3 de dezembro de 2025
Dois anos sem Nêgo Bispo: o legado vivo de um dos maiores pensadores quilombolas do Brasil
Intelectual, mestre da palavra e defensor incansável dos territórios, seguem guiando as lutas e processos decoloniais.
Hoje, completam-se dois anos da morte de Antônio Bispo dos Santos, mais conhecido como Nêgo Bispo, escritor, pensador, mestre griô, agricultor e uma das vozes mais potentes do movimento quilombola brasileiro. Sua partida em 2023 deixou um vazio irreparável, mas sua obra e sua caminhada continuam iluminando caminhos para quem luta por território, justiça racial e modos de vida enraizados na ancestralidade.
Da roça à teoria: a construção de uma voz quilombola e decolonial
Nascido no quilombo Saco-Curtume, no Piauí, Nêgo Bispo transformou sua vivência na terra e sua relação íntima com os saberes ancestrais em pensamento crítico e insurgente. Foi um dos poucos intelectuais brasileiros que produziram teoria a partir dos territórios, não sobre eles. Seu livro mais conhecido, Colonização, Quilombos: modos e significados, tornou-se referência nos estudos decoloniais, disputando espaço com teorias importadas e frequentemente distantes da realidade dos povos tradicionais.
O pensador defendia a importância de pensar com os pés na terra. Rejeitava a lógica da “dominação pela escrita” e valorizava os saberes orais, as memórias comunitárias, a circularidade do tempo e o compromisso com o bem viver.
“A gente não quer incluir o quilombo na sociedade; a gente quer incluir a sociedade no quilombo”, afirmava, desafiando a lógica hegemônica que tenta encaixar os povos tradicionais em moldes coloniais já desgastados.
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Uma liderança do movimento e para o movimento
Figura central na luta quilombola, Nêgo Bispo foi uma das vozes mais importantes na articulação de debates nacionais e internacionais sobre território, educação, soberania alimentar e autodefinição dos povos quilombolas. Sua capacidade de traduzir vivências coletivas em linguagem acessível, poética e, ao mesmo tempo, profundamente política fez dele uma referência para toda uma geração de lideranças negras.
Nas mesas de debate, era ouvido com respeito. Nas comunidades, era recebido com carinho. Nos livros e entrevistas, era reconhecido como pensador. Em todos esses espaços, porém, era, antes de tudo, um quilombola comprometido com o seu povo.
“Nego Bispo segue vivo no vento que espalha suas palavras germinantes. Lavrador da terra e da memória, ele nos ensinou a ginga que rompe a linearidade, a força do ajuntamento, a coragem de “gorar os ovos do sistema” e cultivar saberes que não cabem em cercas. Seu legado é roça contínua: sementes que atravessam gerações, confluências que se espraiam, caminhos que começam, recomeçam e nunca se acabam. Vivas, vivas, Nego Bispo. “Começo, Meio e Começo”, trecho da síntese do “Sementes da roça de quilombo” escrita por Karina Pretita e Mona Lima, filha e neta do filósofo, respectivamente.
A radicalidade do cuidado e da liberdade
Entre suas contribuições mais marcantes, está a defesa de que quilombo não é apenas território físico, mas uma forma de existir no mundo. Para ele, quilombo é filosofia, é prática de liberdade em movimento, é organização social que enfrenta o racismo sem reproduzir lógicas de opressão. É invenção coletiva e insurgência cotidiana.
Sua produção teórica contestou frontalmente os paradigmas colonizadores, propondo a “contracolonização” como perspectiva política, não como vingança ou inversão, mas como criação de alternativas para um mundo que respeite a vida, a diversidade e o equilíbrio ecológico.
Essa visão fez dele um pensador essencial para compreender os desafios contemporâneos: a crise climática, a criminalização das lutas territoriais, o avanço do agronegócio e a perpetuação das desigualdades sociais.
Uma trajetória que move gerações
Após dois anos após sua morte seu legado se expressa na força das lideranças quilombolas que seguem ocupando espaços de decisão, na produção acadêmica que, cada vez mais, se inspira em seus ensinamentos, e na continuidade das lutas por titulação, autonomia e respeito aos territórios.
Sua obra segue sendo estudada em universidades, citada em conferências internacionais e, sobretudo, vivida nas práticas comunitárias. Jovens quilombolas encontram em seus textos e falas uma bússola para compreender o mundo; educadores populares utilizam seus ensinamentos para formar novas gerações; movimentos sociais se apoiam em suas palavras para construir estratégias de resistência.
Nêgo Bispo transformou o modo como o Brasil pensa quilombo, comunidade, cultura e política. Fez da oralidade uma metodologia, do território uma escola, e da ancestralidade um horizonte de futuro. Hoje, permanece o sentimento de saudade, mas também de continuidade. Porque, como dizem seus próprios ensinamentos, quem planta no quilombo não planta só para agora, planta para as próximas gerações.
Texto por Thaís Rodrigues CONAQ/Uma Gota no Oceano, publicado às 10:55:04
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