9 de agosto de 2026
“A gente já faz a bioeconomia”: no Quilombo Chumbo, saber ancestral vira futuro
Projeto do Atlas da Sociobioeconomia Quilombola evidencia práticas produtivas, culturais e econômicas que sustentam a vida no território.
O som da banda e as cores dos Mascarados de Poconé anunciaram a chegada da equipe do Atlas da Sociobioeconomia Quilombola ao Quilombo Chumbo. No dia 7 de agosto, a comunidade localizada no município de Poconé, em Mato Grosso, recebeu a última etapa do trabalho de campo do projeto no estado, em um encontro que combinou cultura, escuta, conhecimento e construção coletiva.
Antes mesmo do início das oficinas, os visitantes foram recebidos por uma das manifestações culturais mais tradicionais da região. A apresentação dos Mascarados de Poconé, acompanhada por uma banda, trouxe ao encontro o ritmo e a memória de uma expressão cultural que atravessa gerações.
Embora a apresentação tradicional possa durar cerca de duas horas, o grupo realizou uma demonstração especial para receber a equipe. O gesto transformou a chegada em um momento de celebração e reafirmação da cultura local.
Depois da recepção, tiveram início as atividades do Atlas, projeto financiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que busca identificar, registrar e fortalecer as experiências de sociobioeconomia desenvolvidas nos territórios quilombolas.
No Chumbo, a programação envolveu a oficina de GTAQ, o levantamento das cadeias produtivas, o georreferenciamento do território e uma atividade de comunicação com registro fotográfico.
A cultura como porta de entrada para o território

Foto: Mylena Pereira
A escolha de receber a equipe com uma manifestação cultural não foi apenas uma forma de celebrar a chegada dos visitantes. Ela também revelou uma das dimensões fundamentais do território: a cultura como elemento de pertencimento e continuidade.
Os Mascarados de Poconé levaram para o encontro música, movimento e tradição. A apresentação mostrou que o patrimônio cultural quilombola e mato-grossense não está separado das demais dimensões da vida comunitária. Cultura, produção, território e memória caminham juntos.
Essa perspectiva atravessou toda a atividade. Ao longo do dia, enquanto os consultores levantavam informações técnicas e produtivas, os moradores também apresentavam aquilo que dá sentido à vida comunitária: seus conhecimentos, suas formas de produzir e seus modos de permanecer.
GTAQ e a construção coletiva do futuro
A primeira oficina foi dedicada a Gestão Territorial e ambiental quilombola conduzida pelo consultor Hilton Lucas. A atividade teve como foco compreender aspectos do território, incluindo suas forças e fragilidades.
O processo permitiu que os moradores olhassem para a própria realidade e identificassem potencialidades que podem ser fortalecidas, assim como desafios que ainda precisam ser enfrentados.
Esse tipo de levantamento é fundamental para que os dados produzidos pelo Atlas não sejam construídos exclusivamente a partir de uma perspectiva externa. O conhecimento dos consultores se soma ao conhecimento de quem vive no território, garantindo que o mapeamento seja também um processo de escuta.
No Quilombo Chumbo, essa construção coletiva ganhou ainda mais importância diante da longa história da comunidade e da necessidade de criar condições para que as novas gerações possam permanecer no território.
Mapear para compreender onde estão as potencialidades
Logo após, a equipe se dedicou ao levantamento e mapeamento das cadeias produtivas existentes no quilombo. Conduzida por Maria Helena Santos em diálogo com os moradores, a atividade buscou identificar os diferentes momentos que integram a produção local, desde o plantio e a colheita até as etapas de beneficiamento e comercialização.
Mais do que listar produtos, o levantamento procura compreender os caminhos percorridos por aquilo que é produzido no território e identificar onde estão os principais obstáculos.
Quais são as dificuldades para produzir? O que falta para beneficiar? Quais equipamentos poderiam melhorar o processo? Como ampliar a comercialização? Onde estão as oportunidades de geração de renda?
Essas perguntas ajudam a revelar que a sociobioeconomia quilombola não se resume ao produto final. Ela envolve uma cadeia de conhecimentos, trabalho familiar, recursos naturais, técnicas tradicionais, infraestrutura e relações de mercado.
No Chumbo, identificar essas etapas significa também reconhecer o trabalho que já é realizado pelas famílias e pensar estratégias para fortalecê-lo.
“A gente já faz a bioeconomia”

