24 de agosto de 2026
Atlas da Sociobioeconomia mapeia cadeias produtivas e saberes do Quilombo Abacate da Pedreira, no Amapá
Trabalho de campo identificou atividades econômicas, potencialidades e desafios locais e reuniu informações sobre cultura, memória, juventude e modos de vida da região da Pedreira
A cerca de 31 quilômetros do centro de Macapá, o Quilombo Abacate da Pedreira recebeu, no dia 23 de agosto, a equipe do Atlas da Sociobioeconomia Quilombola da Amazônia para mais uma etapa do trabalho de campo realizado no Amapá. A agenda reuniu moradores, agente territorial e consultores em uma programação voltada ao mapeamento das cadeias produtivas, à identificação de potencialidades e desafios e ao registro de conhecimentos construídos por quem vive na região.
A passagem pelo Abacate da Pedreira integra o processo de levantamento desenvolvido pelo projeto em territórios quilombolas da Amazônia. A metodologia combina participação comunitária, escuta e diferentes instrumentos de coleta de informações para compreender como produção, biodiversidade, cultura e modos de vida se articulam nas localidades contempladas pela iniciativa.
Durante a atividade, os moradores participaram do mapeamento participativo, das oficinas de GTAQ e do levantamento das cadeias de valor. A programação incluiu ainda entrevistas e registros fotográficos, ampliando a documentação sobre práticas econômicas, memória, infraestrutura, cultura e perspectivas para o futuro.
No Abacate da Pedreira, esse percurso permitiu identificar atividades ligadas principalmente ao açaí, artesanato, cultivo de frutas e hortaliças, além de compreender mudanças que interferem nas formas de produzir e gerar renda.
Mais do que registrar o que é comercializado, o trabalho busca construir, junto aos quilombolas, uma leitura abrangente sobre a sociobioeconomia que já existe no cotidiano e sobre as condições necessárias para fortalecê-la.
Mapeamento construído com participação comunitária
A atuação dos agentes territoriais é estratégica para aproximar a equipe técnica das famílias, mobilizar os participantes e contribuir para que o levantamento incorpore conhecimentos de quem acompanha diariamente as transformações locais.
No Abacate da Pedreira, essa função é exercida por Nelma Souza, moradora do quilombo e agente territorial que também acompanha as atividades no Quilombo do Rosa. Coube a ela apresentar a iniciativa aos participantes e colaborar na articulação com os comunitários.
Nelma conta que a chegada do projeto foi recebida com interesse justamente pela possibilidade de fortalecer atividades existentes e ampliar conhecimentos.
“Tudo que vem para fomentar tanto a cadeia produtiva quanto a sabedoria, o pessoal gosta muito. Tudo que é projeto, eles gostam de saber como funciona e como vai se desenvolver dentro da nossa comunidade”, relata.
A lógica participativa orienta as diferentes etapas da iniciativa. Em vez de construir um diagnóstico distante da realidade local, as atividades estimulam os próprios moradores a apresentar informações sobre produção, transformações da paisagem, infraestrutura, práticas culturais, dificuldades e potencialidades.
Para Nelma, participar desse processo dentro do lugar onde vive também representa uma oportunidade de dimensionar a contribuição econômica e social das famílias.
“Coletar dados da sua comunidade e mostrar que realmente a gente é uma potência é muito importante. A gente ajuda várias famílias a se alimentar”, ressalta.
Cadeias produtivas revelam a força da economia local
Entre as atividades identificadas durante a passagem da equipe estão o açaí, o artesanato e o cultivo de verduras e frutas. O levantamento ajuda a compreender não apenas quais produtos existem, mas também sua relação com a geração de renda, a alimentação e as estratégias de permanência das famílias.
O açaí aparece como uma das cadeias de maior relevância. A região da Pedreira funciona como ponto de escoamento do fruto para batedoras, fábricas e outros circuitos de comercialização.
Ao dimensionar a importância dessa atividade, Nelma a caracteriza como o “carro-chefe” da economia local.
“O açaí hoje é o grande carro-chefe da nossa região. São mais de 10 mil sacas em um mês, escoadas tanto para as fábricas quanto para as batedeiras locais e também para a cidade de Macapá”, conta.
