30 abr

Quebradeiras de Coco Babaçu e o Impacto Socioambiental.

As quebradeiras de coco babaçu desempenham um papel fundamental nas comunidades rurais do Brasil, especialmente nas regiões onde o babaçu floresce em abundância. Estas mulheres, enraizadas em tradições que remontam a várias gerações, desempenham um papel que vai para além de garantir a sustentabilidade de suas famílias e comunidades. Ao dedicarem-se à tarefa de extrair e beneficiar o coco babaçu, elas atuam como verdadeiras guardiãs de uma herança cultural valiosa, transmitida de mãe para filha ao longo dos séculos.

É importante destacar que o trabalho das quebradeiras de coco babaçu não se restringe apenas à geração de renda, a atuação delas vai para além, se insere em um contexto mais amplo. Elas desempenham um papel importante na preservação ambiental, no desenvolvimento social, econômico e na preservação da biodiversidade. Enquanto realizam a extração do coco, elas contribuem para a manutenção dos ecossistemas por meio do processo de seleção e disseminação do plantio, garantindo que as áreas permaneçam saudáveis e equilibradas para as gerações futuras.

O trabalho desenvolvido pelas quebradeiras é fundamental para o fortalecimento da identidade social e cultural, e para a manutenção das comunidades em que vivem. Suas práticas e conhecimentos tradicionais não só sustentam seu modo de vida, mas também fortalecem os laços comunitários. Ao reconhecer a importância das mulheres quebradeiras de coco e suas contribuições para a economia e o meio ambiente, bem como, a garantia da preservação e da herança sociocultural.

Diante deste contexto, a então matéria dialoga com a perspectiva do Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB), que tem como missão “Organizar as quebradeiras de coco para conhecer e defender seus direitos, promover sua autonomia política e econômica, lutar por seus territórios e por livre acesso ao babaçu, promovendo melhores condições de vida para essas mulheres e suas famílias”, dentre outras mulheres quebradeiras de coco das comunidades quilombolas, da baixada Maranhense.

Maria Ednalva Ribeiro da Silva

 Dona Maria Ednalva Ribeiro da Silva, Quebradeira de Coco e Vice Coordenadora do MIQCB do Povoado Lago Verde – TO. Em sua fala explica que as quebradeiras de coco babaçu da região resistem à privatização das terras e ao uso de agrotóxicos, preservam as práticas tradicionais e buscam o desenvolvimento através de cooperativas e associações locais.

“Nosso principal desafio é a ameaça ao nosso modo de vida, representado pela luta pela preservação do babaçual e o acesso sustentável aos recursos naturais. A privatização das terras, a grilagem e o uso indiscriminado de agrotóxicos por fazendeiros têm causado danos irreparáveis à floresta de babaçu, colocando em risco não apenas a subsistência das comunidades, mas também a biodiversidade e os ecossistemas locais. No processo de extração e beneficiamento do coco babaçu, as quebradeiras utilizam técnicas tradicionais e manuais, garantindo o aproveitamento integral do fruto. Desde a quebra do coco até a produção de óleo, sabão e outros produtos derivados, cada etapa é realizada de forma artesanal, respeitando os princípios de sustentabilidade e preservação ambiental. Apesar dos desafios, as quebradeiras de coco babaçu têm se organizado em cooperativas e movimentos sociais, buscando capacitação, apoio técnico e fortalecimento das suas práticas tradicionais. Por meio de iniciativas como o Projeto Baqueli e o Centro de Formação do MIQCB, temos acesso a cursos, oficinas e recursos que contribuem para o desenvolvimento socioeconômico e cultural das comunidades. No entanto, os desafios persistem com a pressão da agroindústria e a falta de fiscalização ambiental, quanto internamente, com a necessidade de conscientização e mobilização das próprias comunidades. Apesar das limitações tecnológicas, utilizamos recursos como telefones celulares para facilitar a comercialização dos nossos produtos e manter a conexão com o mundo exterior”.

As quebradeiras de coco enfrentam em seu dia a dia grandes desafios, como derrubadas de palmeiras, acesso ao palmeirais, a luta pela titulação de terras, o combate às queimadas, dentre outros.

Maria do Socorro Cutrim

Dona Maria do Socorro Cutrim (Preta), Quebradeira de Coco da Comunidade Quilombola Camaputiua, do município de Cajari-MA.

