29 de julho de 2025
CONAQ promove a 1° oficina regional norte e nordeste do projeto Cafuné e questiona o Estado: quem protege as mulheres quilombolas?
Com apoio da Aecid - Cooperação Espanhola, na oficina de autocuidado e proteção emergencial, lideranças denunciam abandono do Estado e reafirmam a força ancestral como escudo diante das violências.
Nesta segunda-feira (28), a etapa Norte e Nordeste do projeto Cafuné começou com um gesto simbólico, mas profundamente político: um acolhimento no mar. Apoiadas por Fundo CASA, Fundo Baobá, Fundo ELAS, AECID, Ibirapitanga, Bem-Te-Vi e Thousand Currents as integrantes participaram não só de uma mística, mas um ritual de ancestralidade, de reencontro com as águas que carregam memórias e dores das mulheres quilombolas deste país. Aquelas que ali estavam sabiam: sem autocuidado, não há luta possível. Mas sabiam, também, que a luta pela vida não pode ser um fardo carregado apenas nos ombros das defensoras quilombolas.
De volta ao espaço da Oficina, iniciou-se uma roda de conversa com representantes do Fundo Baobá, Tainá Medeiros e Carolina Almeida, que apresentaram as ações de apoio emergencial do projeto Cafuné.
As participantes do coletivo, por sua vez, foram contundentes: “os fundos ajudam, mas são insuficientes diante da omissão do Estado brasileiro, que deveria garantir proteção e segurança pública a quem defende os direitos humanos e os territórios tradicionais.”
O autocuidado como resistência política

Crédito: Vadok
Na parte da tarde, a Oficina provocou uma reflexão coletiva com uma pergunta aparentemente simples, mas devastadora: “O que você comprou para você nos últimos dias?”. As respostas revelaram o óbvio: a maioria não se lembra de ter comprado nada para si. Entre ameaças, violências e sobrecarga de trabalho comunitário, o autocuidado vira luxo.
Selma Dealdina Mbaye, que mediava a dinâmica, foi além: propôs cinco reflexões que desmontaram a falsa ideia de que “estamos bem”. As participantes foram convidadas a reconhecer suas emoções: explosões de ansiedade, insônia, culpa excessiva, sensação de solidão mesmo em meio à multidão, e o isolamento emocional que, por sobrevivência, se disfarça de força.
A coordenadora do coletivo não deixou dúvida: “autocuidado não é vaidade. É uma estratégia política de proteção coletiva”. Porque o cansaço imposto às mulheres quilombolas é um projeto. Um projeto de extermínio.
Quem protege as defensoras?

Crédito: Vadok
Essa pergunta não foi feita por acaso. Ela ecoou como um grito de alerta no segundo dia do Plano Emergencial para Proteção e Autocuidado de Mulheres Quilombolas e foi um chamado de urgência e denúncia: as mulheres quilombolas estão sendo ameaçadas e assassinadas, enquanto o Estado brasileiro que deveria proteger se omite, se esconde, e terceiriza a responsabilidade para as próprias vítimas.
Quando a pergunta foi feita em roda, as respostas vieram como desabafo e denúncia:
Antônia Cariongo (MA) foi direta: “Somos nós mesmas. Não temos ilusão de que o Estado virá nos proteger. É a nossa rede de lideranças, de organizações, que cria as estratégias de sobrevivência. Mesmo com medo, não vamos deixar a luta”.
Silvana da Silva (CE) lembrou o descaso institucional: “Quando fui ameaçada, a ajuda do coletivo chegou antes da polícia. Isso diz muito sobre quem realmente nos protege”.
Rita Lopes (TO) foi além: “Nossa proteção vem da ancestralidade. Dona Bernadete foi assassinada, mas seu legado está vivo. Estamos aqui porque ainda temos muito a fazer nesse plano”.
Maria José (PA) trouxe a imagem do ‘guarda-chuva de proteção’ que, na prática, é ineficiente e cheio de buracos. Já Áquila Santos (AM) reafirmou que a fé e a coletividade são o que lhes resta. Patrícia Brito (BA) foi cirúrgica: “Os programas de proteção existem no papel. Mas a verdade é que continuamos vulneráveis. A polícia, quando tem, é uma só para uma comunidade inteira. Não é suficiente. Nós estamos expostas”.
A tarde terminou com um momento de escuta afetiva, onde as participantes puderam compartilhar suas dores e afetos sem julgamento. Um espaço de cuidado mútuo, onde a coletividade foi fortaleza.
O legado de Mãe Bernadete

Crédito: Vadok
À noite, ocorreu a exibição do documentário “O Legado de Dona Bernadete” com a presença do seu filho, Jurandir Pacífico. Esse momento foi mais do que uma homenagem, tratou-se de um lembrete de que a luta das mulheres quilombolas é repleta de desafios. A ialorixá foi assassinada dentro de seu território, sendo integrante de um programa de proteção do Estado. Isso não foi acaso. Foi um descaso.
Não é mais possível fingir que os programas de proteção do Estado funcionam. A oficina Cafuné lembrou porque o Brasil falha em garantir segurança às lideranças quilombolas. A violência contra os defensores não é exceção. O autocuidado é resistência, mas não é suficiente. A proteção precisa ser política, pública e efetiva.
Enquanto isso não acontecer, o Coletivo de Mulheres da CONAQ continuará perguntando em alto e bom som: Quem nos protege?
Esse projeto tem o apoio financeiro da AECID – COOPERAÇÃO ESPANHOLA e também conta com a parceria do Fundo Baobá, Fundo CASA, Fundo ELAS, AECID, Ibirapitanga, Bem-Te-Vi e Thousand Currents.
Texto por Thaís Rodrigues CONAQ/Uma Gota No Oceano, publicado às 09:46:11
Categoria: Mulheres Quilombolas