protagonismo quilombola na produção, na interpretação e no uso dos dados sobre seus próprios espaços de vida.

Outro momento importante foi a entrega de tablets e bandeiras da CONAQ aos colaboradores do projeto, realizada pela coordenadora Laura Silva. A iniciativa buscou ampliar as condições de trabalho dos agentes, garantindo acesso aos recursos tecnológicos necessários para o levantamento, a consulta e a sistematização de informações. Durante a distribuição dos equipamentos, Laura destacou sua importância para a continuidade das ações desenvolvidas nas comunidades.

“Vocês receberam os tablets equipados com os aplicativos necessários para apoiar as atividades de campo. Os equipamentos permitirão o acesso à plataforma de mapas, onde poderão usufruir, buscar e registrar todas as informações necessárias às suas comunidades, fortalecendo o mapeamento e a gestão dos territórios quilombolas”, explicou.

O segundo dia foi encerrado com uma roda de diálogo que reuniu os representantes dos cinco estados para avaliar os avanços apresentados, complementar os levantamentos e apontar prioridades para a continuidade dos trabalhos.

Saberes ancestrais e capacitação técnica se encontram na construção de projetos comunitários

Foto: Pedro Garcês/CONAQ

 

Na quinta-feira (15), a programação começou com uma mística conduzida por Lourença Maciel, agente territorial do Quilombo Laranjeiras, localizado no município de Pimenteiras d’Oeste, em Rondônia.

A apresentação reuniu imagens das comunidades de Laranjeiras, em Pimenteiras do Oeste  e Rolim de Moura do Guaporé, esta última situada em Alta Floresta d’Oeste, além de registros da tradicional Romaria do Divino Espírito Santo do Guaporé, celebração que integra o patrimônio cultural e religioso das populações da região.

A atividade evidenciou a relação entre espiritualidade, pertencimento e preservação da memória coletiva, elementos fundamentais para compreender as diferentes formas de organização e resistência quilombola.

Em seguida, os geógrafos Francisco das Chagas e Heitor Paulo Pinheiro conduziram a oficina “Plataforma e suas Funcionalidades”, dedicada ao uso prático do sistema de informações geográficas apresentado anteriormente.

Durante a formação, Heitor destacou que o processo de georreferenciamento desenvolvido pelo projeto vai além da representação técnica dos espaços. Segundo ele, a construção dos mapas partiu do diálogo direto com os moradores, reconhecendo seus conhecimentos sobre o território, os usos e a ocupação histórica das áreas. Essa metodologia assegurou a participação das comunidades na definição das informações que compõem os instrumentos cartográficos.

“A partir do diálogo com as comunidades, buscamos compreender as diferentes dimensões do território, considerando as áreas de uso, os espaços de conflito e a ocupação ancestral. Coube aos próprios moradores identificar a área,, enquanto meu papel foi transformar esse conhecimento em representação cartográfica. Assim, construímos coletivamente uma primeira proposta de mapeamento territorial”, explicou Heitor Pinheiro.

Na etapa prática, os participantes realizaram exercícios de navegação e conheceram recursos que poderão contribuir para o acompanhamento das atividades para mapeamento de em  campo, a consulta de dados e a utilização das informações produzidas pela iniciativa para avançar da garantia pelos direitos das comunidades quilombolas.

A formação buscou ampliar a familiaridade dos agentes com as ferramentas digitais, reconhecendo a importância de que os próprios sujeitos dos territórios tenham condições de acessar e utilizar os conhecimentos sistematizados.

Foto: Pedro Garcês/CONAQ

 

No período da tarde, Mato Grosso assumiu o protagonismo da abertura cultural. Laura Silva, coordenadora do projeto, Iolanda Silva, agente territorial do Quilombo Ribeirão da Mutuca, em Nossa Senhora do Livramento, e Nirda de Oliveira, representante do Quilombo de Nossa Senhora do Chumbo, em Poconé, conduziram uma apresentação marcada pela utilização de água de cheiro, elemento simbólico das tradições culturais quilombolas, representando o acolhimento e a ancestralidade, e pela tradicional dança do siriri.

As expressões culturais compartilhadas reafirmaram a diversidade das manifestações quilombolas mato-grossenses e a importância de sua transmissão entre gerações.

A agenda prosseguiu com a Formação em Elaboração de Projetos, ministrada pelas consultoras Alessandra Rangel e Alexandra Salomão. A oficina aos agentes territoriais abordou aspectos relacionados à estruturação de propostas de projetos, para a atividade, o tema do edital proposto seria de fortalecimento da cadeia da sociobiodiversidade do território quilombola,

Por meio de reflexões e exercícios práticos, os participantes foram estimulados a considerar as potencialidades econômicas das comunidades que atuam como agentes territoriais, considerando as especificidades territorias, os conhecimentos tradicionais e as prioridades locais como elementos fundamentais para a construção de iniciativas.

Ao abordar os princípios da elaboração de projetos, Alexandra explicou que o desenvolvimento de uma proposta exige objetivos definidos, organização das etapas e planejamento dos recursos disponíveis, aspectos essenciais para viabilizar ações voltadas ao fortalecimento da autonomia produtiva das comunidades.

