16 jul

COVA NO QUINTAL

Cova no quintalSandra Braga, 51, “filha e neta do quilombo”, conta que sofre ameaças desde 2009 (Foto: José Cruz/Agência Brasil)

Em 27 de julho de 2019, se não tivesse sido assassinada, Marielle Franco completaria 40 anos. Além dela, entre janeiro e julho de 2018, 58 defensoras e defensores de direitos humanos foram mortos no Brasil. Em 2017, foram 71. A situação é ainda mais grave no campo. De 2016 a 2017, houve um aumento de 350% nos assassinatos de quilombolas.

“Mas nós continuamos defendendo nossos territórios, nossas comunidades. Botamos a cara para alertar nosso povo a não vender a terra, que é patrimônio ancestral”, afirma Sandra Braga, liderança do Quilombo do Mesquita, em Goiás, e membro da coordenação executiva da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq). “Não podemos abrir mão do espaço sagrado onde vivemos em favor do capitalismo e de um modelo de desenvolvimento que não beneficia o nosso povo.”

Há cerca de quatro anos, a mãe de Sandra encontrou uma cova no quintal de sua casa. Era a ameaça mais concreta, furada na terra, que a quilombola recebia. A luta coletiva de sua comunidade, corporificada em lideranças como ela, tem sido atacada de muitas formas. Alguns quilombolas têm sido cooptados a defender a venda de terrenos a fazendeiros, empresas e empreendimentos imobiliários. E outros têm sido alvo de bala.

O primeiro registro do Quilombo do Mesquita, formado atualmente por quase 800 famílias, é de 1746. A localização, a 50 quilômetros de Brasília, e as muitas nascentes de água têm atraído a especulação imobiliária que envolve uma das empresas de José Sarney.

Mais de 6 mil quilombos estão em luta para preservar seus territórios, por acesso a terra, água, moradia, educação e proteção a defensores e defensoras de direitos humanos. No último mês de abril, a Conaq – na figura de Sandra Braga, Danilo Serejo (da cidade de Alcântara, MA) e Sandra Silva (do Quilombo Carrapatos da Tabatinga, MG) – esteve na Jamaica com outros onze representantes do movimento negro brasileiro para denunciar o pacote genocida, chamado “anticrime”, de Sergio Moro.

Entre as demandas apresentadas à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, protocolaram a exigência de que o Estado brasileiro “atue de forma coordenada para intervir em situações de violências ocorridas em comunidades quilombolas, em especial as que atentem contra a vida, agindo de forma a prevenir as violações e, quando ocorram, para investigar, processar e responsabilizar mandantes e executores de ações violentas”.

Sandra Braga, aos 51 anos, “filha e neta do quilombo”, como gosta de dizer, conta que sofre ameaças desde 2009. Por defender que a terra pertence à sua comunidade e às futuras gerações, ouve relatos de colegas que foram alertados a não andarem com ela porque “sua cabeça vai rolar”. Em 2010, Sandra enfrentou uma campanha de difamação de jornais locais, depois de acionar o Ministério Público (MP) contra uma fazenda que planejava desmatar 84 hectares de cerrado pertencentes ao território do quilombo. Conseguiram barrar o desmatamento de 50 hectares. “Queriam construir um condomínio na região. Barramos e vieram com tudo para cima de mim e de outras lideranças”, conta Sandra. “Mas a gente não pode parar a vida.”

A vitória da comunidade se repetiu em 2018, quando o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) publicou uma resolução que aprovava a redução do território do quilombo em mais de 80%. A luta organizada constrangeu o conselho diretor do próprio Incra a revogar a decisão.

No último 11 de junho, Sandra Braga recebia representantes de 60 entidades do movimento negro para uma reunião na sede da Conaq, em Brasília, quando Carlos Cabral, de 58 anos, presidente do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais do município de Rio Maria (PA), foi assassinado com quatro tiros, um deles na cabeça. A média é de um defensor a cada seis dias. “Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?”, postou Marielle Franco no Twitter, um dia antes de ser alvejada com quatro tiros na cabeça.

BIANCA SANTANA é escritora, jornalista, pesquisadora, doutoranda em Ciência da Informação pela USP, autora de Quando me descobri negra (SESI-SP)

*Matéria publicada originalmente no site Revista Cult em 03 de julho de 2019

**Autoria Bianca Santana e Eick