12 de outubro de 2025
Dia das Crianças: Princesas e príncipes que nascem do quilombo
A escrita de Bárbara Ramos enfatiza a realeza quilombola enraizada em ancestralidade, coletividade e esperança
No litoral da Bahia, em Taperoá, onde o mar encontra a tradição e a vida pulsa no compasso das redes de pesca, está o Quilombo Pesqueiro Graciosa. Foi nesse território, marcado pela coletividade e pela resistência, que nasceu e cresceu Bárbara Ramos, mulher preta, quilombola, pedagoga, palestrante e escritora. Sua trajetória é um testemunho vivo de como a infância no quilombo, com suas memórias de solidariedade e ancestralidade, pode se transformar em literatura capaz de libertar, inspirar e ressignificar a vida de milhares de crianças.
Autora dos livros A Princesa Arany e O Príncipe Akili e os Mistérios da Terra, Bárbara dá vida a personagens que rompem com os estereótipos e recolocam a criança negra, quilombola ou não, no centro de narrativas de beleza, orgulho e dignidade. Em cada página, ela reafirma o que aprendeu desde cedo: que a verdadeira grandeza está nos saberes transmitidos pelos mais velhos, na partilha comunitária e no reconhecimento da potência de ser quem se é.
Infância no quilombo: raízes de uma escritora
Marcada por brincadeiras simples, cheias de inventividade e alegria sua infância foi rica, mas foi também atravessada por silêncios. Aquilo que ela não ouvia, histórias de valorização da sua identidade, do seu povo e do seu território, tornou-se, anos depois, combustível para sua escrita.
“Tudo que eu não ouvia e gostaria de ter ouvido das pessoas, eu coloco hoje nos livros para as crianças de hoje. Elas precisam se sentir valorizadas”, conta.
Entre as memórias mais fortes, está a figura do pai, pescador que, mesmo diante da escassez, nunca deixou de dividir o fruto do trabalho com os vizinhos. “Ver meu pai chegar da pesca, depois de uma boa pescaria, e sair dividindo o pescado com os vizinhos foi a maior lição. Todos têm o que partilhar nessa vida, e isso não é só sobre o palpável não.” Essa lição de generosidade atravessa sua literatura, na qual personagens vivem a coletividade como uma forma de riqueza.
O despertar para a literatura quilombola
A virada na trajetória aconteceu quando ela passou a integrar o projeto Fortalecendo a Cultura e Educação através dos Saberes Ancestrais, que incluía uma frente de literatura preta. Ali, percebeu o quanto era urgente para as crianças negras e quilombolas se enxergarem como protagonistas.
Na escola, suas vivências e saberes, a pesca artesanal, a agricultura, os remédios produzidos pelas mãos das mulheres, nunca foram valorizados. “A escola nunca foi um lugar que fizesse questão de levar para o centro das aulas a nossa pesca artesanal, a agricultura e nem nossos remédios produzidos por nós. A ideia era trazer nossas crianças como príncipes e princesas, que podem ser o que quiser e que tudo que temos e somos a partir do nosso quilombo pesqueiro só nos enriquece e é motivo de muito orgulho.”
Dessa percepção nasceu o impulso de transformar o cotidiano quilombola em contos infantis. Assim surgiram Arany e Akili, personagens que carregam a oralidade, o conhecimento dos mais velhos e a sabedoria da terra e do mar.
Arany e Akili: a realeza do quilombo
Em A Princesa Arany, Bárbara dá voz a quem muitas vezes foi silenciado: pessoas que não aprenderam a ler e escrever formalmente, mas que guardam um profundo conhecimento transmitido pela oralidade. “É importante reconhecer que pessoas sem leitura de livros sabem fazer grandes leituras de mundo também”, explica.
No livro, o pai ensina à filha as fases da lua, revelando como os saberes tradicionais dialogam com a vida cotidiana e a natureza. É uma narrativa que valoriza a ancestralidade, mas também afirma a dignidade de uma realeza diferente: uma princesa que nasce do quilombo, da resistência e da tradição.
