5 de setembro de 2025
Dia da Amazônia: entenda o papel dos territórios quilombolas no equilíbrio e preservação do bioma
Práticas sustentáveis e resistência histórica, que proteger a floresta é garantir futuro e justiça climática.
Hoje, 5 de setembro, é celebrado o Dia da Amazônia e esta data costuma ser lembrada com imagens da imensidão verde da floresta, de sua biodiversidade única e da importância desse bioma para o clima global. Entretanto, pouco se fala sobre quem, de fato, garante a permanência dessa riqueza natural diante da pressão do agronegócio, do garimpo, da grilagem e de tantos outros interesses predatórios.
Entre esses protagonistas estão os quilombolas, guardiões de saberes ancestrais e de práticas sustentáveis que contribuem de forma decisiva para o equilíbrio e preservação dessa mata tropical.
De acordo com Sebastião Douglas, coordenador nacional da CONAQ: “Os quilombolas desempenham um papel fundamental na proteção da Amazônia, atuando como verdadeiras guardiãs desse bioma essencial para o equilíbrio ambiental do planeta. Com saberes ancestrais transmitidos ao longo de gerações, esses grupos praticam um manejo sustentável dos recursos naturais, harmonizando a preservação da floresta com sua subsistência e cultura.”
O debate sobre o futuro da floresta não pode ignorar que ela é território vivo, habitado por diferentes povos que mantêm relações profundas com a terra, a água e os seres que nela habitam. No caso dos quilombolas, essa relação é marcada por uma história de resistência: desde o período colonial, territórios formados por pessoas fugitivas da escravidão se estabeleceram em áreas remotas da Amazônia e ali construíram modos de vida próprios, baseados na coletividade, na agricultura familiar, no extrativismo e na preservação da floresta. Essa herança se mantém até hoje.
O elo entre quilombos e floresta
Estudos recentes mostram que áreas sob gestão de povos tradicionais apresentam índices de conservação muito superiores aos de propriedades privadas ou de unidades de uso intensivo. De acordo com estudo do MapBiomas (2023), entre 1985 e 2022 os territórios quilombolas perderam apenas 4,7% de sua cobertura vegetal nativa, enquanto as áreas privadas no mesmo período registraram uma devastação de 25%. A diferença é ainda mais expressiva quando se observa que os territórios já titulados perderam apenas 3,2%, contra 5,5% dos que ainda aguardam seus documentos definitivos.
Em outras palavras, a titulação é mais que um direito, trata-se de uma ferramenta concreta de preservação. Para Sebastião Douglas, todos vivem nessa sinergia, protegendo a biodiversidade, conservando nascentes e rios, e armazenam milhões de toneladas de carbono, contribuindo diretamente para a mitigação das mudanças climáticas.”
Assim como os demais quilombos, aqueles situados na Amazônia possuem uma agricultura consorciada, com técnicas de roçado que respeitam os ciclos da floresta e garantem a regeneração do solo. O extrativismo de frutos, sementes, óleos e resinas não apenas gera renda para as famílias, como também fortalece a cadeia da sociobiodiversidade, conectando comunidades com mercados locais e até internacionais sem romper com a lógica da conservação.
Esse modo de vida está em sintonia com o que a ciência chama de “soluções baseadas na natureza”, cada vez mais defendidas como alternativas reais para enfrentar as mudanças climáticas. Não à toa, um estudo da Conservation International mostrou que terras quilombolas têm taxas de desmatamento entre 29% e 55% menores do que áreas vizinhas sem titulação formal.
Ameaças que colocam o equilíbrio em risco
Apesar desse papel estratégico, os territórios quilombolas estão entre os mais ameaçados na região. O processo de titulação avança de forma lenta e burocrática, deixando muitas comunidades em situação de vulnerabilidade frente a invasões, grilagem e violência.
Como lembra a liderança manauara, “a luta pela regularização de seus territórios é, portanto, uma luta pela Amazônia. Garantir seus direitos fundiários e apoiar suas práticas tradicionais significa investir em um modelo de conservação que já se mostrou eficaz.”
