22 Maio

COLETIVO DE MULHERES NA CONAQ: QUEM SOMOS, ONDE ESTAMOS, O QUE FAZEMOS E O QUE QUEREMOS

Por: COLETIVO DE MULHERES NA CONAQ

QUEM SOMOS NÓS?

Somos mulheres e meninas que, apesar das grandes estiagens, nos mantemos firmes até a chuva chegar, que nos protegemos e nos amparamos quando é o frio que nos ataca, que nos reinventamos quando são as enchentes que destroem nossas casas e nossas roças sem perder a esperança de lutar por dias melhores e um mundo mais justo. Ao defender nossos territórios, temos sido ameaçadas e, em nome deles temos morrido – muitas de nós.

 As perguntas: quem somos? onde estamos? o que fazemos? e o que queremos? Seriam desnecessárias se nossas agências não tivessem sido tão violentadas e roubadas. Se nossos corpos não tivessem sido violentados, marcados e despedaçados para satisfazer às crueldades do racismo e do machismo. E, se nossas vozes não tivessem sido caladas? Se nossas vozes não tivessem sido tão silenciadas, talvez já tivéssemos superado parte da ignorância que a sociedade brasileira tem a nosso respeito.

 Sempre quisemos falar, porém, ignoradas e separadas de muitos bens públicos de saúde, educação e de nossos territórios. Ah, muitos desses bens foram construídos com o nosso suor, sem deles podermos usufruir. E quem nos separou e continua nos separando desses bens é a cultura do machismo e racismo, que se somam e produzem a nossa classe social, a classe mais empobrecida. Ah, isso nos abala? Claro que sim! Só não tira de nós a capacidade de lutar e defender nossos territórios, nossos saberes e nossa existência. Também não tiram de nós o desejo de viver dignamente: nós que estamos aqui hoje e as que ainda virão.

Somos nós mulheres em defesa da vida ou de um “bem – viver” que atenda ao mundo urbano e rural, as crianças e os adultos. Não nos agarramos muito às classificações, aliás, o que mais nos anima e fortalece é a nossa pertença às nossas raízes ancestrais africanas. Nós nos definimos como mulheres quilombolas, urbanas e rurais. Enfrentamos dia a dia as crueldades do racismo e machismo, sem perder a capacidade de lutar, nos indignar e tocar a vida, e mais, não abrimos mão da nossa beleza e a firmeza herdadas de Dandara, Esperança Garcia, Tereza de Benguela, Mendencha, Francisca Ferreira, Agostinha Cabocla. Mãe Sebastiana, Dona Rosa, Dona Procopa, Mãe Magá… e, sendo assim, não abrimos mão de sorrir e assim seguimos fazendo, ensinando e aprendendo, dançando trancelim e forró, coco, jongo, carimbó, sussa, catira, frevo, xaxado, fazendo artesanato, plantando e colhendo.

ONDE ESTAMOS?

Localizados no interior de todos os Estados e em muitas cidades brasileiras. Estamos no semiárido brasileiro, na Amazônia, no Cerrado, no Pantanal, na Mata Atlântica e na Caatinga.

Somos mulheres e meninas quilombolas que habitamos no meio rural e também no meio urbano. Somos parceiras, mulheres, filhas, companheiras de nossos homens quilombolas. Com eles fazemos a luta em defesa de nossos territórios e não aceitamos sermos diminuídas, desrespeitadas e violentadas. E claro! E quando moramos no meio urbano é o urbano periférico e longe dos serviços públicos de saúde, educação, moradia, portanto, expostas às muitas violências.

E o rural? O rural é aquele que ainda guarda rios sem poluição, florestas em pé, palmeiras, castanhais, babaçuais. Áreas com grandes extensões de minérios, entre outros recursos naturais não nominados aqui. São esses bens que têm gerado tanta cobiça dos grileiros. Somos remanescentes das comunidades dos quilombos, grupos étnico-raciais, segundo critérios de autoatribuição, com trajetória histórica própria, dotados de relações territoriais específicas, com presunção de ancestralidade negra relacionada com a resistência à opressão histórica sofrida. Somos quilombos e quilombolas.

O QUE FAZEMOS?

Muitos frutos de nossas mãos e mentes foram roubados sem muitas vezes serem vistos. Essas mãos, muitas delas nunca escreveram, mas, deixaram suas memórias, seu legado é com isso que nos alimentamos e fortalecemos para acordar todos os dias para lutar. Nossas mãos trabalham na roça, cozinham, trançam, tocam, educam, quebram coco, extrai: a castanha, o açaí, o caroá.

Nossas mãos limpam, lavam, colhem, pintam, escrevem, pescam, bordam, fazem artesanato. Nossas mãos cuidam, criam e recriam vidas e possibilidades de resistência e existência.

Esse legado é o que temos hoje e o entendemos com o nome de (re)existência. Teria um nome mais adequado para esse legado do que resistência? É em nome dessas mãos, corpos, sonhos e mentes que estamos aqui. Esta é a voz e escrita coletiva de mulheres quilombolas de ontem, hoje e amanhã – somos o Coletivo de Mulheres da CONAQ.

O QUE QUEREMOS?

Queremos nossas terras tradicionalmente ocupadas, aquelas que sejam suficientes para a garantia de nossa reprodução física, social, econômica e cultural.

Queremos viver em nossos quilombos e viver em liberdade. Queremos nossos territórios livres de mineração, madeireiros, grileiros e agrotóxicos e todos territórios titulados em nossos nomes. Queremos produzir alimentos saudáveis. Queremos educar nossas crianças, jovens e adultos do nosso jeito – do jeito quilombola. Queremos praticar nossas curas, rezas e medicinas sem ameaças, censuras e julgamentos racistas.

Queremos fazer nossas roças, bordados, pinturas, artesanato… Queremos ver nascer e crescer nossos filhos e filhas sem medo, em nossos territórios. Queremos poder sair e voltar para nossas casas sem ameaças, estejam elas nas cidades ou no campo. Queremos acessar os serviços de saúde e educação e, sobretudo, queremos nossos territórios livres e titulados.

Por isso, chamamos todas as mulheres quilombolas de todo o Brasil para somarmos forças e juntas, lutar pela liberdade de nossos territórios, nossos corpos e nossos bens. E em um único grito dizer: vamos lutar e resistir para existir!

Coletivo de Mulheres da Coordenação Nacional das comunidades negras rurais quilombolas – CONAQ.

 

 

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