Já em O Príncipe Akili e os Mistérios da Terra, a história se constrói na relação de aprendizado entre pais e filhos. Ao mesmo tempo em que descobre o mundo por meio das brincadeiras, Akili é iniciado nos conhecimentos da terra, das plantas e das ervas medicinais. A oralidade aparece como fio condutor, reafirmando que os mais velhos são guardiões de uma sabedoria vital.
Literatura quilombola como ferramenta de libertação
Para Bárbara, seus livros têm um propósito maior do que entreter. Eles são instrumentos de libertação, capazes de enfrentar os “monstros” do racismo e de ensinar crianças a se amarem e se reconhecerem como potentes.
“O meu maior desejo é que as crianças e jovens quilombolas ou não se libertem dos piores monstros causados pelo racismo. Que percebam sua beleza, que se amem e se aceitem, que sejam acolhidas toda vez que precisar. Que cada criança sonhe e acredite em sua potência, porque é possível o que é bom para todos nós.”
Essa missão é também uma forma de combate ao racismo estrutural que insiste em negar beleza, inteligência e poder à população negra. “Imagine uma menina que sempre ouviu que seu cabelo é ruim, e por anos só ouviu as piores coisas, e agora pode se ver na história não como escrava, mas como princesa. Isso é magnífico, é um tapa no racismo que mutila nossa juventude.”
Desafios de escrever e publicar a partir do quilombo
O caminho da escrita quilombola, no entanto, não é simples. Bárbara enfrenta o alto custo de publicação e a dificuldade de chegar a espaços importantes de divulgação. “O maior desafio é não saber da importância dessa literatura e, mesmo assim, ser tão caro para publicar. Mas acredito que vamos chegar.”
Ainda assim, ela não recua. Sua determinação é movida pelo desejo de garantir que as novas gerações possam acessar livros que as reconheçam como protagonistas de histórias de beleza, força e orgulho.
Realezas do território
A afirmação de que príncipes e princesas também podem nascer do quilombo é central na obra de Bárbara. Para ela, viver da pesca artesanal, da agricultura e das tradições comunitárias é prova de potência. “É importante que quem nasce em quilombo se veja como pessoa importante, com grande potência para ser o que quiser, partindo de todo esse caminho feito pela ancestralidade.”
Nesse sentido, a realeza que ela descreve não é marcada por castelos ou coroas de ouro, mas pela dignidade de uma vida enraizada na coletividade, na sabedoria ancestral e na relação saudável com a terra e o mar.
Futuros caminhos
Os sonhos de Bárbara continuam alinhados ao seu ponto de partida: contribuir para que crianças quilombolas e não quilombolas possam se libertar e se amar. “Quero que as crianças que acessem meus livros sintam como é libertador se amar e claro que sejam amadas e protegidas por aqueles que têm a obrigação de protegê-las.”
Novos projetos literários e educativos já estão em andamento, sempre atravessados por seu compromisso com a cultura e a educação. Para ela, escrever é um ato de resistência, mas também de amor, uma forma de garantir que sua voz ecoe para além do seu território e alcance o coração de quem lê.
Seu legado
A trajetória da escritora é potente, enraizada na ancestralidade e mostra que do quilombo nascem reis e rainhas que carregam consigo não apenas a força, mas também a esperança de um futuro diferente para as novas gerações, mas sem esquecer dos ensinamentos passados de geração em geração.
Suas obras, ao mesmo tempo delicadas, devolvem às crianças negras o direito de se reconhecerem como protagonistas de narrativas de beleza, dignidade e orgulho. E ao fazer isso, oferecem também às demais crianças uma oportunidade de olhar para o quilombo e enxergar nele não um espaço marginalizado, mas um território de realeza, resistência e saber.
A menina que cresceu brincando no Quilombo Pesqueiro Graciosa hoje é a mulher que escreve para que outras meninas e meninos possam sonhar. E ao transformar Arany e Akili em símbolos de liberdade, Bárbara reafirma que o quilombo não é apenas passado de resistência: é presente de potência e futuro de esperança.
Texto por Thaís Rodrigues CONAQ/Uma Gota No Oceano, publicado às 16:10:18
Categoria: Educação Quilombola