“Um projeto é uma iniciativa temporária, com início, meio e fim, desenvolvida para alcançar um resultado único. Suas principais características são o planejamento, a execução e o controle, além da limitação de recursos humanos, operacionais e financeiros. Diferentemente de processos contínuos, todo projeto possui objetivos específicos, prazo determinado e é realizado por pessoas”, detalhou Alexandra.

A capacitação também destacou a necessidade de transformar demandas identificadas nos territórios em propostas estruturadas, capazes de contribuir para a sustentabilidade das atividades comunitárias.

Encerrando o terceiro dia, a consultora financeira Raquel Oni conduziu uma formação sobre Elaboração de Orçamento de Projetos, apresentando orientações relacionadas ao planejamento financeiro, à organização de despesas e à previsão dos recursos necessários para a execução das propostas.

Ao tratar da responsabilidade na administração dos investimentos, Raquel enfatizou que o orçamento constitui uma ferramenta indispensável tanto para o planejamento das ações quanto para a transparência na aplicação dos recursos.

“A gestão financeira é fundamental para garantir a transparência e a prestação de contas aos financiadores. Nesse processo, o orçamento funciona como um instrumento de planejamento e controle, permitindo organizar os recursos, acompanhar sua aplicação e assegurar a execução responsável das atividades do projeto”, salientou.

A atividade complementou os conhecimentos trabalhados anteriormente, oferecendo subsídios para que os agentes possam participar da formulação e  acompanhamento de iniciativas voltadas às suas comunidades.

Plenária coletiva e partilha de produtos consolidam encaminhamentos

Foto: Pedro Garcês/CONAQ

 

A sexta-feira (16), último dia do encontro, começou com uma mística conduzida pelas representantes do Amapá, Patrícia, agente territorial do Quilombo do Curiaú, e Nelma Souza, que atua nas comunidades Abacate da Pedreira e do Rosa, todas localizadas em Macapá.

A apresentação destacou o marabaixo, importante expressão cultural afro-amapaense, e contou com a interpretação da música “Jeito Tucuju”, valorizando elementos que compõem a história, a identidade e as tradições da população local.

Em seguida, uma plenária de encaminhamentos reuniu os participantes para discutir as próximas etapas do projeto, estabelecer responsabilidades e definir estratégias de continuidade das ações.

O espaço também foi dedicado à avaliação coletiva da programação, permitindo que agentes territoriais e consultores compartilhassem percepções sobre as atividades realizadas e apontassem aspectos relevantes para o desenvolvimento dos trabalhos.

Entre os momentos marcantes da manhã esteve a participação de Sandra Braga, coordenadora executiva da CONAQ e liderança do Quilombo Mesquita, em Goiás. Ao avaliar os resultados apresentados, ela destacou a relevância da iniciativa para o reconhecimento das atividades econômicas desenvolvidas pelas comunidades e defendeu a ampliação de experiências semelhantes para outras regiões brasileiras.

“Esse projeto possui suma importância, pois dá visibilidade para o que é produzido nos territórios. Espero que essa iniciativa possa abranger futuramente os demais quilombos de outros biomas do nosso país. Parabéns a todos pelo trabalho desempenhado”, enalteceu Sandra.

A reflexão reforçou o papel da sociobioeconomia como caminho para valorizar atividades produtivas vinculadas aos conhecimentos tradicionais, à conservação ambiental e à geração de oportunidades econômicas.

Na sequência, os representantes dos cinco estados participaram de uma partilha de saberes e produtos levados de suas comunidades. O momento possibilitou a troca de experiências, a comercialização de itens e o fortalecimento dos vínculos entre os integrantes da iniciativa.

A atividade também proporcionou maior visibilidade à diversidade de produções desenvolvidas nos territórios, evidenciando a relação entre cultura, trabalho, identidade e organização econômica.

A manhã foi concluída com uma roda simbólica, representando a circularidade presente nos modos de vida quilombola e a construção de relações fundamentadas na coletividade, na reciprocidade e na cooperação.

O encerramento também foi marcado por uma avaliação da coordenadora Laura Silva sobre os resultados alcançados durante os quatro dias de intercâmbio. À frente da iniciativa, ela ressaltou o caráter coletivo da programação e a importância de reunir representantes de diferentes territórios em um espaço de formação, reconhecimento cultural e construção de estratégias comuns. Para a liderança quilombola, a experiência representa um marco no fortalecimento do protagonismo das comunidades amazônicas e na valorização de seus conhecimentos ancestrais.

“Quero expressar minha imensa gratidão a todas e todos que contribuíram para a realização deste encontro, construído por muitas mãos. Foi um momento inédito e histórico, porque nasceu de nós, das nossas vivências e da realidade dos nossos territórios. Mais do que um evento, foi uma oportunidade de fortalecer nosso protagonismo e valorizar os conhecimentos, as tradições e as riquezas das comunidades quilombolas. Esta é apenas a primeira etapa de uma caminhada que continuará ampliando a visibilidade da nossa diversidade e dos saberes ancestrais para além dos nossos territórios. Saio daqui com o sentimento de dever cumprido e a certeza de que construímos algo muito importante coletivamente”, afirmou Laura.

