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24 de julho de 2025

Conceição das Crioulas realiza 4º Encontro com as Artes, as Lutas, os Saberes e os Sabores em Salgueiro (PE)

O evento que acontece a cada dois anos celebrou a cultura quilombola e os 25 anos da AQCC

Entre os dias 13 e 17 de julho de 2025, a comunidade quilombola de Conceição das Crioulas, localizada em Salgueiro (PE), foi palco da 4ª edição do Encontro com as Artes, as Lutas, os Saberes e os Sabores. O evento bienal, que reúne saberes ancestrais, expressões artísticas e debates políticos, teve um significado especial neste ano ao comemorar os 25 anos da Associação Quilombola de Conceição das Crioulas (AQCC).

Símbolo nacional da luta pela educação quilombola, Conceição das Crioulas é uma referência quando se fala em educação antirracista e comprometida com o território. A comunidade é uma das poucas no Brasil a garantir ensino formal, da creche ao ensino médio, com um currículo que valoriza sua história, cultura e resistência.

Educação desde a infância com identidade e pertencimento

Crédito:Comunicação/ AQCC

 

 

Ao longo dos cinco dias de programação, a educação quilombola foi protagonista. Oficinas pedagógicas envolveram crianças, jovens, educadores, visitantes e parceiros em uma verdadeira imersão nos saberes tradicionais. As atividades ocorreram em todas as instituições de ensino da comunidade:

  • Creche Municipal Quilombola Maria Auxiliadora de Jesus;
  • Escola Municipal Quilombola Bevenuto Simão de Oliveira;
  • Escola Municipal Quilombola José Néu de Carvalho;
  • Escola Municipal Quilombola Professor José Mendes;
  • Escola Estadual Quilombola Professora Rosa Doralina Mendes.

Essas escolas formam um modelo educacional único, onde a ancestralidade e o conhecimento tradicional são tão importantes quanto as disciplinas do currículo formal. É uma educação que ensina a pertencer, a resistir e a transformar.

Arte, cultura e resistência em cada detalhe

Valdeci Maria da Silva. Crédito: Thaís Rodrigues/Comunicação CONAQ

 

A programação cultural foi intensa e diversificada. Caminhadas pelo território permitiram que visitantes conhecessem as histórias e as memórias vivas da comunidade. Oficinas de barro e de plantas medicinais resgataram saberes tradicionais que atravessam gerações.

As noites culturais encantaram com danças como a mazurca do Quilombo Santana, o trancelim, além de apresentações poéticas e shows de grupos convidados. O ponto alto foi a festa dos 25 anos da AQCC, com performances vibrantes do Grupo Zumbi, de Mirandiba, e do artista Fabinho, do Quilombo Jatobá.

Paralelamente, a feira de artesanato transformou-se em um espaço de valorização da economia quilombola, reunindo artesãs e artesãos da própria comunidade e de quilombos vizinhos. Hilda Maria da Silva, do Quilombo Cruz do Riacho (Cabrobó-PE), destacou: “Eu achei maravilhoso o evento. Sempre participo desses espaços para divulgar meu trabalho e fortalecer nossa cultura”.

Outro momento marcante foi o lançamento da campanha “CRIOULAS: Orgulho de Ser Quilombola”, que destacou o protagonismo das mulheres e jovens da comunidade. O desfile de moda com trajes produzidos localmente foi emocionante, repleto de afirmações de identidade.

A jovem Yasmin Tayane, ao ser questionada sobre o significado de ter orgulho de ser quilombola, emocionou com suas sabedoria:

“Eu sou as vozes daquelas que não puderam falar, que foram silenciadas. Para onde eu for, sempre direi: sou uma menina negra, quilombola, de Conceição das Crioulas. O orgulho de ser quilombola é persistir e resistir”.

Diálogos e alianças por um futuro sustentável

Crédito: Thaís Rodrigues/Comunicação CONAQ

 

O encontro foi também um espaço de construção política. A roda de conversa “Aquilombando e consolidando alianças” reuniu organizações parceiras, universidades e lideranças para debater estratégias de fortalecimento das ações do território.

Outro momento importante foi o debate sobre a Política Nacional de Educação Escolar Quilombola (PNEERQ), onde as demandas das comunidades foram discutidas com representantes da academia e de movimentos sociais. A presença de delegações de quilombos de várias regiões, além de instituições nacionais e internacionais, reafirmou Conceição das Crioulas como um centro de referência na luta quilombola brasileira.

Givânia Silva, cofundadora da CONAQ, Conselheira do Conselho Nacional de Educação e uma das lideranças históricas da comunidade, ressaltou:

“Um encontro desse tamanho não se faz só. A comunidade é a primeira responsável, mas sabemos que, para transformar, precisamos de alianças. Se queremos mudar a educação nesse país, as organizações precisam fortalecer as ações dos territórios”.

 

Vozes que construíram o Encontro

Crédito: Thaís Rodrigues/Comunicação CONAQ

 

A grandiosidade do evento se refletiu nos relatos das lideranças locais que dedicaram tempo e energia para sua realização:

Ana Claudia: “Foi desafiador e ao mesmo tempo muito rico. Saio energizada com todas as trocas”.

Marcia do Nascimento: “O evento é um mundo de partilhas e de compartilhamento, que traduz o que é a educação quilombola de Conceição das Crioulas”.

Hiêgo Moisés: “Participar é um privilégio, pois sabemos que estamos colaborando com algo que gera fortalecimento e visibilidade”.

Rozeane Mendes: “Trabalhamos com cerca de 500 pessoas por cinco dias. Foi um desafio, mas um sucesso”.

Fábia Olliver: “É trabalhoso, mas gratificante. Fortalecemos nossa identidade e reunimos universidades e quilombos para vivenciar tudo isso conosco”.

Lorenna Bezerra: “Nosso desafio na comunicação foi transmitir sensibilidade, ancestralidade e diversidade para quem está de fora, sem perder nossa essência”.

Uma construção coletiva

Crédito: Comunicação AQCC

 

 

O Encontro foi possível graças ao envolvimento da comunidade local e de organizações como a CONAQ (Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas), além do Coletivo de Comunicação da CONAQ. Entre os parceiros institucionais destacaram-se UFPB, Unilab, UFPE, UP Faculdade de Belas Artes de Porto, IF Sertão PE, UFC e UNICAP, que colaboraram com oficinas, debates e apoio técnico.

A AQCC (Associação Quilombola de Conceição das Crioulas), mais uma vez, mostrou sua força e capacidade de articulação. O evento reafirmou que Conceição das Crioulas não apenas preserva seu passado de lutas, mas também inventa um futuro de dignidade, educação libertadora e resistência cultural.

O 4º Encontro foi mais do que um evento: foi um ato de afirmação. A cada oficina, a cada dança, a cada palavra, a comunidade mostrou que está viva, forte e decidida a construir um futuro onde a escola é um quilombo e o quilombo é uma escola. Um espaço de luta, de criação e de esperança. Que venha o 5º Encontro, que sem dúvida será ainda mais potente!