19 de agosto de 2025
CONAQ inicia 2ª oficina regional do Projeto Cafuné para mulheres quilombolas do Centro-Oeste, Sul e Sudeste
1º dia do encontro em Vitória (ES) reforça a importância do autocuidado, a Mãe Bernadete e do fortalecimento das lideranças femininas nos territórios
Na manhã desta terça-feira (19), na capital capixaba ocorreu o pontapé da 2ª Oficina Regional do Projeto Cafuné – Plano Emergencial para Proteção e Autocuidado de Mulheres Quilombolas, iniciativa da CONAQ. A atividade reuniu lideranças das regiões Centro-Oeste, Sul e Sudeste e contou com o apoio de parceiros estratégicos como Fundo CASA, Fundo Baobá, Fundo ELAS, AECID, Ibirapitanga, Bem-Te-Vi e Thousand Currents.
Mais do que um espaço de formação é uma reafirmação da importância do cuidado coletivo e da resistência feminina frente ao cenário de violências que atinge quilombolas em diversas localidades do país.
Abertura marcada por simbolismo e afeto
A primeira atividade foi conduzida por Edna Paixão, que propôs a chamada “dinâmica do aroma”. Nela, cada participante se apresentou e compartilhou um sentimento ou valor que trazia consigo para o encontro. Termos como resiliência, amor, construção, estratégia, força, consciência e persistência ecoaram pela sala, sintetizando a energia que guiaria a oficina.
O gesto simbólico reforçou a ideia de que, apesar das dores e ameaças enfrentadas, as mulheres quilombolas seguem firmes, nutrindo esperança e projetando futuro para suas comunidades.
Memória de Mãe Bernadete como guia
Em seguida, Selma Dealdina Mbaye, articuladora política e coordenadora do coletivo de mulheres da CONAQ, fez um retrospecto do projeto e destacou que o Cafuné surgiu em resposta à violência que marcou a execução de Bernadete Pacífico, a Mãe Bernadete, em 17 de agosto de 2023, no Quilombo Pitanga dos Palmares, em Simões Filho (BA).
A lembrança da ialorixá e liderança quilombola – assassinada por sua atuação em defesa do território e na busca por justiça por seu filho, Flávio Gabriel Pacifico dos Santos, mais conhecido por Binho do Quilombo que teve sua vida ceifada em 2017 – foi constantemente lembrada ao longo da programação, servindo como símbolo da luta e da urgência em garantir segurança para defensoras de direitos.
Lideranças no centro do processo

Foto: Acervo CONAQ
As coordenadoras executivas da CONAQ, Rejane Oliveira, Bel Cabral e Sandra Braga, também participaram da abertura e enfatizaram o orgulho de integrar o coletivo de mulheres e de contribuir com a consolidação do Cafuné.
Elas destacaram que, em muitos quilombos, são as mulheres que sustentam a luta diária, garantindo a continuidade da vida comunitária. Projetos como o Cafuné reconhecem essa centralidade e a transformam em estratégia de resistência coletiva.
Debate com o Fundo Baobá

Foto: Acervo CONAQ
Fechando a manhã, Cida Sousa, coordenadora nacional da CONAQ, mediou uma mesa com as representantes do Fundo Baobá, Caroline de Almeida, gerente de articulação social, e Tainá Medeiros, coordenadora de projetos.
As convidadas detalharam a trajetória do fundo e o funcionamento dos editais como mecanismo de repasse de recursos. “Ao longo de quase 15 anos de atuação, lançamos cerca de 25 editais, apoiando diretamente mais de duas mil pessoas, organizações e instituições. Indiretamente, milhares de pessoas também foram beneficiadas. O edital é nossa principal ferramenta de democratização do acesso a recursos para iniciativas do campo popular”, explicou a gestora.
A fala foi seguida de uma rodada de perguntas, quando as participantes expuseram dúvidas e preocupações, especialmente sobre a destinação correta de verbas para projetos quilombolas, como a construção de casas de farinha e outras iniciativas comunitárias essenciais à autonomia dos territórios.
Dinâmica coletiva de convivência
O turno da tarde começou com a dinâmica da regra de boas convivências, na qual as participantes foram divididas em grupos para elaborar princípios que orientariam a oficina.Os valores escolhidos incluíram paciência, tolerância, comunicação, cooperação, responsabilidade, respeito, empatia e honestidade. Cada grupo formulou três regras, que se transformaram em um pacto coletivo, uma construção partilhada para guiar a convivência até o fim do encontro.
Escuta sensível: quem protege as defensoras?
Um dos momentos mais intensos do dia foi a atividade intitulada “Quem protege as defensoras?”, espaço de escuta e acolhimento onde as mulheres compartilharam relatos sobre ameaças que sofrem em seus territórios. Muitas falaram sobre perseguições que enfrentam apenas por exigir a titulação de seus quilombos, um direito previsto na Constituição de 1988, mas constantemente negligenciado pelo Estado. As falas revelaram o peso psicológico das intimidações, o impacto nas famílias e a sensação de abandono diante da falta de respostas efetivas do poder público.
O espaço serviu não apenas como desabafo, mas também como reafirmação da necessidade de um plano emergencial de proteção, construído pelas próprias comunidades e lideranças, a partir de suas realidades que são diversas.
Cultura e ancestralidade como resistência
O dia foi concluído com a exibição do filme “Cartografia Social do Rio Angelim: Memórias e Direitos Quilombolas do professor Sandro Silva da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), que trouxe reflexões sobre como os quilombos da Região do Sapé do Norte são afetados pela monocultura de eucalipto que afeta as comunidades.
“O eucalipto, ele destrói os córregos ele seca o rio. Isso aí não é história, isso é científico. Hoje ele está seco, hoje, sem peixe. Por quê? Porque eles plantaram muito eucalipto na margem sem respeitar a distância correta. E aí, o que aconteceu? O rio foi ficou lá embaixo”, afirmou Domingo Firmino (Chapoca), quilombola da região no documentário.
Cafuné e seu significado potente
O projeto é uma das principais iniciativas da CONAQ voltadas para mulheres quilombolas em situação de risco. Seu nome remete ao gesto de carinho e cuidado, simbolizando acolhimento e fortalecimento.
Com oficinas regionais destinadas a lideranças de diferentes partes do país, a iniciativa busca formular um plano emergencial de proteção e autocuidado, a partir da escuta e da escrita coletiva. É mais do que uma política reativa, trata-se de uma iniciativa que aponta caminhos para programas de proteção mais humanizados, que considerem a saúde física, emocional e espiritual das defensoras de direitos.
Ela nasce também como resposta à insuficiência dos mecanismos institucionais de proteção existentes, que muitas vezes não contemplam as especificidades dos quilombolas nem garantem segurança efetiva para quem está na linha de frente das lutas por território.
Texto por Thaís Rodrigues CONAQ/Uma Gota No Oceano, publicado às 20:30:24
Categoria: Mulheres Quilombolas