O fruto, entretanto, não pode ser compreendido somente a partir de seu valor comercial. Ele também ocupa lugar central na alimentação e no modo de vida amapaense.
“O açaí, para o amapaense, é comida. Para muitos pode ser uma vitamina, mas aqui não. Aqui ele é comida”, enfatiza a agente territorial.
Além dessa cadeia, pequenos agricultores trabalham com hortaliças, frutas e outros produtos destinados às feiras e ao comércio local. O diagnóstico dessas atividades permite visualizar os diferentes circuitos econômicos existentes e como eles conectam biodiversidade, alimentação, trabalho e geração de renda.
Mudanças no espaço produtivo também entram no diagnóstico
Ao mesmo tempo em que identifica potencialidades, o trabalho de campo permite registrar obstáculos enfrentados pelas famílias para manter suas atividades.
Uma das questões apresentadas por Nelma durante o levantamento foi a redução das áreas disponíveis para plantio e criação de animais. Segundo a moradora, transformações ocorridas no entorno modificaram as condições de produção e exigiram que as famílias buscassem novas estratégias econômicas.
“O povo aqui se reinventa todos os dias, porque hoje o nosso quilombo não tem para onde crescer. Nós ficamos comprimidos pelos terrenos ao lado. Então, a gente não tem como produzir como antes”, explica.
A pecuária, por exemplo, já teve presença mais expressiva na região, conforme as memórias compartilhadas pela agente. Com a diminuição das áreas de pastagem, a atividade perdeu espaço.
Essa capacidade de adaptação também atravessa as trajetórias familiares. Nelma recorda que aprendeu com o pai a buscar diferentes formas de garantir renda e sustento.
“Meu pai sempre foi empreendedor. Então, ele sempre criou várias formas de sustentar a gente. A gente foi aprendendo com ele e também tem essa coisa de empreender. Por isso eu digo que hoje a gente se reinventa todos os dias.”
Ao incorporar essas informações ao levantamento, o Atlas amplia a compreensão sobre as cadeias produtivas. Não se trata apenas de identificar o que é produzido atualmente, mas também de entender as transformações que interferem nessas atividades e as estratégias construídas pelas famílias diante delas.
Memória e história também ajudam a compreender a região
A dimensão histórica integra a leitura construída durante a passagem pelo Abacate da Pedreira. A região mantém, na memória de seus habitantes, uma relação com a construção da Fortaleza de São José de Macapá, um dos principais símbolos históricos da capital amapaense.
Segundo relatos compartilhados pelos moradores, pedras retiradas da região da Pedreira foram utilizadas na edificação da fortificação. O rio Pedreira ocupa lugar central nessa narrativa e permanece como referência na memória local.
“A nossa região da Pedreira é rica e o Abacate tem uma história muito bonita, uma história secular”, sintetiza Nelma.
A agente territorial também chama atenção para a importância de preservar a trajetória dos mais velhos. Ao falar sobre o sogro, ela o apresenta como uma referência viva para a família e para as localidades próximas.
“A gente tem muito orgulho de ter ele, porque ele é história viva dessa comunidade e das outras.”
Registrar essas narrativas contribui para compreender que as atividades econômicas não estão separadas das relações familiares, dos conhecimentos transmitidos entre gerações e das transformações históricas vivenciadas pela população local.
“O legado que a gente puder deixar para todos que vierem depois da gente é que eles saibam de onde vieram, como foi fundado. Isso é muito importante”, acrescenta Nelma.
Juventude, educação e permanência
As entrevistas realizadas durante a atividade também ajudam a revelar como as novas gerações enxergam o futuro da região.
Nicole Picasso, moradora do Abacate da Pedreira, filha de Nelma e acadêmica de fisioterapia, representa uma juventude que acessa novos espaços de formação sem romper os vínculos com suas origens.
A jovem estudou na região da Pedreira e atualmente cursa o ensino superior. Segundo ela, a existência de um polo da Universidade Federal do Amapá (Unifap) ampliou as possibilidades de acesso à formação para moradores que enfrentam dificuldades de deslocamento e condições financeiras para estudar em Macapá.
“Eu não me vejo morando em outro lugar sem estar na minha região”, declara.
