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26 de janeiro de 2026

CONAQ inicia planejamento das mulheres quilombolas e fortalece estratégias nacionais por justiça climática

O Encontro reúne mulheres de diversos estados, entre os dias 26 e 30 de janeiro, para discutir estratégias, fortalecer a incidência política e a pauta de gênero e justiça climática.

Nesta segunda-feira (26), o Coletivo/Secretaria Nacional de Mulheres da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ) deu início ao seu planejamento estratégico, que acontece até o dia 30 de janeiro, em Brasília (DF). A agenda reúne mulheres quilombolas de diversos estados do país com o objetivo de avaliar ações, fortalecer a organização nacional e planejar as estratégias para 2026, tendo como foco a formação política, o fortalecimento organizativo e a incidência sobre a pauta climática e de gênero.

O primeiro dia foi marcado por forte simbolismo e espiritualidade. A mística de abertura reuniu as mulheres em roda, com vozes ecoando união, força e ancestralidade, reafirmando que a luta quilombola é construída coletivamente, a partir da memória, do território e do bem viver. Em um gesto de afeto e reconhecimento, as participantes também compartilharam fotografias, fortalecendo vínculos e celebrando trajetórias.

Foto: Pedro Garcês/Comunicação CONAQ

 

A programação da manhã contou com mesa de abertura, conduzida por Selma Dealdina Mbaye (CONAQ), Fran Paula e Cida Sousa, com a participação das apoiadoras do WWF, Bianca Nakamato e Trícia Oliveira, promovendo um diálogo sobre clima e gênero, centrado no projeto de formação “Mulheres quilombolas por empoderamento: formação para o enfrentamento ao racismo ambiental na luta por justiça climática”. O debate evidenciou como as mudanças climáticas atingem de forma desigual os territórios quilombolas, aprofundando violações históricas e o racismo ambiental enfrentado diariamente pelas comunidades na linha de frente da defesa territorial.

O encontro também buscou a escuta do WWF para fortalecer o projeto, ampliando a divulgação e a incidência da publicação Mulheres Quilombolas e Justiça Climática: não adianta sofrermos juntos(as) e lutarmos separados(as), conectando a formação política e organizativa à pauta climática e de gênero.

Bianca Nakamato e Trícia Oliveira destacaram o papel da organização no apoio às comunidades tradicionais, ressaltando que a conservação acontece nos territórios onde os povos vivem, protegem e constroem soluções, e que a parceria com a CONAQ é estratégica para conectar lutas históricas, como a regularização fundiária, à pauta da crise climática, garantindo que as narrativas quilombolas sejam ouvidas e respeitadas.

Cida Sousa reforçou a importância do diálogo direto entre o coletivo e os parceiros: “Muitas ações chegam aos estados e municípios sem que saibamos como acessá-las. Esse planejamento vai sair com encaminhamentos claros de como esse material pode chegar aos territórios, fortalecendo a base.”

Cartilha fortalece saberes quilombolas e amplia incidência política

A cartilha “Mulheres Quilombolas e Justiça Climática”, apoiada inicialmente pela Tenure Facility, Fundo Ibirapitanga e Fundo Casa, teve como foco a incidência política durante a COP. Agora, com a parceria do WWF e do Fundo Casa, o material passa a ser ampliado como instrumento de formação política nos territórios quilombolas, com o objetivo de chegar aos estados e municípios e fortalecer a atuação das mulheres como multiplicadoras da pauta climática.

Durante o debate, foram discutidas estratégias para garantir o alcance do conteúdo. Fran Paula, integrante do Coletivo de Meio Ambiente da CONAQ, explicou que a cartilha é resultado de uma longa trajetória de construção coletiva, que não se inicia na COP, mas nasce das reflexões acumuladas ao longo dos anos, especialmente a partir das cartas produzidas anualmente pelo coletivo. Segundo ela, o material se consolida como um documento político, técnico e metodológico, que reúne dimensões técnicas, políticas e científicas da pauta ambiental até 2025, diferenciando-se por ser construído a partir dos saberes quilombolas. “É um documento feito de nós para nós. Ele mostra que essa pauta não começou agora e que temos potência para levar essa discussão até os municípios”, afirmou.

Mulheres que participaram da elaboração do material também compartilharam experiências de apresentação da cartilha em espaços internacionais, como a COP, reforçando seu diferencial ao valorizar os saberes quilombolas e denunciar as injustiças climáticas nos territórios. De forma unificada, as participantes afirmaram que a publicação representa um marco político e pedagógico na luta por justiça climática, ao articular raça, gênero e território, enfrentar o epistemicídio e fortalecer a autonomia política das mulheres quilombolas.

Foto: Pedro Garcês/Comunicação CONAQ

 

NDC dos Quilombos do Brasil

A tarde foi dedicada ao debate “Mulheres Quilombolas e a NDC”, com participação de Jhonny Martins(CONAQ), Robervone Nascimento, representante da Tenure Facility e Ciro Brito do Instituto Socioambiental(ISA). O diálogo destacou o protagonismo das mulheres quilombolas na agenda climática, os desafios de ocupar espaços de negociação e a urgência da inserção da pauta quilombola nas políticas públicas, além da necessidade de fortalecer estratégias de incidência para acesso aos fundos de financiamento climático.

Durante o encontro, foi apresentada a publicação “NDC dos Quilombos do Brasil”, construída pela CONAQ com apoio do ISA, a partir da ausência dos quilombos na NDC brasileira. Baseado nos eixos da Contribuição Nacionalmente Determinada do Brasil, o material reúne metas, dados e propostas do movimento quilombola, defendendo a demarcação, regularização e proteção dos territórios como políticas centrais de enfrentamento à crise climática, além do fortalecimento da incidência política e da participação nos espaços de decisão, especialmente no contexto do novo Plano Clima previsto para 2026.


Foto: Pedro Garcês/Comunicação CONAQ

Exibição de Documentários e Publicações “Mulheres Quilombolas Ruma a COP 30” 

A programação do dia 26 foi encerrada com a exibição de documentários e a apresentação da publicação “Guia Mulheres Quilombolas Rumo à COP30”  realizada pelo Centro Brasileiro de Justiça Climática (CBJC), com apoio da CONAQ. 

A atividade contou com a apresentação de Andréia Coutinho (CBJC), que destacou que a publicação é resultado de processos formativos realizados com mulheres quilombolas das regiões nordeste e sudeste, voltados à preparação para a incidência política no contexto da COP30. Os materiais sistematizam conhecimentos ancestrais, as vozes das mulheres quilombolas e estratégias de resistência e enfrentamento à crise climática nos territórios, além de reunir termos e informações fundamentais para o debate climático. Em breve, a CONAQ divulgará em suas redes sociais o link para acesso aos documentários. 

Parceiros

O compromisso das instituições parceiras foi fundamental para viabilizar a participação das mulheres quilombolas de diversos estados no planejamento, que segue até 30 de janeiro. Entre os apoiadores estão: COSPE, Negra Anastácia, Fundo Casa Socioambiental, Ibirapitanga, Thousand Currents, WWF, Cooperación Española, Grassroots International e Bem-Te-Vi Diversidade.