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19 de dezembro de 2025

Daniel de Souza leva saberes à Itália e reafirma a ancestralidade quilombola como patrimônio vivo do mundo

Cofundador da CONAQ e premiado com o Chico Mendes de Resistência 2025 representou o movimento em agenda internacional

No início de dezembro, o conhecimento dos territórios ultrapassou as fronteiras e ganhou dimensão internacional. Isso porque o paraense Daniel de Souza levou a sabedoria quilombola à Itália, onde participou de uma agenda internacional dedicada aos museus vivos e à história dos povos afrodescendentes da América Latina que resistiram à escravidão.

A liderança esteve em Bolonha, por um período de dez dias, representou mais do que um intercâmbio cultural. A participação simbolizou o reconhecimento dos quilombos como territórios de memória, resistência e produção de conhecimento ancestral. “A gente foi para uma agenda na Itália para fazer uma apresentação em um museu, passando dez dias falando do passado da resistência negra em vários países, inclusive no nosso, aqui no Brasil, e no nosso estado, que é o Pará”, relatou.

A programação teve como eixo central a compreensão dos quilombos como museus vivos, espaços onde a memória não está confinada a acervos formais, mas se manifesta no cotidiano, nos rituais, nos objetos, na alimentação, na relação com a terra e na organização comunitária. “Essa foi uma agenda muito importante para nós, porque só agora o mundo começa a ouvir mais sobre a resistência negra. Falamos da ancestralidade, da resistência negra na Amazônia e do quanto tudo isso foi essencial para que a gente estivesse ali hoje”, explicou.

 

Quilombo como museu vivo

Crédito: Acervo pessoal

 

Durante a viagem, o quilombola levou objetos simbólicos que expressam o modo de vida dos territórios quilombolas, como o remo, utilizado nas travessias pelos rios amazônicos, e o abano, essencial no preparo dos alimentos, além de elementos dos rituais, das danças e das vestimentas tradicionais. “Levamos tudo isso para que eles pudessem entender quem nós somos, de onde viemos e como resistimos”, afirmou.

A comitiva brasileira contou ainda com representantes do Maranhão, do Pará e de outros estados, reforçando o caráter coletivo da experiência e a construção de parcerias internacionais. “Edinaldo, do Maranhão, e outras pessoas também estiveram conosco, fortalecendo essa troca e esse contato com o mundo”, completou.

Ao longo da agenda internacional ele fez questão de reafirmar a centralidade da CONAQ na história do movimento quilombola brasileiro. “A gente foi para o mundo sem perder de vista a nossa CONAQ, porque ela é muito importante para nós. Ela foi a fundadora de tudo isso. Enquanto em outros países não existia um movimento quilombola organizado, a CONAQ já existia”, destacou.

Reconhecimento que nasce da luta coletiva

Crédito: Reprodução Chico Mendes Comitê

 

Pouco tempo depois da experiência internacional, a trajetória de Daniel de Souza receberá mais um reconhecimento. Isso porque na edição de 2025 do Prêmio Chico Mendes de Resistência, ele foi anunciado como vencedor na categoria Personalidade, honraria concedida a pessoas, coletivos e organizações que mantêm viva a luta iniciada por Chico Mendes.

Criado para celebrar quem segue enfrentando violências, ameaças e retrocessos, o prêmio reconheceu em Daniel um exemplo vivo da continuidade da luta por justiça socioambiental. “Celebrar esses nomes é lembrar ao país que o legado de Chico só existe porque ainda tem gente fazendo dele um compromisso ético e político”, destacou o texto de apresentação da premiação.

Nascido no Quilombo de Jauari, no Pará, Daniel é articulador da MALUNGU e um dos pilares da construção da CONAQ. Guardião das memórias dos mocambos amazônicos, atua como um verdadeiro Griô, transmitindo saberes ancestrais e fortalecendo a identidade do povo quilombola. Sua atuação é marcada pela defesa do território, da soberania alimentar, da agricultura familiar e por iniciativas transformadoras como o Quilombo Quebrada e o Catra Povos.

O reconhecimento no Prêmio Chico Mendes também dialogou com sua atuação cultural, como quando levou a ancestralidade do povo preto rural ao Festival de Parintins, ao lado do Boi Garantido, evidenciando que a cultura quilombola também ocupa os grandes palcos da cultura popular brasileira.

Da Amazônia ao mundo

Sua ida à Itália reafirmou que os quilombos fazem parte da história global da resistência negra. Ao levar seus saberes para fora do país, Daniel não apenas compartilhou memórias, mas construiu pontes entre povos, territórios e lutas. “Falamos da busca da ancestralidade do nosso povo, que fugiu da escravidão, dos que resistiram nas grandes fazendas, e mostramos que essa história continua viva”, pontuou.

Entre Xapuri, durante a Semana Chico Mendes, e Bolonha, na Itália, o quilombola seguiu cumprindo o papel que marca toda a sua trajetória: transformar memória em ação política, ancestralidade em futuro e o quilombo em patrimônio vivo da humanidade.