8 de março de 2026
8 de Março: a luta contra o machismo e violência também exige posicionamento dos homens
Lideranças e membros da CONAQ refletem sobre o papel masculino diante do cenário alarmante de agressões e ameaças contra mulheres no Brasil.
O Dia Internacional das Mulheres, celebrado hoje, 8 de março, é um marco histórico de luta por direitos, dignidade e igualdade. Mais do que uma data de homenagens, ele carrega a memória das mobilizações de mulheres em todo o mundo contra a exploração, a violência e as desigualdades estruturais que atravessam suas vidas.
No Brasil, esse dia também precisa ser um momento de reflexão profunda sobre a realidade alarmante da violência contra as mulheres – uma realidade que atinge de forma ainda mais dura as mulheres negras, rurais e quilombolas.
Nos últimos anos, os números de violência de gênero no país têm sido motivo de preocupação constante. Casos de feminicídio, ameaças, agressões físicas, psicológicas e simbólicas continuam a marcar o cotidiano de milhares de brasileiras. Para muitas mulheres quilombolas, essa violência se soma a outros desafios históricos, como o racismo estrutural, a disputa por territórios e a ausência de políticas públicas adequadas.
Nesse contexto, o enfrentamento à violência contra as mulheres não pode ser responsabilidade exclusiva delas. É também tarefa dos homens – nas comunidades, nas famílias, nas organizações e na sociedade como um todo – assumir compromisso com a transformação das relações de poder que sustentam o machismo e a violência.
Defensoras dos territórios e da vida
Nos quilombos, as mulheres desempenham papéis fundamentais na defesa da terra, na preservação da cultura e na organização comunitária. São lideranças, agricultoras, artesãs, mães, educadoras e guardiãs da memória ancestral.
Apesar desse protagonismo histórico, muitas vezes elas ainda enfrentam barreiras dentro e fora das comunidades para ocupar plenamente os espaços de decisão. Para o coordenador executivo e integrante do coletivo de juventude da CONAQ, José Andrey, fortalecer o protagonismo das mulheres quilombolas passa, antes de tudo, por uma mudança de postura dos homens.
“Para a gente fortalecer de verdade o papel das mulheres no nosso quilombo, a primeira coisa é a gente aprender a escutar mais e recuar um pouco. Historicamente, são elas que seguram as pontas e são a base da nossa resistência, mas a gente sabe que o machismo muitas vezes acaba calando essa liderança nas reuniões da associação e nas decisões do dia a dia.”
Segundo ele, o conceito quilombola de bem-viver só se concretiza quando há equilíbrio e respeito entre todos os membros da comunidade. “No nosso conceito, a comunidade só tem equilíbrio se a gente parar de querer ocupar todo o espaço de fala. É ficar ligado quando uma companheira for interrompida e chegar junto pra garantir que a palavra dela seja a última sobre o que ela mesma propôs.”
Para José Andrey, o fortalecimento da participação política das mulheres quilombolas também passa pela divisão justa das responsabilidades do cuidado.
“Se as mulheres continuam sobrecarregadas com o serviço de casa, cuidando das crianças e dos nossos velhos enquanto a gente sai pra discutir o futuro da comunidade, a nossa luta tá capenga. Fortalecer o protagonismo delas é a gente assumir o rojão dessas tarefas do cuidado de peito aberto. A liberdade política de uma mulher quilombola começa dentro de casa, com a nossa responsabilidade.”
Romper o silêncio
A violência contra as mulheres não se manifesta apenas em casos extremos. Ela também se expressa em pequenas atitudes cotidianas, em comentários machistas, na desvalorização da fala feminina ou na naturalização de comportamentos agressivos.
Para o coordenador executivo da CONAQ, Florisvaldo Rodrigues, os homens quilombolas têm um papel central na construção de comunidades mais seguras. “Os homens quilombolas têm um papel decisivo na construção de comunidades mais seguras para as mulheres, atuando na prevenção e no enfrentamento da violência no cotidiano, nas atitudes, nas conversas e nas decisões coletivas.”
Ele destaca que o combate à violência começa nas atitudes mais simples do dia a dia. “É ser exemplo em suas próprias casas e na comunidade, rejeitando piadas, comentários ou comportamentos machistas. Também significa atuar de forma justa nas tarefas domésticas e reconhecer e valorizar a atuação das mulheres.”
