28 de julho de 2025
CONAQ realiza 5ª Conferência Livre e Temática para Mulheres Quilombolas em Salvador, Bahia
Lideranças definiram propostas estratégicas em defesa de direitos, territórios e ancestralidade coletiva
No último domingo 27 de julho a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ) realizou, em Salvador (BA), a 5ª Conferência Livre e Temática para Mulheres Quilombolas, um importante espaço de articulação, formação política e construção coletiva das pautas das mulheres negras quilombolas do Brasil. O evento reuniu lideranças de diversas regiões do país para debater as urgências dos territórios e definir propostas que serão levadas à Plenária Nacional da Conferência de Políticas para Mulheres.
O período matutino foi marcado por um momento de apresentação, onde cada mulher compartilhou a localização de seus quilombos, trazendo à tona a diversidade e a força dos territórios presentes.
Selma Dealdina Mbaye, coordenadora do Coletivo de Mulheres abriu os trabalhos explicando a metodologia da conferência: “Vamos aprovar quatro propostas que representam nossas prioridades. Após a leitura final, vamos definir as delegadas titulares e suplentes das regiões Norte e Nordeste, que representarão as quilombolas na conferência nacional. Precisamos ser concisas, mas garantir que todas as vozes e ideias estejam contempladas.”
Um movimento que se renova com a força das mulheres

Crédito: Vadok
Na mesa de abertura, Maria Rosalina, coordenadora executiva destacou a estrutura organizativa da CONAQ, explicando que o movimento é composto por 52 representantes titulares e 52 suplentes de diferentes estados, além de uma Executiva formada por 13 integrantes responsáveis por executar as deliberações coletivas. “A CONAQ é um grande colegiado em movimento. Cada estado escolhe seus representantes com autonomia, formando essa rede forte e plural que nos aproxima de nossas bases”, afirmou.
A vereadora Jailde Lima (PSD-BA) emocionou-se ao relatar os desafios de ocupar espaços de poder político como mulher preta e quilombola. Ela reforçou a importância de que mais mulheres negras estejam nos parlamentos em 2026, defendendo um orçamento específico para o povo preto: “Nossa presença nos espaços de decisão não é favor, é direito. Precisamos garantir que as pautas quilombolas tenham recursos, estrutura e reconhecimento do Estado.”
Edna Paixão relembrou que o Coletivo de Mulheres foi o primeiro coletivo criado na CONAQ, ressaltando seu papel histórico na mobilização das mulheres quilombolas. Cida Sousa, conselheira nacional, chamou atenção para a baixa representatividade quilombola nos espaços de decisão: “Precisamos sair daqui com delegadas preparadas e garantir que nossas pautas estejam na Plenária Nacional. A luta por representatividade é contínua.”
Representando o Ministério da Igualdade Racial (MIR), Rafa Quilombola fez um relato emocionado sobre sua trajetória e destacou a importância de estar num espaço onde suas ações impactam diretamente as comunidades. Em nome do MIR, agradeceu à CONAQ e à ministra Anielle Franco pela parceria e compromisso com os povos quilombolas.
Sandra Braga, conselheira nacional de políticas para as mulheres, foi firme ao denunciar o apagamento das pautas quilombolas nas instâncias de poder: “Quantas vezes precisamos reafirmar nossa existência, exigir que a palavra ‘quilombo’ seja reconhecida? Ninguém pode falar por nós. Somos nós que devemos ocupar esses espaços com nossas próprias vozes.”

Crédito: Vadok
Grupos temáticos e construção das propostas

Crédito: Vadok
As participantes se dividiram em seis grupos temáticos para a construção das propostas:
- Autonomia e Liderança das Mulheres Quilombolas – Micele e Antônia
- Território, Ancestralidade e Sustentabilidade – Maria Amélia e Modesta
- Saúde Integral da Mulher Quilombola – Edna e Andreia
- Educação Quilombola e Combate ao Racismo – Jane Krull e Tarciara
- Enfrentamento das Violências Contra as Mulheres Quilombolas – Maryellen, Patrícia Brito e Jailde
- Democracia, Direitos e Representatividade – Rosinha, Cristina e Rita
Cada grupo foi desafiado a formular uma proposta principal. Ao final, após intenso debate e escuta coletiva, as mulheres definiram as quatro propostas prioritárias que serão levadas para a Plenária Nacional:
Propostas aprovadas:
1º Criação da Lei “Mãe Bernadete”
Enfrentamento das violências contra as mulheres quilombolas e que o Estado garanta reparação justa e acolhimento adequado às lideranças, defensoras e seus familiares respeitando sua realidade territorial e assegurando proteção efetiva.
2ª Saúde integral da mulher quilombola
Reconhecimento e valorização pelo Ministério da Saúde para as parteiras, benzedeiras quilombolas como profissionais registradas; projetos específicos dentro dos quilombos para garantir que os saberes não se percam e garantir que o quilombo seja assistido integralmente físico, espiritual e mentalmente e que o Terreiro seja um lugar de cuidado. Formação de agentes populares quilombolas de saúde e garantir recursos financeiros para que os jovens quilombolas tenham interesse em seguir essas profissões.
3ª Educação quilombola e combate ao racismo
Efetivação do currículo escolar quilombola nas redes de ensino Federais, Estaduais, Municipais na valorização territorial com ênfase ao combate no Racismo Ambiental e a inserção das diretrizes curriculares municipais com a inclusão da história afro-brasileira e saberes quilombolas, com garantia de educadores e educadoras populares quilombolas na educação escolar quilombola, de acordo com a Lei 10.639/2003 e 11645/2008.
Valorizar mestres dos saberes quilombolas como educadores e educadoras populares dentro das escolas quilombolas. Assegurar estrutura e condições para a permanência estudantil nos territórios quilombolas em todos os níveis de ensino.
Garantir um percentual de vaga específico para educadoras(res) quilombolas para atuarem nas redes de ensino federal, estadual e municipal que estejam presentes em territórios quilombolas.
4ª Território, ancestralidade e sustentabilidade
Criar um fundo nacional específico para delimitação de demarcação e titulação dos territórios quilombolas, com previsão orçamentária com o Plano Plurianual e garantir segurança e a valorização da ancestralidade e saberes.
Estabelecendo parceria entre o Governo Federal e a CONAQ para garantir recursos e apoio aos quilombos, com foco na atuação de base e participação do movimento nos espaços de decisão.
Representantes eleitas
Após a definição das propostas, as delegações das regiões Norte e Nordeste elegeram suas representantes para a Plenária Nacional:
- Norte: Titular – Edineia Monteiro | Suplente – Natália Mikelli
- Nordeste: Titular – Edna Paixão | Suplente – Jailde Lima
O encerramento da conferência foi marcado pela apresentação das propostas em plenária, reafirmando o compromisso das mulheres quilombolas em seguir na luta coletiva por direitos, reconhecimento e respeito aos seus territórios e saberes.
Texto por Thaís Rodrigues CONAQ/Uma Gota No Oceano, publicado às 09:56:41
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