“Como mulheres quebradeiras, damos continuidade aos trabalhos que nossos ancestrais nos legaram. Enfrentamos desafios diários, como as derrubadas de palmeiras e cercas elétricas nos campos, que nos impedem de passar. Além disso, lutamos pela titulação há muitos anos e combatemos as queimadas. Para a extração do coco babaçu, utilizamos técnicas tradicionais coletamos, quebramos, higienizamos e trituramos as amêndoas, levando ao fogo para extrair o óleo, que depois é purificado manualmente. Causamos um impacto ambiental na preservação dos babaçuais, fonte de nossa renda, mas sempre com respeito ao ambiente. O benefício econômico que trazemos para nossa família e comunidade é obtido através dos derivados do babaçu, como leite, óleo, massa para mingau, bolo, sorvete, biscoito e palha para artesanato. Vendemos esses produtos para comprar remédios, roupas, calçados e ajudar na educação de nossas crianças. Além disso, compartilhamos nosso conhecimento através de oficinas para melhorar a vida financeira das famílias. Apesar do apoio do MIQCB precisamos de mais capacitação em nosso território, especialmente para os jovens, pois a formação foi há muito tempo. Enfrentamos desafios sociais, como a falta de estradas e reconhecimento do poder público, além do baixo valor pago pela nossa produção. Em termos de tecnologia, temos apenas dois equipamentos de trituração e um notebook do projeto MIQCB. Precisamos de tecnologia avançada em nossa comunidade para melhorar nossos processos”.

Enfrentando desafios constantes com resiliência e determinação, as quebradeiras de coco babaçu desempenham um papel importante na preservação do meio ambiente e no desenvolvimento sustentável em suas comunidades. O não acesso às políticas públicas como, saúde, educação, tecnologia e infraestrutura, contribuem ainda mais para que essas mulheres continuem num contexto de invisibilidade social e violência.

Francisca Maria da Conceição

Dona Francisca Maria da Conceição, quebradeira de coco babaçu, Diretora da Associação da Comunidade Quilombola Barro Vermelho/Chapadinha – MA, enfatiza o quanto é desvalorizado pela sociedade o trabalho desenvolvido pelas quebradeiras de coco, mesmo sabendo o quanto é importante ao meio ambiente e para a sustentabilidade de várias famílias.

“Como quebradeiras de coco babaçu, mantemos o protagonismo para garantir a vitalidade e saúde dos babaçuais. Valorizamos como ativistas em defesa das palmeiras, desempenhando nosso papel na comunidade. O maior desafio enfrentado é o avanço do agronegócio nos arredores do território, onde os babaçuais estão cada vez mais escassos. Percorremos longas distâncias em busca de poucos cocos, enfrentando dificuldades no transporte. A quebra dos cocos para extrair as amêndoas é realizada sem causar impactos, seja de forma tradicional ou agroecológica. Cuidamos para não cortar ou destruir, apenas colhemos de maneira responsável. As amêndoas são vendidas para sustento da família, o azeite é comercializado em mercados e feiras de agroecologia, e a casca é transformada em carvão de qualidade superior. A polpa é utilizada na produção de alimentos e remédios. Realizamos formações e buscamos recursos financeiros em editais de apoio às causas sociais. Apesar disso, nosso trabalho ainda é subestimado por uma parcela da sociedade, mas continuamos nos fortalecendo. Na nossa comunidade, preservamos métodos tradicionais de trabalho, pois acreditamos na qualidade e saúde dos produtos obtidos dessa forma”. 

As Mulheres quebradeiras de coco desempenham um papel fundamental na organização da sociedade, são lideranças sindicais, ativistas de movimento social, religiosas, mães, tias, avós e filhas. Enfrentam desafios diários na integração de funções cotidianas com a prática da quebra do coco, agricultura familiar, extrativismo e muitas como ativistas ambientais.

Maria Ludovica Costa Pereira

Dona Maria Ludovica Costa Ferreira, Quebradeira de Coco Babaçu da Comunidade Quilombola Vila das Almas, no território Quilombola Saco das Almas, Brejo – MA.

“As quebradeiras desempenham um papel fundamental ao promover ensinamentos e responsabilidade dentro das comunidades. Nossos principais desafios estão relacionados ao desmatamento, queimadas e à falta de tecnologia. Para a extração do coco, utilizamos técnicas tradicionais como o machado, o macete, o cofo e o facão. Para produzir o azeite, necessitamos de lenha, forno de barro, panela, pilão e mão de pilão. Colhemos os cocos e utilizamos algumas palhas das palmeiras sem derrubá-las ou agredi-las. Nossos únicos benefícios provêm da venda do azeite, quando conseguimos comercializar um ou dois litros. Não recebemos apoio de instituições. Nosso maior desafio social é combater o crime ambiental para a proteção de nossas comunidades, e também lutamos para ser reconhecidas e que valorizem nosso trabalho como quebradeiras de coco”.

Dessa maneira, as Quebradeiras de Coco continuam resilientes, apesar dos desafios encontrados, se apegam na esperança de um futuro onde possam continuar a desempenhar suas funções e assim contribuir com a sustentabilidade ambiental social e econômica de suas comunidades.  O enfrentamento a violência no campo, o acesso a políticas públicas, são também bandeiras levantadas por cada uma dessas Mulheres, que lutam pela melhoria da qualidade de vida e principalmente o acesso a terra e ao território, que garante a sobrevivência das comunidades de toda uma herança cultural historicamente ameaçada e invisibilizada pelo estado Brasileiro.

 

Referências:

https://www.miqcb.org/

 

Entrevistas com Mulheres Quebradeiras de Coco do estado do Maranhão e Tocantins.

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