Foto: Mylena Pereira
Para Nirda Rosa de Oliveira, professora, doutoranda e agente territorial do Quilombo Chumbo, um dos aspectos mais importantes do projeto é justamente reconhecer práticas que já fazem parte da vida da comunidade.
Segundo ela, antes mesmo de ouvir o termo “bioeconomia”, os moradores já desenvolviam atividades que podem ser compreendidas dentro desse conceito. “Na bioeconomia não. A gente falava, por exemplo, sobre agricultura familiar, produção dos quintais, que é a bioeconomia. O que muda é só o nome, mas a gente já faz a bioeconomia.”
A fala chama atenção para uma questão central: muitas vezes, conceitos acadêmicos ou institucionais chegam às comunidades para nomear práticas que existem há décadas ou séculos.
A agricultura familiar, os quintais produtivos, o artesanato, o aproveitamento dos recursos naturais e os conhecimentos tradicionais não surgiram com a criação do conceito de sociobioeconomia. Eles fazem parte de estratégias ancestrais de sobrevivência, autonomia e reprodução da vida.
O papel do projeto, portanto, é também reconhecer, sistematizar e fortalecer aquilo que as comunidades já fazem.
Uma economia construída a partir do território
Para Nirda, fortalecer a sociobioeconomia significa fortalecer a própria vida comunitária. “A bioeconomia, ela vai fortalecer isso que nós já temos”, afirmou. Ela destaca que a produção, o artesanato e a cultura são elementos que precisam ser valorizados e fortalecidos para que possam continuar existindo e contribuindo para a economia do quilombo.
A dimensão econômica aparece como uma questão central. Para que as pessoas permaneçam no território, é necessário que existam condições concretas de sobrevivência e geração de renda.
“O quilombo precisa gerar a economia. Ele também precisa ter vida e vida com abundância”, resume.
Essa perspectiva ajuda a compreender que a defesa do território não está dissociada do desenvolvimento de atividades produtivas. Pelo contrário: produzir a partir do território é uma das formas de garantir que ele continue vivo.
Uma história que atravessa gerações

Foto: Mylena Pereira
A história de Nirda se confunde com a própria história de permanência do Quilombo Chumbo. Nascida no território, ela conta que nunca saiu da comunidade. Hoje, aos quase 49 anos, segue vivendo, estudando e atuando em defesa do quilombo. É professora, doutoranda e agente territorial. Poderia ter seguido outros caminhos, mas decidiu permanecer.
“Eu não saí daqui, não pretendo, porque eu acredito no meu quilombo. Eu acredito em dias melhores.” Sua trajetória também carrega uma dimensão familiar profunda. Seus pais nasceram no território. Seus avós e tataravós também. Sua presença representa, portanto, a continuidade de várias gerações que construíram suas vidas naquele espaço.
Ao permanecer, a docente também assume o papel de narradora dessa história. “Eu quero ver o meu quilombo, que ele possa ter uma visibilidade, mas por pessoas daqui. Ele conta da sua história por pessoas daqui.” A afirmação revela a importância do protagonismo quilombola na produção de conhecimento e na comunicação sobre os territórios.
Não basta falar sobre o quilombo. É preciso garantir que os próprios quilombolas tenham condições de contar suas histórias, apresentar seus saberes e definir como querem ser vistos.
O êxodo e o desafio de permanecer
Apesar da força do território, permanecer no Quilombo Chumbo não é uma tarefa simples. Nirda estima que a comunidade tenha cerca de 800 famílias, embora muitas tenham deixado o território em busca de melhores condições de sobrevivência.
A saída, segundo ela, está diretamente relacionada à dificuldade de encontrar oportunidades de trabalho e renda no meio rural. É um movimento que produz uma contradição dolorosa: pessoas que amam o território precisam deixá-lo para conseguir sobreviver.
“Eu gosto da minha comunidade, mas do que eu vou me alimentar, do que eu vou viver?”, é a pergunta que, segundo Nirda, muitos moradores fazem diante da falta de oportunidades. Mesmo aqueles que se mudam para outras cidades, porém, continuam ligados ao território. No fim do ano, muitos retornam para participar das festas e reencontrar a comunidade.
É um retorno carregado de pertencimento: a volta à “mãe terra”, à origem e às raízes. O desafio colocado para projetos de fortalecimento da sociobioeconomia é justamente contribuir para que esse vínculo possa se transformar também em possibilidade concreta de permanência.
Certificação não encerra a luta pelo território
O Quilombo Chumbo foi certificado como comunidade quilombola em 2005. Esse reconhecimento representa uma conquista importante, mas, segundo Nirda, não encerrou o processo de garantia dos direitos territoriais.
A certificação reconhece a identidade quilombola da comunidade, mas permanecem desafios relacionados à consolidação de direitos e à criação de condições para que as famílias possam permanecer no território.
Essa realidade demonstra que reconhecimento e garantia de direitos precisam caminhar juntos. A existência de uma comunidade quilombola não se resume à sua certificação. Ela envolve história, território, produção, identidade, cultura, ancestralidade e capacidade de decidir sobre o próprio futuro.
Georreferenciamento: transformar o território em informação
Paralelamente às oficinas, o Atlas realizou o georreferenciamento do território, conduzido pelo consultor Chagas com a participação dos moradores. A atividade representa uma dimensão técnica importante do projeto, pois permite produzir informações espaciais sobre o território. Mas, no contexto quilombola, o mapa ganha um significado que ultrapassa a dimensão cartográfica.
Mapear é também registrar a existência de uma comunidade. É tornar visível aquilo que muitas vezes foi historicamente ignorado. É produzir informações que podem contribuir para políticas públicas e para o reconhecimento das atividades existentes.
Quando os moradores participam desse processo, o mapa deixa de ser apenas uma representação externa do espaço e passa a incorporar o conhecimento de quem vive nele.
Comunicação para registrar rostos e histórias