Visita à Central do Cerrado aproxima participantes de experiências de comercialização

Foto: Pedro Garcês/CONAQ

 

No período da tarde, a equipe realizou uma visita de campo à sede da Central do Cerrado, localizada em Sobradinho, no Distrito Federal, encerrando a programação com uma atividade voltada ao conhecimento de experiências práticas de organização comercial.

Recebidos por Alexandre Lage, gerente comercial da instituição, os participantes conheceram o funcionamento da organização e dialogaram sobre diferentes etapas da cadeia produtiva, desde a captação dos produtos até sua inserção nos canais de comercialização.

Durante a visita, foram abordadas questões relacionadas à organização dos processos, à circulação das mercadorias e às estratégias utilizadas para conectar iniciativas produtivas comunitárias aos mercados consumidores.

Ao compartilhar a trajetória da Central do Cerrado, Alexandre destacou que a articulação entre cooperativas e associações surgiu como uma alternativa para enfrentar dificuldades comuns, especialmente aquelas relacionadas à logística, à distribuição e à comercialização da produção. Segundo o gestor, a cooperação entre diferentes organizações tem sido fundamental para ampliar oportunidades e superar obstáculos que dificilmente seriam enfrentados de maneira isolada.

“Diante dos desafios da comercialização, cooperativas e associações de diferentes estados perceberam que precisavam unir forças para alcançar novos mercados. Foi assim que surgiu a proposta de uma central de comercialização, inicialmente formada por 18 organizações. Mais do que ampliar as vendas, essa articulação se tornou um espaço de troca de conhecimentos, experiências e soluções coletivas, contribuindo para superar dificuldades relacionadas à logística, às embalagens, à rotulagem e ao acesso a grandes centros comerciais. Afinal, o que uma cooperativa dificilmente consegue realizar sozinha se torna possível por meio da organização e da cooperação”, relatou Alexandre.

A experiência permitiu ampliar o debate sobre os desafios enfrentados pelas economias territoriais, especialmente no que diz respeito ao escoamento da produção e à construção de alternativas que contribuam para a geração de renda.

O intercâmbio também ofereceu referências para refletir sobre possibilidades de fortalecimento das cadeias da sociobioeconomia quilombola, respeitando as características de cada comunidade e a autonomia de suas formas de organização.

Projeto articula conhecimento tradicional, gestão ambiental e autonomia econômica

Foto: Pedro Garcês/CONAQ

A iniciativa atua em territórios quilombolas do Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso e Rondônia, articulando atividades de georreferenciamento, elaboração de instrumentos de gestão territorial e ambiental e estudos voltados às cadeias produtivas da bioeconomia.

Entre seus objetivos está a produção de informações e instrumentos capazes de subsidiar o planejamento comunitário, contribuir para o reconhecimento das potencialidades locais e fortalecer estratégias de desenvolvimento econômico alinhadas à proteção da biodiversidade e à valorização dos conhecimentos ancestrais.

Nesse contexto, o protagonismo dos agentes territoriais constitui um dos elementos centrais da metodologia. Por integrarem as próprias comunidades, esses colaboradores contribuem para aproximar as atividades técnicas das realidades locais, incorporar diferentes perspectivas aos levantamentos e ampliar a participação quilombola na construção dos resultados.

A articulação entre diagnósticos, planos de gestão, ferramentas cartográficas e capacitações busca consolidar uma base de conhecimentos que possa ser utilizada pelas comunidades na definição de suas prioridades e na elaboração de propostas futuras.

Ao reunir os diferentes eixos de atuação em uma mesma programação, o encontro de Brasília também possibilitou avaliar como os instrumentos desenvolvidos se relacionam e de que maneira podem contribuir para fortalecer a gestão coletiva dos territórios.

Construção coletiva aponta caminhos para continuidade das ações na Amazônia

Mais do que uma agenda de apresentações técnicas, os quatro dias de atividades representaram um espaço de aproximação entre diferentes experiências quilombolas da Amazônia Legal.

As manifestações culturais realizadas diariamente evidenciaram que os conhecimentos tradicionais não estão dissociados dos processos de planejamento, organização produtiva e gestão ambiental. Ao contrário, constituem parte fundamental das estratégias de permanência, resistência e desenvolvimento construídas pelas comunidades.

As oficinas, os debates e as devolutivas também reafirmaram a importância de produzir informações com participação direta dos sujeitos envolvidos, garantindo que as ferramentas e os resultados estejam conectados às necessidades e aos projetos de futuro de cada localidade.

Com o encerramento da programação, os encaminhamentos construídos coletivamente passam a orientar a continuidade das atividades nos estados participantes, dando sequência aos processos de fortalecimento das cadeias produtivas, de organização territorial e de utilização dos instrumentos apresentados.

A programação terminou em Brasília, mas os caminhos construídos seguem nos territórios, onde os saberes ancestrais, a organização coletiva e as potencialidades produtivas continuam impulsionando estratégias de autonomia, sustentabilidade e valorização da vida quilombola na Amazônia.