A experiência de Nicole evidencia uma questão que atravessa o debate sobre fortalecimento das localidades tradicionais: criar condições para que jovens possam estudar, trabalhar e desenvolver seus projetos de vida sem que a busca por oportunidades signifique necessariamente o afastamento de suas origens.
Formação que pode retornar em cuidado
A escolha pela fisioterapia também está relacionada ao desejo de contribuir com a população local.
Nicole pretende utilizar sua formação para atender pessoas que necessitam de acompanhamento, tanto no Abacate da Pedreira quanto em outras localidades da região. Sua trajetória aproxima o conhecimento acadêmico das necessidades observadas no cotidiano.
A estrutura de saúde disponível atende consultas, exames, vacinação, pré-natal e outros serviços, além de oferecer atendimento de fisioterapia. Situações de maior gravidade, entretanto, exigem deslocamento até Macapá.
Esse cenário evidencia como saúde, educação e infraestrutura também interferem nas possibilidades de permanência e na qualidade de vida.
Ao mesmo tempo, a formação universitária convive com conhecimentos transmitidos pelos mais velhos. Nicole relata que práticas relacionadas ao uso de plantas, chás e outras formas tradicionais de cuidado continuam presentes entre as famílias.
Para ela, esses saberes fazem parte da história local e podem dialogar com os conhecimentos científicos e os serviços de saúde.
A interação entre ancestralidade e formação acadêmica demonstra como diferentes formas de conhecimento podem coexistir e contribuir para pensar soluções conectadas às necessidades locais.
Cultura integra a leitura sobre sociobioeconomia
As manifestações culturais também aparecem como dimensão indispensável para compreender a região da Pedreira.
Nicole menciona o marabaixo, as festas tradicionais e a celebração de São Sebastião entre as expressões que ajudam a fortalecer a identidade e os vínculos entre diferentes gerações.
Essas práticas demonstram por que o levantamento realizado pelo Atlas ultrapassa uma leitura estritamente econômica. As cadeias de valor estão inseridas em contextos nos quais produção, alimentação, cultura, memória, trabalho coletivo e relação com a natureza se conectam.
Mapear a sociobioeconomia quilombola significa, portanto, compreender também as relações sociais e os conhecimentos que sustentam aquilo que é produzido.
Entrevistas e fotografia ampliam o registro
Além das oficinas e do levantamento das atividades econômicas, a passagem pelo Abacate da Pedreira contou com entrevistas e registros fotográficos com moradores.
As conversas permitiram aprofundar aspectos que os dados produtivos, isoladamente, não conseguiriam revelar: histórias familiares, transformações percebidas ao longo dos anos, perspectivas da juventude, relação com a natureza e expectativas para o futuro.
A fotografia também assumiu uma dimensão de troca. Os participantes puderam levar consigo registros produzidos durante a atividade, aproximando a documentação do projeto das pessoas que contribuíram para construí-la.
Dessa maneira, diferentes instrumentos se complementam: enquanto o mapeamento e as oficinas sistematizam informações, as entrevistas ajudam a compreender experiências e trajetórias, e os registros visuais documentam pessoas, práticas e paisagens que integram essa realidade.
“Todo quilombo é um refúgio”
As informações levantadas durante a etapa de campo mostram que falar sobre sociobioeconomia também significa compreender o vínculo das pessoas com o lugar onde vivem.
Para Nelma, essa relação envolve natureza, família, memória e a sensação de pertencimento construída ao longo da vida.
“Eu amo esse lugar porque é o refúgio. Todo quilombo é um refúgio. Por mais que a gente saiba que existem dificuldades, aqui a gente tem paz. A gente consegue sobreviver e viver.”
Ao descrever essa conexão, ela acrescenta:
“É aquela paz de viver aqui, sentir o cheiro do verde. Eu sou muito apaixonada por isso.”
As perspectivas de Nelma e Nicole se encontram na ideia de que permanecer não significa manter o lugar inalterado. Significa criar condições para que formação, renda, políticas públicas e novas oportunidades possam avançar sem romper os vínculos com a história, a cultura e a natureza.
Texto por Thaís Rodrigues/CONAQ , publicado às 18:00:06
Categoria: Sociobioeconomia