Florisvaldo também alerta para a importância de romper com a cultura do silêncio. “Nunca se calar diante de agressões ou sinais de violência. Precisamos romper com a cultura do silêncio, apoiar e acolher as mulheres quilombolas que denunciam, acreditando em suas falas e buscando proteção.”
Além disso, fortalecer a participação das mulheres nas estruturas de decisão também é parte fundamental desse processo. “Reconhecer e apoiar lideranças mulheres quilombolas nos processos de decisão do território, nos empenhando cada vez mais na eleição das companheiras para direção das associações. Assim as mulheres se sentem mais à vontade e seguras com sua representatividade.”
Igualdade começa nas atitudes do cotidiano
O compromisso não se constrói apenas em discursos ou datas simbólicas. Ele se revela nas escolhas e atitudes de cada dia. Para Pedro Garcês, integrante do coletivo de comunicação da CONAQ, ser um homem comprometido com o respeito às mulheres é reconhecer que essa luta também é responsabilidade masculina. “Ser um homem comprometido com a igualdade de gênero é reconhecer que as mulheres devem ter os mesmos direitos, respeito e oportunidades em todos os espaços.”
Ele explica que esse compromisso precisa ser vivido de forma concreta. “Para mim, isso significa agir no dia a dia contra o machismo, valorizar a voz e o protagonismo das mulheres e contribuir para construir relações mais justas, tanto dentro da comunidade quanto na sociedade.”
O comunicador também destaca que suas experiências pessoais reforçam essa compreensão. “Venho de uma família onde a maioria são mulheres. Aprendi desde cedo a reconhecer sua força, sua luta e a importância do respeito. Por isso entendo que a luta das mulheres também é uma responsabilidade nossa.”
Para além das homenagens
No Dia Internacional das Mulheres, é comum que discursos e belas palavras se multipliquem. No entanto, o verdadeiro significado da data está na transformação concreta das relações sociais. Para o coordenador executivo da CONAQ Fábio Fernando Sousa, as mulheres quilombolas são pilares da história e da resistência do povo quilombola.
“As mulheres quilombolas são verdadeiras guerreiras, símbolos de resistência e força na nossa história. Elas lutaram e lutam pela liberdade, pela igualdade e pela justiça, não apenas para si mesmas, mas para toda a comunidade quilombola.”
Ele ressalta que essas mulheres exercem múltiplos papéis fundamentais. “Elas são mães, avós, líderes, artesãs, agricultoras e guardiãs da cultura e da tradição. São elas que mantêm viva a memória e a identidade do nosso povo, transmitindo de geração em geração os saberes, as crenças e os valores. As mulheres quilombolas são a raiz da nossa história, a força do nosso presente e a esperança do nosso futuro.”
Um compromisso coletivo
Enfrentar a violência contra as mulheres exige mudanças profundas na forma como as relações sociais são construídas. Nos territórios quilombolas, essa transformação passa pelo fortalecimento dos valores ancestrais de respeito, cuidado coletivo e proteção à vida.
Significa garantir que as mulheres possam viver com segurança em seus territórios, participar das decisões políticas, exercer sua liderança e desenvolver plenamente suas potencialidades. A reflexão que se coloca é clara: a luta contra a violência de gênero não pode ser travada apenas pelas mulheres. Os homens precisam assumir seu papel, revisar comportamentos, romper com o silêncio diante das injustiças e agir para construir comunidades mais justas.
Como reforça o coordenador executivo e cofundador da CONAQ, Ivo Fonseca, essa luta sempre esteve presente na trajetória do movimento quilombola e precisa continuar sendo enfrentada de forma conjunta. “Nós sempre levantamos essa bandeira. Nunca ficamos omissos nessa questão da violência contra a mulher. Sempre trabalhamos pelo respeito, pelo afeto e pela construção coletiva.”
Para ele, o combate à violência e ao machismo é parte fundamental do projeto político quilombola. “Ao meu ver é um processo que passa por uma mudança de comportamento educacional do povo, principalmente do homem. É um entendimento que nós, homens, temos que trazer para nós e fazer uma análise de mudança de comportamento. A bandeira do movimento, é a luta pelo bem-viver para todas as mulheres e para todos nós partindo sempre do princípio do respeito e da luta coletiva para fazer esses enfrentamentos”, concluiu.
Violência crescente reforça urgência de proteção
Texto por Thaís Rodrigues CONAQ/Uma Gota No Oceano, publicado às 07:50:32
Categoria: Mulheres Quilombolas