Foto: Mylena Pereira
O trabalho de campo também contou com uma etapa de comunicação e registro fotográfico. Depois de um dia de oficinas e atividades, os moradores participaram de uma sessão de fotos.
Assim como em outras comunidades visitadas pelo Atlas, o registro fotográfico funciona como uma forma de guardar na memória o encontro e valorizar as pessoas que constroem cotidianamente o território.
A comunicação assume, dessa maneira, um papel estratégico: dar visibilidade não apenas ao que a comunidade produz, mas também a quem produz.
São rostos, histórias e trajetórias que ajudam a construir uma narrativa diferente sobre os quilombos — uma narrativa que parte do protagonismo, da dignidade, do trabalho e da resistência.
Um momento de descontração e economia solidária
Antes da sessão de fotos, a comunidade viveu também um momento descontraído com o sorteio de compostos disponibilizados por uma produtora quilombola de compostagem.
Entre risadas e brincadeiras, a atividade reforçou o espírito de união que marcou o encontro.
Ao mesmo tempo, o sorteio evidenciou outra dimensão da sociobioeconomia: a existência de iniciativas produtivas desenvolvidas pelos próprios quilombolas e baseadas no aproveitamento sustentável de recursos.
A compostagem, nesse sentido, aparece como exemplo de uma prática que pode contribuir para o manejo dos resíduos, a fertilização e o fortalecimento de processos produtivos sustentáveis.
“Estar aqui é resistir”
Ao falar sobre o significado de viver no Quilombo Chumbo, Nirda não hesita em definir o território a partir de uma palavra: resistência. “Falar sobre o Quilombo Chumbo é emocionante. Estar aqui é resistir.”
Para ela, o quilombo representa pertencimento, afeto e emoção. É o espaço onde se encontram as histórias dos ancestrais e as expectativas das novas gerações. Essa resistência não acontece apenas diante de conflitos ou ameaças. Ela está presente no ato cotidiano de permanecer, plantar, produzir, ensinar, preservar os saberes, celebrar a cultura e continuar acreditando no futuro.
“Eu acredito no território. Eu acredito no quilombo, nesses saberes que nos fortalecem, nessa alimentação da terra e na voz dos nossos ancestrais.” É uma concepção de resistência que não se limita à oposição. Ela também significa construção. Construir renda. Construir conhecimento. Construir autonomia. Construir memória. Construir futuro.
A sociobioeconomia como ferramenta de fortalecimento
Para Nirda, o Atlas chega em um momento importante porque pode contribuir para dar mais força às práticas que já existem no território. O projeto não cria do zero uma economia quilombola. Ele ajuda a identificar, organizar e tornar visíveis atividades que já fazem parte da vida da comunidade.
Agricultura familiar, produção dos quintais, artesanato e cultura são expressões de uma economia construída historicamente pelos próprios moradores. A partir do mapeamento, torna-se possível compreender melhor as necessidades dessas cadeias e pensar em caminhos para seu fortalecimento.
Essa é uma das principais contribuições do trabalho desenvolvido pelo Atlas: transformar conhecimentos dispersos em informações capazes de revelar a dimensão e a diversidade da sociobioeconomia quilombola.
O último território de Mato Grosso, mas não o fim da caminhada

Foto: Mylena Pereira
O Quilombo Chumbo marcou o encerramento da etapa de levantamento de informações do Atlas em Mato Grosso. Depois de percorrer outros territórios quilombolas do estado, a equipe concluiu mais uma fase do trabalho de campo, levando consigo informações sobre produção, cultura, território, desafios e potencialidades.
Mas o encerramento da etapa mato-grossense não representa o fim do projeto. Ainda há um destino a ser percorrido. E, enquanto a equipe segue viagem, permanecem nos territórios as pessoas, os saberes e as práticas que dão sentido ao trabalho realizado.
No Chumbo, ficam os mapas produzidos, as cadeias identificadas, os registros fotográficos e, principalmente, as histórias compartilhadas.
O futuro contado por quem permanece
A experiência no Quilombo Chumbo mostra que falar em sociobioeconomia é falar sobre futuro, mas também sobre passado. É olhar para os quintais produtivos e enxergar décadas de conhecimento. É olhar para o artesanato e reconhecer a continuidade de saberes. É observar uma manifestação cultural e compreender que ali existe memória. É mapear uma cadeia produtiva e perceber quantas pessoas dependem dela para viver.
E é ouvir uma mulher que nasceu no território, viu parte de sua comunidade partir e decidiu permanecer porque acredita que dias melhores são possíveis. Nirda encerrou sua mensagem com uma afirmação que sintetiza a experiência vivida pela equipe do Atlas no Chumbo: “Resistência sempre.”
Texto por Thaís Rodrigues/CONAQ , publicado às 18:53:51
Categoria: Sociobioeconomia