A ausência de reconhecimento formal fragiliza a proteção da floresta, pois quem não têm assegurado o direito ao território ficam expostos a constantes conflitos com interesses econômicos que visam à exploração intensiva da terra. Além disso, o racismo ambiental se manifesta de maneira contundente contra os quilombolas. Projetos de infraestrutura, hidrelétricas, estradas e monocultivos frequentemente avançam sobre áreas ocupadas por comunidades negras sem respeitar o direito à consulta prévia, livre e informada.
O garimpo ilegal é outro fator de ameaça que se expande em diversas regiões amazônicas. A contaminação por mercúrio, os conflitos armados e a destruição de rios afetam diretamente a vida de comunidades quilombolas ribeirinhas. O avanço do desmatamento e das queimadas, impulsionado pela expansão do agronegócio, completa esse cenário de risco, colocando em xeque não apenas o futuro da floresta, mas também a reprodução cultural e material dessas comunidades.
Atores centrais da política ambiental
Reconhecer o papel dos quilombolas não significa apenas garantir-lhes direitos territoriais, mas também incluí-los como sujeitos políticos nos espaços de decisão. Hoje, debates sobre clima e meio ambiente ainda marginalizam a voz das comunidades negras rurais, apesar da contribuição inegável que oferecem à preservação da Amazônia.
É fundamental que as políticas públicas de combate ao desmatamento, incentivo à economia sustentável e enfrentamento às mudanças climáticas contemplem de forma central os territórios quilombolas. Por fim, para Douglas, “em um contexto de avanço da degradação ambiental, os quilombos emergem como exemplo de resistência e sustentabilidade, mostrando que é possível viver em harmonia com a natureza sem destruí-la. Proteger a Amazônia é também reconhecer e valorizar quem historicamente quem as protege.”
Pesquisas já comprovam que mais de 57% dos territórios quilombolas estão entre os 5% mais biodiversos do planeta, abrigando também estoques significativos de carbono irrecuperável, aquele que, uma vez liberado, não se recompõe em menos de três décadas. Ignorar a centralidade desses territórios nas metas ambientais do Brasil é, portanto, sabotar qualquer esforço sério de preservação e mitigação climática.
Memória, cultura e futuro
Outro aspecto essencial é compreender que os quilombos não são apenas espaços físicos, mas também lugares de memória e cultura. A relação espiritual com a terra, os saberes transmitidos de geração em geração, os festejos, as danças, as músicas e as narrativas são parte do que mantém viva a floresta.
Quando um território quilombola é destruído, não se perde apenas vegetação: perde-se também um patrimônio imaterial, um modo de existir no mundo que resiste à lógica da destruição. Por isso, o Dia da Amazônia deve ser também um momento de visibilizar essa dimensão cultural e histórica. Defender a floresta é defender os quilombos.
O chamado do tempo presente
Vivemos um momento decisivo. Cientistas alertam que a Amazônia se aproxima de um ponto de não retorno, quando a destruição ultrapassaria a capacidade de regeneração do bioma, levando-o a se transformar em uma savana degradada.
Diante disso, é urgente fortalecer quem já provou ser capaz de proteger a floresta. Quilombolas, indígenas e outros povos tradicionais não são apenas parte da solução: são a linha de frente contra a devastação.
Tendo tudo isso em mente, é preciso ter consciência de que esta data não pode ser apenas algo simbólico, mas um chamado à ação. A Amazônia não é apenas um bioma: é um território de vida, diversidade e memória. E os quilombolas são pilares fundamentais de sua preservação. Neste dia, cabe a todos nós reconhecer e apoiar essa luta, porque defender os quilombos é, em última instância, defender a própria floresta.
Texto por Thaís Rodrigues CONAQ/Uma Gota no Oceano, publicado às 11:44:51
Categoria: Territórios Quilombolas